Ha já muito tempo que não escrevo nada aqui (tenho estado muito ocupada), e infelizmente já me esqueci de muitos dos sonhos que tenho tido.
Esta noite porem, tive um sonho que não posso adiar.
Um pesadelo, alias.
Sonhei que estava a dormir no meu quarto, e que ao acordar me deparava com um grande e gordo homem negro sentado aos pés da minha cama.
Ao lado da minha cama, no chão, estava uma gambiarra com pequeninas e coloridas lanternas chinesas que realmente tenho, e que, de facto, estava ligada naquela noite, projectando uma luz avermelhada no meu quarto.
Tudo estava tal e qual a realidade.
Excepto o homem, que olhava para mim e sorria. Parecia louco.
Pedi-lhe para sair do meu quarto, mas ele limitou-se a rir (e penso que também cantarolou qualquer coisa) e não se mexeu.
Gritei pelo meu irmão que, muito, mas mesmo muito chateado por eu o ter acordado, veio ate ao meu quarto (o quarto dele e mesmo ao lado do meu) e puxou e empurrou o homem la para fora. Logo a seguir, deitou-se, decidido a não se levantar novamente ate de manha.
Entretanto, eu saltei da cama e, entreabrindo a porta, tirei a chave do lado de fora e tentei trancar a porta a partir de dentro.
Quando tinha acabado de o fazer, vi as pontas de um gancho de cabelo aparecerem na fechadura e empurrarem a chave para fora, ao mesmo tempo que a porta se abria:
-Não! - gritei.
Esforcei-me por voltar a fechar a porta, empurrei-a e atirei-me contra ela, mas o homem era demasiado forte... Também gritei pelo meu irmão, mas ele não apareceu.
Não me lembro como terminou o sonho. Sei no entanto que o homem não me queria fazer mal nenhum, só queria estar no meu quarto, sentado aos pés da minha cama. Eu e que não o queria la... era perturbador.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
Sonhos depois de uma separaçao
Agora que já não me dói tanto o orgulho, posso aqui escrever alguns sonhos que tive pouco depois de me separar do meu ex-namorado.
Na altura, tinha esperança de poder pelo menos sonhar que continuávamos juntos, para que durante a noite a dor não fosse tão grande quanto de dia.
Porem, o meu subconsciente parecia bastante consciente do nosso afastamento.
Sonhei que nos reencontrávamos numa pequena sala, muito estreita, em forma de "L", com as paredes pintadas de azul escuro.
Eu estava num extremo, e não conseguia ver alem da esquina. A minha frente estava uma mesa de madeira escura e antiga, e logo a seguir estava ele.
Ao lado dele, Havia um grande relógio de pêndulo.
Eu estava fora de mim por voltar a vê-lo, mas ele parecia indiferente... não: parecia que estava aborrecido por me voltar a ver, como se eu fosse um grande inconveniente.
Contou-me que já não queria saber de mim, que não sentia nada por mim... Revelou-me que, uma noite apenas depois de termos acabado o namoro, traíra-me.
Disse-o assim, utilizando aquela mesma palavra: "trai-te".
Repetiu que arranjara outra, que gostara, e mandou-me embora.
Senti o coração esmagado, como se estivesse acordada e ele me tivesse realmente dito aquilo.
Corri para ele, enfurecida, e empurrei-o sem pensar contra o relógio de pêndulo.
Bateu com a cabeça no vidro e caiu, desmaiado ou morto, entre a mesa e o relógio (que permaneceu de pé e a trabalhar), rodeado de cacos.
-Liro! - solucei, enquanto me ajoelhava ao lado dele e o puxava para o meu colo. Desejei com todas as minhas forças que o tempo voltasse atrás, como nos filmes ou nos jogos, e eu pudesse remediar o que fizera.
Tirei-lhe os pedaços de vidro da carne, puxando com especial cuidado um que ficara profundamente enterrado na cabeça, no meio de todo aquele longo cabelo castanho.
Limpei-lhe o sangue com as mãos, não me lembro se conseguia sequer chorar, de tão triste e assustada que estava:
-Desculpa, desculpa! -gemi, ao mesmo tempo que o sacudia devagarinho, como se estivesse a tentar reanima-lo.
De repente, ouvi passos e o pai dele apareceu ali, ao meu lado, a olhar para o que eu fizera ao seu filho.
Uma outra vez tive um sonho particularmente ridículo. O mundo ia acabar, mas só em Portugal (veja-se bem a nossa sorte...).
Neste distorcido Universo, as escolas funcionavam como orfanatos que se responsabilizavam a cem por cento dos alunos que lhes eram entregues. Como eu sabia que o Liro faltava habitualmente as aulas, tinha a certeza que ele não estaria presente quando os orfanatos se preparassem para nos evacuar para um local seguro: tinha de ir busca-lo.
Lembro-me vagamente de passar pelas janelas do orfanato, quando me ia embora, e ver os miúdos da minha escola numa grande batalha com os de outra escola. Estavam todos empoleirados nas janelas dos edifícios, que estavam frente a frente (e flutuavam em cima de plataformas,como se fossem barcos, ou jangadas), e atiravam tudo e mais alguma coisa uns aos outros.
Fui encontrar o Liro naquilo que parecia um insuflável gigante de cores vivas perto da baía de Tróia. Sera que o encontrei a ele?... Algo me diz que quem eu encontrei foi um mago que me deu um recado dele: tinha encontrado uma miúda com umas pernas fantásticas, e já não queria saber de mim... Preveniu-me também que tínhamos de tratar do divorcio: descobri então que, apesar de eu e o Liro não sermos casados, no sonho éramos noivos, e aparentemente precisávamos de um divorcio para deixarmos de o ser.
Muito triste, afastei-me... E pouco depois encontrei o meu amigo David, a bordo de um pequeno mas luxuoso barco, que me convidou para um passeio para me animar. Saltei para bordo e depois de um bom bocado no rio Sado fomos ate a escola D.Pedro IV, em Queluz, que frequentei do 5º ao 9º ano.
La, dirigimos-nos a papelaria (onde alem de material costumava comprar as senhas de almoço, e onde estava uma continua particularmente feia e mal humorada, de que ninguém gostava: a Dª Amélia, que tinha cabelo preto curto e ondulado, e óculos tão espessos que faziam parecer enormes os seus olhos ameaçadores).
La, compramos um gelado para cada um, e lembro-me de estar tão feliz que nem parecia que eu e o Liro nos tínhamos separado.
Outra noite sonhei que ele me revelava que tinha um jipe e namorava com um amigo seu que eu tinha conhecido. Foi tão perturbador...
Outras vezes ainda sonhei que o surpreendia com uma colega nossa (sempre a mesma)... e habitualmente eu dava a rapariga uma grande tareia.
Certa vez, atirei-a de uma janela, mas caraças, ela não morreu!
Depois sentia-me muito mal comigo mesma: não era preciso fazer nada daquilo, certamente ter-me-ia sentido melhor dizendo-lhe apenas o que tinha para lhe dizer.
Houve noites, também, em que me vi com outros homens, num misto de prazer e culpa, em que via outros mas pensava nele.
Na altura, tinha esperança de poder pelo menos sonhar que continuávamos juntos, para que durante a noite a dor não fosse tão grande quanto de dia.
Porem, o meu subconsciente parecia bastante consciente do nosso afastamento.
Sonhei que nos reencontrávamos numa pequena sala, muito estreita, em forma de "L", com as paredes pintadas de azul escuro.
Eu estava num extremo, e não conseguia ver alem da esquina. A minha frente estava uma mesa de madeira escura e antiga, e logo a seguir estava ele.
Ao lado dele, Havia um grande relógio de pêndulo.
Eu estava fora de mim por voltar a vê-lo, mas ele parecia indiferente... não: parecia que estava aborrecido por me voltar a ver, como se eu fosse um grande inconveniente.
Contou-me que já não queria saber de mim, que não sentia nada por mim... Revelou-me que, uma noite apenas depois de termos acabado o namoro, traíra-me.
Disse-o assim, utilizando aquela mesma palavra: "trai-te".
Repetiu que arranjara outra, que gostara, e mandou-me embora.
Senti o coração esmagado, como se estivesse acordada e ele me tivesse realmente dito aquilo.
Corri para ele, enfurecida, e empurrei-o sem pensar contra o relógio de pêndulo.
Bateu com a cabeça no vidro e caiu, desmaiado ou morto, entre a mesa e o relógio (que permaneceu de pé e a trabalhar), rodeado de cacos.
-Liro! - solucei, enquanto me ajoelhava ao lado dele e o puxava para o meu colo. Desejei com todas as minhas forças que o tempo voltasse atrás, como nos filmes ou nos jogos, e eu pudesse remediar o que fizera.
Tirei-lhe os pedaços de vidro da carne, puxando com especial cuidado um que ficara profundamente enterrado na cabeça, no meio de todo aquele longo cabelo castanho.
Limpei-lhe o sangue com as mãos, não me lembro se conseguia sequer chorar, de tão triste e assustada que estava:
-Desculpa, desculpa! -gemi, ao mesmo tempo que o sacudia devagarinho, como se estivesse a tentar reanima-lo.
De repente, ouvi passos e o pai dele apareceu ali, ao meu lado, a olhar para o que eu fizera ao seu filho.
Uma outra vez tive um sonho particularmente ridículo. O mundo ia acabar, mas só em Portugal (veja-se bem a nossa sorte...).
Neste distorcido Universo, as escolas funcionavam como orfanatos que se responsabilizavam a cem por cento dos alunos que lhes eram entregues. Como eu sabia que o Liro faltava habitualmente as aulas, tinha a certeza que ele não estaria presente quando os orfanatos se preparassem para nos evacuar para um local seguro: tinha de ir busca-lo.
Lembro-me vagamente de passar pelas janelas do orfanato, quando me ia embora, e ver os miúdos da minha escola numa grande batalha com os de outra escola. Estavam todos empoleirados nas janelas dos edifícios, que estavam frente a frente (e flutuavam em cima de plataformas,como se fossem barcos, ou jangadas), e atiravam tudo e mais alguma coisa uns aos outros.
Fui encontrar o Liro naquilo que parecia um insuflável gigante de cores vivas perto da baía de Tróia. Sera que o encontrei a ele?... Algo me diz que quem eu encontrei foi um mago que me deu um recado dele: tinha encontrado uma miúda com umas pernas fantásticas, e já não queria saber de mim... Preveniu-me também que tínhamos de tratar do divorcio: descobri então que, apesar de eu e o Liro não sermos casados, no sonho éramos noivos, e aparentemente precisávamos de um divorcio para deixarmos de o ser.
Muito triste, afastei-me... E pouco depois encontrei o meu amigo David, a bordo de um pequeno mas luxuoso barco, que me convidou para um passeio para me animar. Saltei para bordo e depois de um bom bocado no rio Sado fomos ate a escola D.Pedro IV, em Queluz, que frequentei do 5º ao 9º ano.
La, dirigimos-nos a papelaria (onde alem de material costumava comprar as senhas de almoço, e onde estava uma continua particularmente feia e mal humorada, de que ninguém gostava: a Dª Amélia, que tinha cabelo preto curto e ondulado, e óculos tão espessos que faziam parecer enormes os seus olhos ameaçadores).
La, compramos um gelado para cada um, e lembro-me de estar tão feliz que nem parecia que eu e o Liro nos tínhamos separado.
Outra noite sonhei que ele me revelava que tinha um jipe e namorava com um amigo seu que eu tinha conhecido. Foi tão perturbador...
Outras vezes ainda sonhei que o surpreendia com uma colega nossa (sempre a mesma)... e habitualmente eu dava a rapariga uma grande tareia.
Certa vez, atirei-a de uma janela, mas caraças, ela não morreu!
Depois sentia-me muito mal comigo mesma: não era preciso fazer nada daquilo, certamente ter-me-ia sentido melhor dizendo-lhe apenas o que tinha para lhe dizer.
Houve noites, também, em que me vi com outros homens, num misto de prazer e culpa, em que via outros mas pensava nele.
Sonhos em Atraso: Uma Epidemia de Zombies, A Animação do Exame de Condução e Moçambique
Não tenho tido muito tempo para escrever, e por isso este diário dos meus sonhos encontra-se um pouco desactualizado... Agora que tenho um pouco de tempo livre, vou aproveitar para o por em dia...
Não me recordo de quando sonhei este sonho... Havia uma epidemia de zombies, não sei se a nível de uma cidade, de um pais, ou se do mundo inteiro: sei que eu e os meus colegas constávamos entre os sobreviventes e todos os dias tínhamos de lutar para não nos juntarmos aos monstros.
Penso que para escapar a um grupo de monstros, tivemos de refugiar-nos num grande edifício abandonado, de tecto alto e salas amplas, com as portas e algumas das janelas escondidas atrás de tábuas velhas. A tinta das paredes estava gasta, e muitas vezes via-se apenas o áspero cimento.
Lembro-me de estar sozinha numa divisão, a olhar desconfiada a minha volta, antes de chamar os meus colegas: podíamos esconder-nos ali.
Ao explorar a casa, acabamos por descobrir uma serie de quartos com paredes claras em tons de pastel, e muito iluminados: a luz que entrava pelas janelas era tão brilhante que, ao olhar-mos para o exterior, via-mos apenas branco.
Havia em cada quarto varias camas, e espalhada sobre os lençóis e pelo o chão, a mais variada tralha: tudo objectos pessoais nossos.
Todos vasculhamos os quartos a procura dos nossos pertences. Eu encontrei o meu colar com um chifre de gazela (que a minha avo me deu a pouco tempo), um outro colar com um dente de javali (que esta estragado) e um terceiro objecto, que não considerei muito importante, visto que não me lembro dele. Analisei os dois colares, a pensar como me poderiam ser úteis para combater os monstros. Conclui que o chifre de gazela era demasiado curto para ferir com eficácia, alem de que muito facilmente se descolaria do pendente quando o tentasse arrancar da carne de algum zombie, pelo que limitei-me a po-lo ao pescoço, decidida a usa-lo como ultimo recurso, somente. O dente de javali, esse, pareceu-me indispensável: enrolei o fio do colar partido ao redor do dente e enfiei-o no bolso, pronto a puxa-lo para fora e usa-lo como se fosse um punhal.
Pouco depois, vários monstros conseguiram entrar no nossos esconderijo.
Eu e os meus colegas lutamos com bravura: ao ver um amigo em perigo, corri na sua direcção, esquivando-me de amigos e inimigos. O zombie tinha o meu amigo preso nos braços, e um outro zombie, ao lado dele, ria-se do sofrimento da presa. Estavam mesmo a estrada de um quarto.
-Olha a Carolina! - disse um deles como se gozasse comigo, enquanto o outro ria.
Mas eu ignorei-os, e, lembrando-me do que a minha mãe me ensinara, lancei-me sobre aquele que tinha preso o meu amigo e espetei o dente no seu olho esquerdo (sendo que estávamos frente a frente).
-Oh, não, tu não vais fazer isso! - duvidaram eles, antes de eu atacar.
Eu própria duvidei, fechei os olhos, com medo e enojada, e assim desferi o golpe, sentindo a minha arma enfiar-se na carne macia.
Quando tornei a abrir os olhos, usei o dente como se fosse um gancho e puxei o olhos para fora. Vi a carne vermelha rasgada sair lentamente da orbita, sem que caísse, curiosamente, uma única gota de sangue, e sem que o dente ficasse sujo. Tive esperanças de ter perfurado o cérebro.
-Ela gosta de deixar a mar, como se fosse uma assinatura! -disse o monstro que estivera assistir.
Ataquei-o a ele a seguir.
Eu e os meus colegas continuamos a lutar, eu a arrancar olhos como se arrancasse rolhas a garrafas de vinhos, ate um monstro me prender firmemente nos seus braços.
Desesperada, sabia que devia atacar os olhos, já que era a única maneira de os deter, mas apenas consegui apunhalar varias vezes o peito, cheia de medo de perder a minha arma, presa entre duas costelas.
O zombie ignorou os meus ataques, alias, riu-se mim.
Agarrou a minha cabeça como se a quisesse torcer sobre o pescoço, e fez-me cair sobre uma cama assim.
Com o tronco deitado no colchão e as pernas tombadas para fora da cama, a sentir as pernas do zombie entre as minhas enquanto ele se aproximava de mim para ter a certeza que não escapava nem me defendia enquanto me matava, tive tanto medo que me apeteceu gritar por socorro, mas não fui capaz.
De onde eu estava, conseguia ver a porta do quarto.
Foi então que apareceu Leonor, e segurou a cabeça do monstro da mesma maneira que ele segurara a minha. Não sei porque, mas eles ficavam completamente indefesos quando os seguravam assim.
Ela ia mata-lo. Eu sabia. Ia salvar-me!
Mas Leonor demorou tanto tempo a segredar palavras irónicas e ameaçadoras aos ouvidos do zombie que eu me irritei com ela, e me apeteceu gritar-lhe que eu própria a mataria se ela não se despachasse!
Mas não consegui.
Quando ela finalmente o matou (nao sei como foi, se lhe partiu o pescoço ou se fez outra coisa qualquer) levantei-me com um salto e afastei-me enquanto murmurava:
-Estava a ver que nunca mais!
Acho muito interessante o facto de os zombies serem pessoas perfeitamente normais: aqueles de que melhor me recordo são os dois que aterrorizavam o meu amigo: eram altos magros, e tinham o cabelo curto espetado, preto. Ambos eram pálidos, mas nada fora do normal.
Esta terça-feira foi um dia importante para mim: tive o meu exame de condução, e pouco depois teria de mostrar os meus trabalhos ao professor de animação Zepe, na faculdade.
Estava tão nervosa que dormi muito mal, e nem mesmo durante os meus sonhos pude escapar ao que me esperava no dia seguinte: sonhei que tinha de fazer, em papelinhos de 6x10 cm, em tinta da china preta, uma animação de um carro a circular na via, e de mim própria a conduzi-lo.
Zepe e o temível examinador observavam com ar austero o meu trabalho, enquanto decidiam se eu devia ou não passar.
Não me lembro do final do sonho, mas no dia seguinte correu tudo muito bem!
Uma noite destas sonhei com um curioso mapa: focava-se em Moçambique, apesar de eu ter a noção que era muito mais extenso e que se eu quisesse pudera viajar pelo mundo todo, como se se tratasse do Google Earth.
Neste meu sonho, a ilha de Madagáscar era o arquipélago da Madeira, e tudo estava disposto de uma maneira tão estranha e retorcida, que, um pouco a nordeste dessa Madeira, ficavam Portugal, e toda a restante Europa.
Ora, ou a Europa se encontrava no lugar da Ásia, ou Moçambique estava separado de África, e flutuava como uma ilha no Oceano, junto dos nossos arquipélagos.
Porque fui eu que sonhei este sonho, tenho o privilegio de saber que se tratava da segunda hipótese, sem precisar de mais justificações.
O mapa aparecia como pretexto para me explicarem que a minha colega Leonor morava em Moçambique, e podia vir todos os dias estudar a Faculdade de Belas Artes de Lisboa, que ficava na Madeira!
Enquanto me explicavam isto, pequenos traços vermelhos apareciam desenhados no mar, a ilustrar a rota que ela seguia todos os dias.
Fiquei felicíssima: podia ir viver para Moçambique, finalmente!, porque poderia continuar a estudar em Portugal, todos os dias.
Lembro-me vagamente de estar no costa verdejante, a olhar para uma ilha redonda pouco distante, que era Moçambique (o que e curioso, e que quando eu vira o mapa Moçambique não tinha aquele formato, nem o formato que realmente tem: era quase rectangular).
Acho que havia a minha esquerda uma outra grande ilha, muito alta, e toda rodeada de um espesso nevoeiro: podia ser uma enorme montanha que emergia do mar e subia ate ao céu, ou um gigantesco pedaço de terra flutuante (não sei porque não conseguia ver a base) como as montanhas Aleluia, do filme Avatar.
Mas não lhe prestei atenção: só tinha olhos para Moçambique, e para o oceano maravilhoso que se estendia a seguir, sem que se visse mais nada, alias, como se não existisse mais nada alem dele...
Conseguia ver a curvatura da terra, e já não sei se o céu estava azul, ou se dourado, como um por-do-sol cinematográfico.
Não me recordo de quando sonhei este sonho... Havia uma epidemia de zombies, não sei se a nível de uma cidade, de um pais, ou se do mundo inteiro: sei que eu e os meus colegas constávamos entre os sobreviventes e todos os dias tínhamos de lutar para não nos juntarmos aos monstros.
Penso que para escapar a um grupo de monstros, tivemos de refugiar-nos num grande edifício abandonado, de tecto alto e salas amplas, com as portas e algumas das janelas escondidas atrás de tábuas velhas. A tinta das paredes estava gasta, e muitas vezes via-se apenas o áspero cimento.
Lembro-me de estar sozinha numa divisão, a olhar desconfiada a minha volta, antes de chamar os meus colegas: podíamos esconder-nos ali.
Ao explorar a casa, acabamos por descobrir uma serie de quartos com paredes claras em tons de pastel, e muito iluminados: a luz que entrava pelas janelas era tão brilhante que, ao olhar-mos para o exterior, via-mos apenas branco.
Havia em cada quarto varias camas, e espalhada sobre os lençóis e pelo o chão, a mais variada tralha: tudo objectos pessoais nossos.
Todos vasculhamos os quartos a procura dos nossos pertences. Eu encontrei o meu colar com um chifre de gazela (que a minha avo me deu a pouco tempo), um outro colar com um dente de javali (que esta estragado) e um terceiro objecto, que não considerei muito importante, visto que não me lembro dele. Analisei os dois colares, a pensar como me poderiam ser úteis para combater os monstros. Conclui que o chifre de gazela era demasiado curto para ferir com eficácia, alem de que muito facilmente se descolaria do pendente quando o tentasse arrancar da carne de algum zombie, pelo que limitei-me a po-lo ao pescoço, decidida a usa-lo como ultimo recurso, somente. O dente de javali, esse, pareceu-me indispensável: enrolei o fio do colar partido ao redor do dente e enfiei-o no bolso, pronto a puxa-lo para fora e usa-lo como se fosse um punhal.
Pouco depois, vários monstros conseguiram entrar no nossos esconderijo.
Eu e os meus colegas lutamos com bravura: ao ver um amigo em perigo, corri na sua direcção, esquivando-me de amigos e inimigos. O zombie tinha o meu amigo preso nos braços, e um outro zombie, ao lado dele, ria-se do sofrimento da presa. Estavam mesmo a estrada de um quarto.
-Olha a Carolina! - disse um deles como se gozasse comigo, enquanto o outro ria.
Mas eu ignorei-os, e, lembrando-me do que a minha mãe me ensinara, lancei-me sobre aquele que tinha preso o meu amigo e espetei o dente no seu olho esquerdo (sendo que estávamos frente a frente).
-Oh, não, tu não vais fazer isso! - duvidaram eles, antes de eu atacar.
Eu própria duvidei, fechei os olhos, com medo e enojada, e assim desferi o golpe, sentindo a minha arma enfiar-se na carne macia.
Quando tornei a abrir os olhos, usei o dente como se fosse um gancho e puxei o olhos para fora. Vi a carne vermelha rasgada sair lentamente da orbita, sem que caísse, curiosamente, uma única gota de sangue, e sem que o dente ficasse sujo. Tive esperanças de ter perfurado o cérebro.
-Ela gosta de deixar a mar, como se fosse uma assinatura! -disse o monstro que estivera assistir.
Ataquei-o a ele a seguir.
Eu e os meus colegas continuamos a lutar, eu a arrancar olhos como se arrancasse rolhas a garrafas de vinhos, ate um monstro me prender firmemente nos seus braços.
Desesperada, sabia que devia atacar os olhos, já que era a única maneira de os deter, mas apenas consegui apunhalar varias vezes o peito, cheia de medo de perder a minha arma, presa entre duas costelas.
O zombie ignorou os meus ataques, alias, riu-se mim.
Agarrou a minha cabeça como se a quisesse torcer sobre o pescoço, e fez-me cair sobre uma cama assim.
Com o tronco deitado no colchão e as pernas tombadas para fora da cama, a sentir as pernas do zombie entre as minhas enquanto ele se aproximava de mim para ter a certeza que não escapava nem me defendia enquanto me matava, tive tanto medo que me apeteceu gritar por socorro, mas não fui capaz.
De onde eu estava, conseguia ver a porta do quarto.
Foi então que apareceu Leonor, e segurou a cabeça do monstro da mesma maneira que ele segurara a minha. Não sei porque, mas eles ficavam completamente indefesos quando os seguravam assim.
Ela ia mata-lo. Eu sabia. Ia salvar-me!
Mas Leonor demorou tanto tempo a segredar palavras irónicas e ameaçadoras aos ouvidos do zombie que eu me irritei com ela, e me apeteceu gritar-lhe que eu própria a mataria se ela não se despachasse!
Mas não consegui.
Quando ela finalmente o matou (nao sei como foi, se lhe partiu o pescoço ou se fez outra coisa qualquer) levantei-me com um salto e afastei-me enquanto murmurava:
-Estava a ver que nunca mais!
Acho muito interessante o facto de os zombies serem pessoas perfeitamente normais: aqueles de que melhor me recordo são os dois que aterrorizavam o meu amigo: eram altos magros, e tinham o cabelo curto espetado, preto. Ambos eram pálidos, mas nada fora do normal.
Esta terça-feira foi um dia importante para mim: tive o meu exame de condução, e pouco depois teria de mostrar os meus trabalhos ao professor de animação Zepe, na faculdade.
Estava tão nervosa que dormi muito mal, e nem mesmo durante os meus sonhos pude escapar ao que me esperava no dia seguinte: sonhei que tinha de fazer, em papelinhos de 6x10 cm, em tinta da china preta, uma animação de um carro a circular na via, e de mim própria a conduzi-lo.
Zepe e o temível examinador observavam com ar austero o meu trabalho, enquanto decidiam se eu devia ou não passar.
Não me lembro do final do sonho, mas no dia seguinte correu tudo muito bem!
Uma noite destas sonhei com um curioso mapa: focava-se em Moçambique, apesar de eu ter a noção que era muito mais extenso e que se eu quisesse pudera viajar pelo mundo todo, como se se tratasse do Google Earth.
Neste meu sonho, a ilha de Madagáscar era o arquipélago da Madeira, e tudo estava disposto de uma maneira tão estranha e retorcida, que, um pouco a nordeste dessa Madeira, ficavam Portugal, e toda a restante Europa.
Ora, ou a Europa se encontrava no lugar da Ásia, ou Moçambique estava separado de África, e flutuava como uma ilha no Oceano, junto dos nossos arquipélagos.
Porque fui eu que sonhei este sonho, tenho o privilegio de saber que se tratava da segunda hipótese, sem precisar de mais justificações.
O mapa aparecia como pretexto para me explicarem que a minha colega Leonor morava em Moçambique, e podia vir todos os dias estudar a Faculdade de Belas Artes de Lisboa, que ficava na Madeira!
Enquanto me explicavam isto, pequenos traços vermelhos apareciam desenhados no mar, a ilustrar a rota que ela seguia todos os dias.
Fiquei felicíssima: podia ir viver para Moçambique, finalmente!, porque poderia continuar a estudar em Portugal, todos os dias.
Lembro-me vagamente de estar no costa verdejante, a olhar para uma ilha redonda pouco distante, que era Moçambique (o que e curioso, e que quando eu vira o mapa Moçambique não tinha aquele formato, nem o formato que realmente tem: era quase rectangular).
Acho que havia a minha esquerda uma outra grande ilha, muito alta, e toda rodeada de um espesso nevoeiro: podia ser uma enorme montanha que emergia do mar e subia ate ao céu, ou um gigantesco pedaço de terra flutuante (não sei porque não conseguia ver a base) como as montanhas Aleluia, do filme Avatar.
Mas não lhe prestei atenção: só tinha olhos para Moçambique, e para o oceano maravilhoso que se estendia a seguir, sem que se visse mais nada, alias, como se não existisse mais nada alem dele...
Conseguia ver a curvatura da terra, e já não sei se o céu estava azul, ou se dourado, como um por-do-sol cinematográfico.
terça-feira, 26 de outubro de 2010
Qual D. Sebastião...
Ha uns anos sonhei que toda a minha família se encontrava, por acaso, em frente ao Vasco-da-Gama, junto aquela escultura vermelha muito esquisita.
Começamos todos a rir e a abraçar-nos uns aos outros, ate que, a uns passos de distancia, vi o Tio Grande, acenei-lhe e chamei-o, para que se juntasse a nos, mas, a sorrir, ele fez-me sinal para ficar calada, e afastou-se, em direcção ao nevoeiro, sem que mais ninguém desse por ele.
Começamos todos a rir e a abraçar-nos uns aos outros, ate que, a uns passos de distancia, vi o Tio Grande, acenei-lhe e chamei-o, para que se juntasse a nos, mas, a sorrir, ele fez-me sinal para ficar calada, e afastou-se, em direcção ao nevoeiro, sem que mais ninguém desse por ele.
Nunca se esqueçam do pin do telemovel!...
Num dos meus últimos dias de ferias sonhei que não consegui ligar o telemóvel: tinha-me esquecido do pin.
Por mais que tentasse, não conseguia lembrar-me.
Falhei duas tentativas, e antes da terceira, apareceu no ecrã do telemóvel um aviso que dizia que se eu falhasse novamente a Vodafone iria assumir que aquele telemóvel não era meu e eu o tinha roubado, pelo que ele desligar-se-ia automaticamente e enviariam helicópteros a minha procura, para me prender.
"bem..." pensei "O telemóvel e mesmo meu. De certeza que se falhar outra vez e eles enviarem helicópteros a minha procura, eu posso explicar--lhes o que aconteceu e eles ajudam-me a liga-lo".
Tentei outra vez, e falhei.
Durante três dias esperei que os tais helicópteros viessem, e, ao ver que não chegavam, dei comigo a pensar: "Isto 'ta muita mal feito! Então ando eu aqui sem telemóvel, só porque eles não mandam a porcaria dos helicópteros? Isto ta muita mal organizado!"
Por mais que tentasse, não conseguia lembrar-me.
Falhei duas tentativas, e antes da terceira, apareceu no ecrã do telemóvel um aviso que dizia que se eu falhasse novamente a Vodafone iria assumir que aquele telemóvel não era meu e eu o tinha roubado, pelo que ele desligar-se-ia automaticamente e enviariam helicópteros a minha procura, para me prender.
"bem..." pensei "O telemóvel e mesmo meu. De certeza que se falhar outra vez e eles enviarem helicópteros a minha procura, eu posso explicar--lhes o que aconteceu e eles ajudam-me a liga-lo".
Tentei outra vez, e falhei.
Durante três dias esperei que os tais helicópteros viessem, e, ao ver que não chegavam, dei comigo a pensar: "Isto 'ta muita mal feito! Então ando eu aqui sem telemóvel, só porque eles não mandam a porcaria dos helicópteros? Isto ta muita mal organizado!"
Detesto acordar antes da parte boa
Ha umas ou duas noites sonhei que (tal como realmente aconteceu no dia seguinte) apesar de ser fim-de-semana, a minha mãe trabalhava...
So que desta vez, obrigou-me a mim, ao meu irmão, ao nosso primo e ao nosso padrasto, a ir com ela, e la ficar ate ela poder sair também.
Mas era tão, tão, tão aborrecido...
A recepção do pavilhão atlântico ficara reduzida a uma salinha apertada e minúsculas cujas paredes estavam cobertas de uma pedra cor de areia, e onde não havia nada senão um elevador, um parede de vidro também com um porta de vidro por onde as pessoas deveriam entrar e um corredor com uma parede de espelho que conduzia a uma casa-de-banho.
Roguei a minha mãe que me deixasse e ao meu primo ir ate a Baixa, mas ela negou terminantemente e ele também não parecia muito interessado, sempre a perguntar-me o que havia la de interessante.
Acabei por perguntar se podia apanhar o metro e ir ao Vasco da Gama (porque agora o Pavilhão Atlântico ficava na estação da Baixa-Chiado) comer um "Choc & Chip" (um gelado delicioso que se compra na Ola).
Ela riu-se para mim e mostrou-me o papel de uma promoção (o papel realmente existiu, a promoção de que ela me falou, infelizmente não), que dizia que tínhamos ganho 258 euros para gastar apenas em gelados, pelo que podia comer os "Choc & chip" que quisesse.
Fiquei doida de alegria.
Antes de ir comprar o meu gelado, fui só ate ao corredor de espelhos tirar uma meia de senhora que estava a usar na cabeça como se fosse uma touca, para ir ate ao Vasco da Gama com um aspecto um pouco mais apresentável.
Ao fazê-lo, descobri que a minha mãe me tinha cortado o cabelo curto, com franja... Estava ondulado e giríssimo.
O sonho termina da pior maneira possível, já que acordei antes de comer o gelado, sem nenhum papelinho a falar daquela fantástica promoção e com o cabelo horrível.
So que desta vez, obrigou-me a mim, ao meu irmão, ao nosso primo e ao nosso padrasto, a ir com ela, e la ficar ate ela poder sair também.
Mas era tão, tão, tão aborrecido...
A recepção do pavilhão atlântico ficara reduzida a uma salinha apertada e minúsculas cujas paredes estavam cobertas de uma pedra cor de areia, e onde não havia nada senão um elevador, um parede de vidro também com um porta de vidro por onde as pessoas deveriam entrar e um corredor com uma parede de espelho que conduzia a uma casa-de-banho.
Roguei a minha mãe que me deixasse e ao meu primo ir ate a Baixa, mas ela negou terminantemente e ele também não parecia muito interessado, sempre a perguntar-me o que havia la de interessante.
Acabei por perguntar se podia apanhar o metro e ir ao Vasco da Gama (porque agora o Pavilhão Atlântico ficava na estação da Baixa-Chiado) comer um "Choc & Chip" (um gelado delicioso que se compra na Ola).
Ela riu-se para mim e mostrou-me o papel de uma promoção (o papel realmente existiu, a promoção de que ela me falou, infelizmente não), que dizia que tínhamos ganho 258 euros para gastar apenas em gelados, pelo que podia comer os "Choc & chip" que quisesse.
Fiquei doida de alegria.
Antes de ir comprar o meu gelado, fui só ate ao corredor de espelhos tirar uma meia de senhora que estava a usar na cabeça como se fosse uma touca, para ir ate ao Vasco da Gama com um aspecto um pouco mais apresentável.
Ao fazê-lo, descobri que a minha mãe me tinha cortado o cabelo curto, com franja... Estava ondulado e giríssimo.
O sonho termina da pior maneira possível, já que acordei antes de comer o gelado, sem nenhum papelinho a falar daquela fantástica promoção e com o cabelo horrível.
Entre os mortos
Esta noite tive um sonho fascinante: estava morta. Nao sei o que me matou, mas sei que era um fantasma: apesar de o meu corpo me parecer tao solido como sempre, nenhum vivo me via.
Lembro-me de estar no predio onde moram os meus avós, mas nao tinha sido la que tinha morrido, e, apesar de saber que tinha de fazer algo la, nao sei o que era.
Acho que vi escrito algures, ou disse-me uma voz, que quando fizesse o que tinha a fazer espiritos demoniacos seriam libertados e perseguir-me-iam, arrastando-me consigo para um lugar terrivel.
Mas tinha de o fazer. Depois, fugiria o mais rapidamente possível, pronto, tinha de ser.
Fi-lo. Estava em frente a uma porta "A", não sei em que andar, e os corredores estavam todos iluminados (na realidade, as luzes estao sempre apagadas, e so se acendem quando alguem pressiona um dos interroptores brilhantes). La fora, era noite.
Olhei a minha volta, sentindo a minha respiraçao ofegante entre os labios entreabertos.
Entao vi, no topo de um lance de escadas, mesmo ao pe da porta, surgir uma criatura medonha, como uma sombra, ou uma mancha, algo feito de carne mas sem ossos por dentro, que constantemente mudava de forma e grunhia ao aproximar-se de mim.
Voltei-lhe as costas e corri o mais depressa que podia. Ao atravessar o longo corredor do predio, cruzei-me com outros monstros, todos diferentes uns dos outros, mas sempre assustadores. Contornei-os, evitei-os com saltos ageis, e, quando cheguei ao fim do corredor, vi uma senhora viva a espreitar pela porta da sua casa, num cantinho ao lado das escadas (existem, neste predio, duas escadas, uma em cada extremo do corredor). Ela acenou-me e, com os olhos muitos arregalados, como se percebesse a minha aflição, dizia-me:
-Anda, anda! Podes fugir por aqui!
Corri pela casa dela adentro, ela fechou a porta atras de si e passou por mim cheia de pressa. Abriu uma janela e apontou la para fora:
-Va! Vai-te embora!
Percebi que ela nao queria que aquelas coisas horríveis entrassem em sua casa e compreendia perfeitamente. Obedeci, correndo em direcção a janela e saltando para o exterior.
Mais tarde, daria comigo a perguntar-me porque me vira a senhora, talvez fosse uma medium, ou assim.
Não me lembro como nem porque, mas sei que depois de percorrer um caminho qualquer, estava em casa dos meus avós, no segundo andar (tinha descido uns quantos andares, de certeza).
A minha avo e o meu avo estavam sentados nas respectivas poltronas, em silencio, a avo de camisa de noite de alças a olhar para a telivisaozinha pequena diante dela numa mesinha de pau preto e o avo a dormir, ainda vestido com uma camisa de mangas curtas metidas por umas calças de pano cinzento a dentro, com o queixo caído sobre o peito e uma expressão seria.
Nenhum deles me viu.
Da varanda coberta, olhei para a porta da casa: aquelas coisas estava la fora, a minha procura. O melhor era ir-me embora. Mas como? Se saísse pela porta, de certeza que me apanhavam.
A minha única hipótese era saltar da varanda.
Cheia de medo, aproximei-me de uma das janelas, que estava aberta, e subi para as calhas metálicas, a olhar la para baixo, para o terraço deserto, iluminado a um canto por um café silencioso.
Ao longe, via-se Tróia, a Figueirinha, e barcos cujas janelas iluminadas se reflectiam nas aguas do Sado. O ar estava quente, e sentia-se as vezes um vento fresco que arrepiava.
Soube que se ficasse demasiado tempo a pensar que tinha de saltar, nunca o conseguira fazer, pelo que, a tremer, sentei-me na janelas com as pernas caídas para o lado de fora e, muito lentamente, apoiando-me nos braços, levantei o rabo das calhas e senti o corpo todo suspenso no ar, seguro apenas pelas palmas das mãos que continuavam agarradas as janelas.
"Agora ja esta" pensei, enquanto fechava os olhos.
Saltei, e, passado um instante, quase nada, aterrei suavemente no terraço, fazendo apenas um pouco de barulho.
Por uma fracção de segundo fiquei feliz com esta minha vitoria, mas logo depois lembrei-me da porta do prédio mesmo atrás de mim, ladeada por duas compridas janelas, através das quais os meus perseguidores me poderiam ver.
Corri o mais depressa que pude, espreitando um instante por cima do ombro ao sair do terraço.
Os meus pés eram levíssimos, parecia que nem tocavam no chão, mas que flutuavam pouco acima deste. Não tenho a certeza se estava de ténis ao descalça.
Percorri toda a rua do Moinho do Frade, pelo lado esquerdo: lembro-me bem dos carros estacionados ao meu lado e do chão de calçada debaixo de mim.
Depois, algures, virei a esquerda, para onde deveria estar um terreno em muito mas condições, onde há anos atrás, estiveram as ruínas do moinho que dera o nome a rua.
Curiosamente, esse terreno dava para um rua estreita de prédios baixos que conduzia a um lugar muito semelhante ao bairro alto, cheio de bares, de gente e um pouco inclinado, só que as fachadas dos prédios e das casas eram brancas. Tenho ideia que, aqui e ali, havia lanternas chinesas rectangulares pequeninas e coloridas (lembro-me vagamente de ver uma verde-anis e outra fushia) penduradas na fachada de um prédio e do outro que estava em frente.
Vagueei entre os vivos por aquelas ruas, ate me deparar com duas amigas: a Catarina e a Inês. Ambas me viram: estavam mortas!
As três ficamos muitos felizes por nos encontrarmos: já que não podíamos falar com os vivos, e conhecíamos muitos poucos mortos, era uma grande sorte termos morrido todas.
Mas confessei-lhes que tinha muitas saudades da minha família, e gostava de lhes poder dizer algumas coisas...
-Quanto tempo e que isto vai durar?... - suspirei.
-Oh! - fez a Inês, encolhendo os ombros - Tanto tempo quanto uma vida.
-Ou seja?... - insisti, porque estava pouco satisfeita com a resposta.
-94 anos. - disse-me ela.
Ainda era muito tempo de solidão, mas era bom saber que depois disso ia poder morrer finalmente, morrer a serio, e não ter saudades de mais ninguém.
Eu e as minhas amigas ainda ficamos algum tempo juntas, a passear por ali, acho que tentamos beber um copinho ou outro só que não conseguíamos tocar em nenhum objecto (pergunto-me porque teríamos nos roupas).
Mas acabei por me despedir delas, tinha de ir ao encontro da minha família, na Venda-do-Pinheiro, nem que fosse so para ver como eles estavam.
A Catarina e a Ines, por sua vez, ficaram naquele estranho e alegre lugar, cheio de vivos, entre os quais os mortos podiam festejar também, sem que se distinguissem muito bem uns dos outros.
Percorri a pé a ponte 25 de Abril, e passei pelos Olivais (lembro-me de ter escorregado ou caído e estar a rebolar na relva, junto a estátua de um bombeiro. Vi passar, não muito longe, um autocarro amarelo). Podia passar entre os carros sem me preocupar, não tinha fome nem frio; nem pressa. Alias, enquanto andava, pensei com um certo alivio: "Agora, tenho todo o tempo do mundo...".
Quando cheguei a Venda do Pinheiro, fui ate um pequeno escritório que nunca vi na vida, em que três das quatro paredes eram só janelas, tapadas com com varias cortinas amarelas.
A minha mãe e o meu tio estavam la: agora geriam um negocio qualquer importante. O tio estava de pé atrás de uma secretaria, e a minha mãe estava mesmo ao meu lado, junto a uma porta, atrás de uma secretária e de pé também.
Foi o meu tio que lhe disse que eu estava la, ou que tinha a impressão que eu estava la, sem sequer me ver. A minha mãe ficou imóvel, com os olhos arregalados, como se não acreditasse.
Pequei no telemóvel (não faço a menor ideia como era possível eu continuar a poder mexer no telemóvel. Parecia que tinha morrido comigo... algo me diz que já somos demasiado inseparáveis.) para lhe mandar uma mensagem a dizer "Estou mesmo a tua frente". Mas, antes de o fazer, ela disse, e olhar vagamente para o espaço em frente dela, onde eu estava sem que ela me conseguisse ver:
-"Estou mesmo a tua frente".
Fechei o telemóvel com um suspiro: não precisava de mandar mensagem nenhuma, ela conhecia-me e sabia onde eu estava. Abraçamo-nos, e lembro-me de a sentir e a poder apertar nos braços.
Decidi voltar para o meu quarto. Certamente não se teriam desfeito da mobília... Talvez estivesse tudo como antes. Talvez eu pudesse continuar a viver com eles, mesmo que não me vissem, nem ouvissem...
A minha mãe sabia que eu estava la. De certeza que ela não os deixaria livrarem-se das minhas coisas.
Lembro-me de estar no predio onde moram os meus avós, mas nao tinha sido la que tinha morrido, e, apesar de saber que tinha de fazer algo la, nao sei o que era.
Acho que vi escrito algures, ou disse-me uma voz, que quando fizesse o que tinha a fazer espiritos demoniacos seriam libertados e perseguir-me-iam, arrastando-me consigo para um lugar terrivel.
Mas tinha de o fazer. Depois, fugiria o mais rapidamente possível, pronto, tinha de ser.
Fi-lo. Estava em frente a uma porta "A", não sei em que andar, e os corredores estavam todos iluminados (na realidade, as luzes estao sempre apagadas, e so se acendem quando alguem pressiona um dos interroptores brilhantes). La fora, era noite.
Olhei a minha volta, sentindo a minha respiraçao ofegante entre os labios entreabertos.
Entao vi, no topo de um lance de escadas, mesmo ao pe da porta, surgir uma criatura medonha, como uma sombra, ou uma mancha, algo feito de carne mas sem ossos por dentro, que constantemente mudava de forma e grunhia ao aproximar-se de mim.
Voltei-lhe as costas e corri o mais depressa que podia. Ao atravessar o longo corredor do predio, cruzei-me com outros monstros, todos diferentes uns dos outros, mas sempre assustadores. Contornei-os, evitei-os com saltos ageis, e, quando cheguei ao fim do corredor, vi uma senhora viva a espreitar pela porta da sua casa, num cantinho ao lado das escadas (existem, neste predio, duas escadas, uma em cada extremo do corredor). Ela acenou-me e, com os olhos muitos arregalados, como se percebesse a minha aflição, dizia-me:
-Anda, anda! Podes fugir por aqui!
Corri pela casa dela adentro, ela fechou a porta atras de si e passou por mim cheia de pressa. Abriu uma janela e apontou la para fora:
-Va! Vai-te embora!
Percebi que ela nao queria que aquelas coisas horríveis entrassem em sua casa e compreendia perfeitamente. Obedeci, correndo em direcção a janela e saltando para o exterior.
Mais tarde, daria comigo a perguntar-me porque me vira a senhora, talvez fosse uma medium, ou assim.
Não me lembro como nem porque, mas sei que depois de percorrer um caminho qualquer, estava em casa dos meus avós, no segundo andar (tinha descido uns quantos andares, de certeza).
A minha avo e o meu avo estavam sentados nas respectivas poltronas, em silencio, a avo de camisa de noite de alças a olhar para a telivisaozinha pequena diante dela numa mesinha de pau preto e o avo a dormir, ainda vestido com uma camisa de mangas curtas metidas por umas calças de pano cinzento a dentro, com o queixo caído sobre o peito e uma expressão seria.
Nenhum deles me viu.
Da varanda coberta, olhei para a porta da casa: aquelas coisas estava la fora, a minha procura. O melhor era ir-me embora. Mas como? Se saísse pela porta, de certeza que me apanhavam.
A minha única hipótese era saltar da varanda.
Cheia de medo, aproximei-me de uma das janelas, que estava aberta, e subi para as calhas metálicas, a olhar la para baixo, para o terraço deserto, iluminado a um canto por um café silencioso.
Ao longe, via-se Tróia, a Figueirinha, e barcos cujas janelas iluminadas se reflectiam nas aguas do Sado. O ar estava quente, e sentia-se as vezes um vento fresco que arrepiava.
Soube que se ficasse demasiado tempo a pensar que tinha de saltar, nunca o conseguira fazer, pelo que, a tremer, sentei-me na janelas com as pernas caídas para o lado de fora e, muito lentamente, apoiando-me nos braços, levantei o rabo das calhas e senti o corpo todo suspenso no ar, seguro apenas pelas palmas das mãos que continuavam agarradas as janelas.
"Agora ja esta" pensei, enquanto fechava os olhos.
Saltei, e, passado um instante, quase nada, aterrei suavemente no terraço, fazendo apenas um pouco de barulho.
Por uma fracção de segundo fiquei feliz com esta minha vitoria, mas logo depois lembrei-me da porta do prédio mesmo atrás de mim, ladeada por duas compridas janelas, através das quais os meus perseguidores me poderiam ver.
Corri o mais depressa que pude, espreitando um instante por cima do ombro ao sair do terraço.
Os meus pés eram levíssimos, parecia que nem tocavam no chão, mas que flutuavam pouco acima deste. Não tenho a certeza se estava de ténis ao descalça.
Percorri toda a rua do Moinho do Frade, pelo lado esquerdo: lembro-me bem dos carros estacionados ao meu lado e do chão de calçada debaixo de mim.
Depois, algures, virei a esquerda, para onde deveria estar um terreno em muito mas condições, onde há anos atrás, estiveram as ruínas do moinho que dera o nome a rua.
Curiosamente, esse terreno dava para um rua estreita de prédios baixos que conduzia a um lugar muito semelhante ao bairro alto, cheio de bares, de gente e um pouco inclinado, só que as fachadas dos prédios e das casas eram brancas. Tenho ideia que, aqui e ali, havia lanternas chinesas rectangulares pequeninas e coloridas (lembro-me vagamente de ver uma verde-anis e outra fushia) penduradas na fachada de um prédio e do outro que estava em frente.
Vagueei entre os vivos por aquelas ruas, ate me deparar com duas amigas: a Catarina e a Inês. Ambas me viram: estavam mortas!
As três ficamos muitos felizes por nos encontrarmos: já que não podíamos falar com os vivos, e conhecíamos muitos poucos mortos, era uma grande sorte termos morrido todas.
Mas confessei-lhes que tinha muitas saudades da minha família, e gostava de lhes poder dizer algumas coisas...
-Quanto tempo e que isto vai durar?... - suspirei.
-Oh! - fez a Inês, encolhendo os ombros - Tanto tempo quanto uma vida.
-Ou seja?... - insisti, porque estava pouco satisfeita com a resposta.
-94 anos. - disse-me ela.
Ainda era muito tempo de solidão, mas era bom saber que depois disso ia poder morrer finalmente, morrer a serio, e não ter saudades de mais ninguém.
Eu e as minhas amigas ainda ficamos algum tempo juntas, a passear por ali, acho que tentamos beber um copinho ou outro só que não conseguíamos tocar em nenhum objecto (pergunto-me porque teríamos nos roupas).
Mas acabei por me despedir delas, tinha de ir ao encontro da minha família, na Venda-do-Pinheiro, nem que fosse so para ver como eles estavam.
A Catarina e a Ines, por sua vez, ficaram naquele estranho e alegre lugar, cheio de vivos, entre os quais os mortos podiam festejar também, sem que se distinguissem muito bem uns dos outros.
Percorri a pé a ponte 25 de Abril, e passei pelos Olivais (lembro-me de ter escorregado ou caído e estar a rebolar na relva, junto a estátua de um bombeiro. Vi passar, não muito longe, um autocarro amarelo). Podia passar entre os carros sem me preocupar, não tinha fome nem frio; nem pressa. Alias, enquanto andava, pensei com um certo alivio: "Agora, tenho todo o tempo do mundo...".
Quando cheguei a Venda do Pinheiro, fui ate um pequeno escritório que nunca vi na vida, em que três das quatro paredes eram só janelas, tapadas com com varias cortinas amarelas.
A minha mãe e o meu tio estavam la: agora geriam um negocio qualquer importante. O tio estava de pé atrás de uma secretaria, e a minha mãe estava mesmo ao meu lado, junto a uma porta, atrás de uma secretária e de pé também.
Foi o meu tio que lhe disse que eu estava la, ou que tinha a impressão que eu estava la, sem sequer me ver. A minha mãe ficou imóvel, com os olhos arregalados, como se não acreditasse.
Pequei no telemóvel (não faço a menor ideia como era possível eu continuar a poder mexer no telemóvel. Parecia que tinha morrido comigo... algo me diz que já somos demasiado inseparáveis.) para lhe mandar uma mensagem a dizer "Estou mesmo a tua frente". Mas, antes de o fazer, ela disse, e olhar vagamente para o espaço em frente dela, onde eu estava sem que ela me conseguisse ver:
-"Estou mesmo a tua frente".
Fechei o telemóvel com um suspiro: não precisava de mandar mensagem nenhuma, ela conhecia-me e sabia onde eu estava. Abraçamo-nos, e lembro-me de a sentir e a poder apertar nos braços.
Decidi voltar para o meu quarto. Certamente não se teriam desfeito da mobília... Talvez estivesse tudo como antes. Talvez eu pudesse continuar a viver com eles, mesmo que não me vissem, nem ouvissem...
A minha mãe sabia que eu estava la. De certeza que ela não os deixaria livrarem-se das minhas coisas.
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