sábado, 9 de abril de 2011

Esta noite, sonhei que ao sair do meu quarto ao entardecer, começava a falar com a minha família sobre a possibilidade de passar um semestre na Bélgica a estudar, até que de repente o meu professor de animação começou a subir as escadas. Não faço a menor ideia de como encontrou a minha casa.
-O-olá Zepe. - cumprimentei-o, um pouco atrapalhada pela surpresa.
-Hã? Ah! - fez ele, depois de um instante a olhar para mim, como se não me tivesse reconhecido logo - Olá, olá.
Dito isto, passou pelo Tomás, a Mãe e o Bé sem dizer nada e foi sentar-se à frente do nosso computador a trabalhar. Tinha tido alguma vontade de lhe dizer que estivesse à vontade, mas era evidente que não era preciso.
A minha família ficou a olhar para ele algum tempo, talvez à espera que ele os cumprimentasse ou então que lhes explicasse o que estava ali a fazer. Depois, deixaram de lhe prestar atenção e voltaram a fazer o que sempre fazem: o Tomás alojou-se na "sua" poltrona com o computador portátil ao colo, o Bé recostou-se no sofá para ver mais confortavelmente futebol, e a minha mãe desceu as escadas em direcção à cozinha, murmurando que tinha de preparar alguma coisa para os convidados. "Convidados?" pensei "Não sabia que vinha alguém cá a casa...". Segui-a, esperançosa de lamber as pás cobertas de chocolate da batedeira caso ela preparasse um bolo, ou então de roubar um pedaço de cebola, alho ou pimento, coisas que apesar de a maioria das pessoas não considerar nada apetecível, são autênticas iguarias para mim.
Mas a Mãe não cozinhou nada que me interessasse. Fiquei um bocadinho em silêncio ao pé dela, até que uma senhora entrou em nossa casa. Vinha com um cigarro na mão e parecia ter algo muito importante de que falar. Não tenho a certeza se seria a tia Graça... Seja como fôr, depois dela veio outra, e mais outra... Todas tagarelavam ao mesmo tempo umas com as outras, e, farta de ouvir aquele barulho contínuo que lembrava o cacarejar de dezenas de galinhas, saí da cozinha e tornei a subir as escadas. Também estava cheio de gente: nunca tinha visto a nossa casa tão cheia. Contornei as pessoas para ir ter com o meu professor. No caminho, comecei a apontar para as pessoas, dizendo:
-Tu és boa pessoa... Tu és boa pessoa...
E foi então que encontrei a tia Judite, irmã do meu pai. Ao reconhecê-la, aproximei-me dela, com o indicador esticado na sua direcção, e sibilei com um sorriso de desprezo:
-Tu... és má pessoa.
Assim que acabei de falar a cabeça dela desfez-se em tiras, que caíram sobre os ombros todas enrugadas, tal e qual um balão esvaziado. Depois disto, aproximei-me com a maior naturalidade do Zepe, que continuava a um canto todo inclinado sobre monitor.
Ao lado dele, estava Darcy, um aluno de animação do terceiro ano. Os dois discutiam um projecto qualquer, e eu fiquei ali a ouvir a conversa à espera de uma oportunidade para participar. Como ela nunca mais chegava, rodei sobre os calcanhares para ir para o meu quarto, e escapar a toda aquela monotonia, barulho, confusão...
Contornei pessoas com rosto deformados, semelhantes a retratos abstractos ou cartoons demasiado estilizados, até me fechar atrás da porta azul.
Estendi-me na minha cama, que estava muito mais rente ao chão do que na realidade, e, ao rebolar sobre mim mesma e ficar de costas para a porta, vi que não havia paredes daquele lado do meu quarto, e que a relva, as pedras, a floresta de mimosas entrava por ali a dentro. Sentei-me na cama, maravilhada com a vista dos montes, das casinhas brancas pequeninas, logo a seguir à floresta.
Tive uma vontade tão grande de sair do meu quarto e passear para sempre naquele lugar...

A caminho da Terra Prometida a cavalo numa girafa

Mais uma vez, sonhei que estava a caminho de Moçambique: eu, o meu irmão e a minha tínhamos empreendido numa longa viagem até à Terra Prometida.
Atravessámos a pé uma planície árida, muito semelhante ao Alentejo, que pouco a pouco se converteu numa savana. Começámos então a ver animais selvagens à nossa volta: manadas de zebras, alguns leões que dormiam debaixo das árvores, abrigados na sombra do sol abrasador.
De repente, o bonito céu azul e brilhante que nos cobria tornou-se cinzento, e grandes gotas de chuva desabaram sobre nós. Quando a água nos dava pela cintura, não sei o que fizemos, mas do nada apareceram três girafas, que montámos.
Continuámos assim a nossa viagem, até deparar-mo-nos com portagens; o valor a pagar era tão alto que não pudemos seguir em frente, e novamente não chegámos a Moçambique.

É muito curioso... nos meus sonhos (e, confesso, também na vida real) Moçambique é sempre a Terra Prometida, e faço de tudo para lá chegar. No entanto, nunca consigo. Lembro-me que há uns anos sonhei que um hipopótamo se atravessava no nosso caminho, ou algo do género, e que num outro sonho não podíamos pagar a gasolina do jipe que conduzíamos.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Sonhos em atraso, mais uma vez

Já que não consigo abrir nenhum dos documentos de que preciso para adiantar a minha pesquisa relativamente às faculdades onde pretendo fazer Erasmus, finalmente consegui o livro essencial para Projecto e já reservei aquele que o professor de Teoria da Imagem pediu, e ainda tenho uma hora e meia até à próxima aula, vou aproveitar para por em dia os sonhos em atraso de que me recordo.
No mais antigo de todos, eu estava num carro, no lugar do pendura, com o meu amigo Diogo, que ocupava o lugar do condutor. Suponho que tivesse tirado a carta à pouco tempo, porque estava sempre a espreitar ansiosamente por cima do ombro e a hesitar antes de pensar sequer em encostar os pés aos pedais.
Já a ficar nervosa, comecei eu própria a mexer-me no banco, olhando atentamente à minha volta para me certificar que tudo corria bem e ele não nos matava aos dois.
Muito devagarinho, o Diogo lá arrancou, e pouco depois conduzia muito bem. Agora que confiava mais nele, deixei-me relazar e aproveitei a viagem.
Antes de a viagem começar, o carro estava estacionada num local muito semelhante a uma rua de Massamá, que tem de um lado o "Barco do Mimo" (outrora "Mimo Infantil". Foi o meu jardim de infância), e do outro uma escola pré-primária (onde eu andei também).No sonho, a escola pré-primária não existia: havia, no seu lugar, um parque de estacionamento. Era lá onde estava o carro.

Houve outro sonho em que tinha ido com os meus amigos ao Bairro Alto. Sabia que tinha sair cedo, por que teria de regressar a pé para casa enquanto as estradas estavam fechadas ao trânsito de automóveis (não sei porquê, mas neste meu sonho ninguém podia conduzir durante a noite). Porém, ao longo de toda a noite eles foram insistindo para que eu ficasse, e eu ia adiando a hora de me ir embora... Até que o Sol começou a nascer.
Em pânico, comecei a correr a caminho de casa. Só conseguia pensar que a minha mãe se ia passar comigo...
Quando cheguei ao túnel do Gril, estava desesperada: jamais conseguiria chegar a tempo! Foi então que um belo princípe (sim, era mesmo um princípe, com calças justas e aquelas camisolas com ombros redondos e almofadados) apareceu de repente à minha frente: parecia magia.
Ele disse-me para não desistir, e quando argumentei que estava tudo perdido, ele insistiu que tudo iria correr bem.
Apesar de não confiar muito nas palavras dele, pus-me novamente a correr pelas estrada fora.
Pouco depois, numa curva na A8 onde uma dia estive num acidente de automóvel, tornei a ver o princípe. Estava rodeado de pás, pinos,... em suma, todos o que é necessário para fazer obras numa estrada.
Foi então que o reconheci: era o meu pai. Pedi-lhe que não me deixai-se, e voltasse comigo para casa, mas ele recusou e desapareceu.
Quase imediatamente, fui rodeada de pessoas e seres fantásticos, e apareceram edificios colorios (principalmente de cor-de-rosa e cor-de-laranja) em forma de abóbora à minha volta. Ao que parece, era o meu povo, muito feliz por m e tornar a ver. Trataram-me por "princesa" e começaram a cochichar entre eles que um principe misterioso usara magia para parar o tempo e me ajudar a chegar a horas a casa.
Não chegara à Venda do Pinheiro, nem sequer a meio do caminho, mas no sonho aquele lugar era a minha casa.

Noutro sonho, estava numa floresta escura, com árvores e arbustos bidimensionais que pareciam saídos de um videojogo de baixa qualidade, em tons escuros de castanho, laranja, verde e cinzento. Não era a única: o meu irmão, e muitas outras pessoas, talzes amigos ou colegas, estavam lá também. Porém, cada um seguia o seu caminho, e só nos encontravamos raramente. Acho que estávamos a fugir de algo, ou então a caçá-lo. O sonho terminou quando ao contornar um arbusto deparei com uma impenetrável barreira de árvores. Era ali que eu tinha de chegar: havia alguma criatura escondida na folhagem. Mas será que tinha de a caçar, ou apesar de dever fugir dela, e eu estava decidida a enfrentá-la?

Há uma ou duas noite, tive um sonho muito especial: durante uma fracção de segundo, estava a passear nos montes na Venda do Pinheiro, durante o dia. Depois, estava num local deserto, atrás de uma grande casa branca, separada do mato cerrado por uma estrada de terra batida. Era noite escura, e eu estava um pouco assustada. Então vi uma sombra caminhar para fora da floresta. Era um homem. Veio ter comigo a sorrir, e, depois de o reconhecer, chamei-o também a rir. Ele aproximou-se de mim, abraçou-me, e beijou-me. Foi um beijo quente, devastador, que me deixou rendida nos braços dele. De seguida, despediu-se, e correu de volta para a floresta.
Em casa, com o meu irmão, ele contou-me que tinha encontrado um qualquer coisa espectacular algures onde eu estivera a passear.
-Então queres ir lá comigo? - perguntei ansiosamente.
-Yah, claro! Já fui lá ontem!... (o Tomás, a passear? Só em sonhos, mesmo...)
Subimos juntos o monte. A certa altura, a subida era tão ingreme que tinhamos de trepar. Não era nada fácil, mas mesmo assim rimos o caminho todo.
Quando chegamos ao cima, passámos por um velho e ferrugento portão de ferro (semelhante ao do "Casal dos Dois"), e, talvez dois metros à frente, passasmos por outros, que não sei se era de madeira, ou só uma espessa camada de vegetação.
Entre os dois portões, estava uma estranha criatura muito pequena, que umas vezes me parecia uma burrinha, outras, uma gazela.
Estavamos a admirá-la quando um grupo de cão ferozes correu em direcção ao portão de ferro, direito ao pequeno animal. Ladravam ferozmente, sacudindo longos fios de saliva que lhe spendiam dos baiços. A pequena criatura agachou-se e caminhou até um canto mais escondido entre os dois portões.
Deduzindo que ela estaria a salvo dos cães, eu e o meu irmão passámos o segundo portão e continuámos.
Quando chegámos àquele local fantástico onde eu tinha encontrado aquele homem, era noite cerrada (parecia que, independentemente de no resto do mundo ser dia, ali era sempre noite).
-Tens de acreditar que a pessoa que tu queres ver está mesmo ali! Se acreditares, ela aparece! - eu sabia que essa pessoa, tal como o homem que me beijara, se tratava apenas de uma ilusão, mas ainda assim falava dela como se fosse real.
Enquanto eu e o Tomás corríamos para o sítio, vimos os nossos primos Marta e Alexandre voltarem a correr de lá, cada um com um sorriso maior que o outro. Muito entusiasmados, começaram a falar do que tinham visto e a dizer ao meu irmão que fosse experimentar.
Mas quando ele se estava a aproximar, ouviu-se subitamente o braulho ensurdecedor do motor de uma mota, que apareceu numa estrada de terra por entre as árvores, diante de nós. A mota caiu do céu, e aterrou de uma maneira muito cómica: a saltitar sobre uma mola que tinha sob a roda dianteira, de maneira que parecia um saltitão. O piloto era agitado perigosamente, com a cara a aproximar-se e afastar-se do chão.
Desatámos todos a correr, em pânico. Logo a seguir apareceram ovnis (policiais), mais motas saltitonas (policiais) e áinda carros (também policiais).
De repente estávamos rodeados de homens quen nos gritavam que estávamos em perigo, e a dizerem que tinham de investigar o local.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Uma infestação zombie... outra vez

Ha umas quantas noites, tornei a sonhar com zombies: suponho que tenha alguma coisa haver com a serie "walking dead", de que gosto muito.
Desta vez, sonhei que estava em minha casa, em Massama, e que tinha havido uma infestação.
Os estores estavam todos corridos, e não me lembro se era dia ou noite la fora.
Estava com o meu irmão na casa-de-banho diante do meu quarto, e dizia-lhe:
-Tomas, se me acontecer alguma coisa, quero que saibas que te amo muito...
-Sim, sim, 'ta bem, deixa-te dessas merdas... -disse-me ele, antes de sair da casa-de-banho.
Nesse momento, os dois vimos a luz do mo meu quarto acesa (em Massama, o meu quarto fica mesmo em frente a casa-de-banho), e a nossa mãe sentada a borda a minha cama, com uma boneca de pano na mão. A mobília estava disposta como quando eu era pequena, e não como esta agora.
Os dois fomos ter com a nossa mãe:
-Mãe, o que e que estas a fazer? - quis saber.
-A despir as bonecas.- retorquiu ela, como se me estivesse a acusar de não as ter despido eu mesma. Tinha uma caixa de plástico cheia de bonecas aos pés.
-Mas para que?
-Porque elas não podem ficar assim!- respondeu ela, irritada.
-Então?... -perguntou a minha avo, ao entrar de repente no quarto.
São me lembro de ficarmos todos ajoelhado ao redor da minha mãe, a tentar convence-la a não despir as bonecas.

O Pai

Tambem esta noite, sonhei com o meu pai.
Nao o vejo ha mais ou menos quatro anos, e mal me lembro da cara dele: so me consigo recordar de uma fotografia sua que me ofereceu pouco antes de se ir embora, dizendo que como nao gostava dela, eu podia ficar com ela.
Desde algum tempo para ca, quando tento pensar na cara do meu pai, por muito que me esforce, e sempre igual aquela fotografia: sempre a mesma expressão, como se o rosto tivesse sido congelado, sempre o mesmo olhar vago, o cabelo penteado para o mesmo lado e a barba feita, o colarinho da mesma camisola...
Tenho imensa curiosidade em saber como esta agora.
Ha uns dias, o meu irmao esteve com ele: para mim, foi muito estranho. Parecia que ele tinha estado com uma pessoa de quem sempre falamos mas que na realidade, nao existe, e com a qual nunca estariamos (como um personagem de um filme, ou assim...).
Ate tive alguma inveja do meu irmao.
Quando eu voltei a casa nesse dia, so queria ouvir uma descrição sua do aspecto do pai, apesar de os assuntos discutidos no tribunal serem muito mais importantes.
O Tomas revelou-me que o nosso pai era muito mais pequeno que ele (algo que eu ja sabia, uma vez que decorei a altura do meu pai muito antes de ele sair da casa, e sei que hoje medimos os dois 1,74cm, muito inferiores aos 1,80m e tal do meu irmao), tinha a voz muito mais fina que a dele (isto fez-me muita impressao, mas uma vez que nao me lembro da voz do meu pai nao consegui sequer imaginar como seria a sua voz fininha), e contou-me ainda que estava mais velho, e, ate, feio.
-Feio?! - exclamei, incredula. Lembro-me de ter achado o meu pai bonito toda a minha vida.
-Sim - insistiu o meu irmao. Contou-me que agora o pai tinha as bochechas descaídas e a cara mais quadrada, alguma barriguinha, e parecia atarracado.
-Parece que encolheu!- comentou.
-Queres dizer que esta a mirrar??
-Sim. Se calhar, ate esta mais baixo que tu. A serio, vais dar pela diferença quando o voltares a ver.
Bem tentei, mas nao o consegui imaginar assim: so o conseguia ver como naquela maldita fotografia.
Contaram-me ainda que o meu pai nao reconheceu o meu irmao e nao saberia quem ele era se este nao se tivesse aproximado dele, e tambem sei que nao perguntou por mim.

Mas esta noite sonhei com o meu pai.
Por um motivo qualquer, a minha mae levava-me ao restaurante chines perto da nossa casa em Massama (o que e absurdo, porque ela se fartou de comida chinesa depois de eu a forçar a ela e ao resto da familia a ir la constantemente).
Eu estava felicissima, a falar com ela e a rir (adoooro comida chinesa), ate, ao passar por uma parede de vidro pintada, me deparar com duas pessoas sentadas a uma mesa. Uma delas, sei que era o meu irmao, apesar de nao ter visto mais que a sua silhueta, uma forma muito pouco difusa. A outra, era o meu pai.
Estava tal e qual o Tomas o tinha descrito, com a exactidao que apenas os sonhos e a imaginaçao desgovernada sao capazes de conceber, mas, ainda assim, eu reconheci-o.
Parecia que o mundo tinha parado e so existiam os olhos dele, muito concentrados e fitos em mim.
Ja nao me lembro como era a cara dele... So sei que tinha as bochechas descaídas, de facto, e grandes papos cor-de-rosa debaixo dos olhos. O resto, nao consigo descrever.
Dei meia volta, meio atordoada, e senti uma terrivel vontade de ir a casa-de-banho.
Comecei a andar em direcçao a casa-de-banho, quando o meu pai se levantou num salto e gritou:
-Não vais embora!
-Vou só a casa-de-banho... -disse. Lembro-me de me sentir muito feliz por ele me querer impedir de ir embora. Ele queria estar comigo.
Lembro-me que ele se acalmou... E não sei como acabou o sonho.

Era naquele restaurante que ele, eu e o meu irmão nos encontrávamos todas as quartas-feiras, antes de ele ir embora. Iamos la tantas vezes que começaram a oferecer-me pulseiras.
Passados dois anos sem o ver, voltei a esse restaurante: tinha tido uma excelente nota num teste qualquer, e, geralmente, eu podia ir buscar sopa chinesa para o meu jantar quando isso acontecia.
Nem eu, nem o meu irmão, e muito menos a minha mãe, la tínhamos ido desde que os encontros com o meu pai tinham sido cancelados...
Ao reconhecer-me, o empregado riu e quase saltou de contentamento, enquanto tagarelava:
-Ilmaozinho, Ilmaozinho! - disse ele, assinalando com a mão a altura que o meu irmão tinha da ultima vez que o vira.
-Irmaozao! - respondei, com um sorriso, agitando a mão acima da minha cabeça, para que ele percebesse que agora o Tomas era bem maior que eu.
Ele riu, todo satisfeito, e logo a seguir perguntou:
-E o pai?
-Não o vejo há dois anos!- respondi, com toda a naturalidade.
O homem ficou aterrado, e durante uns instantes não se mexeu, limitou-se a olhar para mim, mudo, com uma expressão de horror na cara.

Ele só queria ficar no meu quarto...

Ha já muito tempo que não escrevo nada aqui (tenho estado muito ocupada), e infelizmente já me esqueci de muitos dos sonhos que tenho tido.
Esta noite porem, tive um sonho que não posso adiar.
Um pesadelo, alias.
Sonhei que estava a dormir no meu quarto, e que ao acordar me deparava com um grande e gordo homem negro sentado aos pés da minha cama.
Ao lado da minha cama, no chão, estava uma gambiarra com pequeninas e coloridas lanternas chinesas que realmente tenho, e que, de facto, estava ligada naquela noite, projectando uma luz avermelhada no meu quarto.
Tudo estava tal e qual a realidade.
Excepto o homem, que olhava para mim e sorria. Parecia louco.
Pedi-lhe para sair do meu quarto, mas ele limitou-se a rir (e penso que também cantarolou qualquer coisa) e não se mexeu.
Gritei pelo meu irmão que, muito, mas mesmo muito chateado por eu o ter acordado, veio ate ao meu quarto (o quarto dele e mesmo ao lado do meu) e puxou e empurrou o homem la para fora. Logo a seguir, deitou-se, decidido a não se levantar novamente ate de manha.
Entretanto, eu saltei da cama e, entreabrindo a porta, tirei a chave do lado de fora e tentei trancar a porta a partir de dentro.
Quando tinha acabado de o fazer, vi as pontas de um gancho de cabelo aparecerem na fechadura e empurrarem a chave para fora, ao mesmo tempo que a porta se abria:
-Não! - gritei.
Esforcei-me por voltar a fechar a porta, empurrei-a e atirei-me contra ela, mas o homem era demasiado forte... Também gritei pelo meu irmão, mas ele não apareceu.

Não me lembro como terminou o sonho. Sei no entanto que o homem não me queria fazer mal nenhum, só queria estar no meu quarto, sentado aos pés da minha cama. Eu e que não o queria la... era perturbador.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Sonhos depois de uma separaçao

Agora que já não me dói tanto o orgulho, posso aqui escrever alguns sonhos que tive pouco depois de me separar do meu ex-namorado.
Na altura, tinha esperança de poder pelo menos sonhar que continuávamos juntos, para que durante a noite a dor não fosse tão grande quanto de dia.
Porem, o meu subconsciente parecia bastante consciente do nosso afastamento.

Sonhei que nos reencontrávamos numa pequena sala, muito estreita, em forma de "L", com as paredes pintadas de azul escuro.
Eu estava num extremo, e não conseguia ver alem da esquina. A minha frente estava uma mesa de madeira escura e antiga, e logo a seguir estava ele.
Ao lado dele, Havia um grande relógio de pêndulo.
Eu estava fora de mim por voltar a vê-lo, mas ele parecia indiferente... não: parecia que estava aborrecido por me voltar a ver, como se eu fosse um grande inconveniente.
Contou-me que já não queria saber de mim, que não sentia nada por mim... Revelou-me que, uma noite apenas depois de termos acabado o namoro, traíra-me.
Disse-o assim, utilizando aquela mesma palavra: "trai-te".
Repetiu que arranjara outra, que gostara, e mandou-me embora.
Senti o coração esmagado, como se estivesse acordada e ele me tivesse realmente dito aquilo.
Corri para ele, enfurecida, e empurrei-o sem pensar contra o relógio de pêndulo.
Bateu com a cabeça no vidro e caiu, desmaiado ou morto, entre a mesa e o relógio (que permaneceu de pé e a trabalhar), rodeado de cacos.
-Liro! - solucei, enquanto me ajoelhava ao lado dele e o puxava para o meu colo. Desejei com todas as minhas forças que o tempo voltasse atrás, como nos filmes ou nos jogos, e eu pudesse remediar o que fizera.
Tirei-lhe os pedaços de vidro da carne, puxando com especial cuidado um que ficara profundamente enterrado na cabeça, no meio de todo aquele longo cabelo castanho.
Limpei-lhe o sangue com as mãos, não me lembro se conseguia sequer chorar, de tão triste e assustada que estava:
-Desculpa, desculpa! -gemi, ao mesmo tempo que o sacudia devagarinho, como se estivesse a tentar reanima-lo.
De repente, ouvi passos e o pai dele apareceu ali, ao meu lado, a olhar para o que eu fizera ao seu filho.

Uma outra vez tive um sonho particularmente ridículo. O mundo ia acabar, mas só em Portugal (veja-se bem a nossa sorte...).
Neste distorcido Universo, as escolas funcionavam como orfanatos que se responsabilizavam a cem por cento dos alunos que lhes eram entregues. Como eu sabia que o Liro faltava habitualmente as aulas, tinha a certeza que ele não estaria presente quando os orfanatos se preparassem para nos evacuar para um local seguro: tinha de ir busca-lo.
Lembro-me vagamente de passar pelas janelas do orfanato, quando me ia embora, e ver os miúdos da minha escola numa grande batalha com os de outra escola. Estavam todos empoleirados nas janelas dos edifícios, que estavam frente a frente (e flutuavam em cima de plataformas,como se fossem barcos, ou jangadas), e atiravam tudo e mais alguma coisa uns aos outros.
Fui encontrar o Liro naquilo que parecia um insuflável gigante de cores vivas perto da baía de Tróia. Sera que o encontrei a ele?... Algo me diz que quem eu encontrei foi um mago que me deu um recado dele: tinha encontrado uma miúda com umas pernas fantásticas, e já não queria saber de mim... Preveniu-me também que tínhamos de tratar do divorcio: descobri então que, apesar de eu e o Liro não sermos casados, no sonho éramos noivos, e aparentemente precisávamos de um divorcio para deixarmos de o ser.
Muito triste, afastei-me... E pouco depois encontrei o meu amigo David, a bordo de um pequeno mas luxuoso barco, que me convidou para um passeio para me animar. Saltei para bordo e depois de um bom bocado no rio Sado fomos ate a escola D.Pedro IV, em Queluz, que frequentei do 5º ao 9º ano.
La, dirigimos-nos a papelaria (onde alem de material costumava comprar as senhas de almoço, e onde estava uma continua particularmente feia e mal humorada, de que ninguém gostava: a Dª Amélia, que tinha cabelo preto curto e ondulado, e óculos tão espessos que faziam parecer enormes os seus olhos ameaçadores).
La, compramos um gelado para cada um, e lembro-me de estar tão feliz que nem parecia que eu e o Liro nos tínhamos separado.

Outra noite sonhei que ele me revelava que tinha um jipe e namorava com um amigo seu que eu tinha conhecido. Foi tão perturbador...

Outras vezes ainda sonhei que o surpreendia com uma colega nossa (sempre a mesma)... e habitualmente eu dava a rapariga uma grande tareia.
Certa vez, atirei-a de uma janela, mas caraças, ela não morreu!
Depois sentia-me muito mal comigo mesma: não era preciso fazer nada daquilo, certamente ter-me-ia sentido melhor dizendo-lhe apenas o que tinha para lhe dizer.

Houve noites, também, em que me vi com outros homens, num misto de prazer e culpa, em que via outros mas pensava nele.