Já não me lembro quando tive estes sonhos. Acho que foi nas férias de Natal...
Foram dois sonhos: um filme, e a respectiva sequela. Eu era a protagonista, e, ao mesmo tempo a narradora. Só que, ao contrário do que normalmente sucede nestes casos, eu era uma narradora ausente e omnisciente, e, ao mesmo tempo, a personagem principal. A história não se tratava de uma recordação, ou qualquer outro relato feito em retrospectiva. Eu era, literalmente, duas entidades diferentes ao mesmo tempo.
Estava presa, juntamente com outros colegas, num edifício gigantesco. Uma mistura bizarra da antiga António Arroio, Belas-Artes, e algo mais... É difícil definir o terceiro elemento. Podia ser um armazém, ou as escadas de metal a que a oficina dos meus avós paternos ia dar, rodeadas de altíssimas paredes cinzentas e feias, ou então o estranho cenário de um antigo concurso de televisão, em que três concorrentes tinham de roubar três malas carregadas de dinheiro. No fim, só um ficava com o dinheiro.
Aquele lugar onde estávamos era macabro, bizarro, digno de um filme de terror. Parecia estar abandonado há muito tempo. Tudo era ferrugento, frágil e instável. Estava sempre escuro; ainda assim, uma constante e fraca luz de um tom verde doentio pairava sobre todas as divisões, sem que se conseguisse perceber qual era a sua origem.
Era muito fácil perder-mo-nos: o edifício era um labirinto em constante mudança. Era impossível voltar a encontrar um sítio depois de lhe voltarmos as costas.
De vez em quando cruzáva-mo-nos com zombies, mas desde que fossemos cuidadosos, nunca eram suficientes para serem perigosos.
Das poucas pessoas que estavam comigo, só me lembro de uma: a Rafaela. Trata-se de umca colega baixinha, de cara redonda acentuada pelo cabelo cortado com franja.
Ao passarmos por uma porta metálica, com uma janela de vidro (daqueles apenas semi-transparentes, e que distorcem as formas) vimos pendurado na maçaneta um papel escrito À pressa que dizia: "não abrir porta, zombie de aluna".
-Coitada! - exclamou Rafaela - Ninguém devia ficar preso para sempre!
-Aquela coisa não é uma pessoa. - disse-lhe eu - Vamos embora.
-Mas já foi. Temos de a soltar!
-Rafaela, não!
Tarde de mais. Rafaela abriu a porta, e, no instante seguinte, apareceu uma carcaça putrefacta que só com alguma dificuldade se poderia identificar como um cadáver de um ser humano. O monstro quase correu para nós, com aquilo que em tempos tinham sido os seus braços esticados na nossa direcção.
A compaixão de Rafaela desapareceu, e, tomada de medo, ela empurrou-me contra a parede do estreito corredor para conseguir passar e fugir. Estava nas minhas mãos voltar a fechar a porta.
O monstro já estava muito próximo, pelo que tive de recuar. Mas, como se se tratasse de um número de magia, o corredor estava agora mais longo, e passados alguns metros vi que tinha acabado de passar por uma segunda porta. Fechei-a, e tentei com dedos trémulos trancá-la. Não foi fácil, porque do outro lado a morta ora batia na porta ora puxava a fechadura, com muito mais força do que eu esperava que ela tivesse. Temi que ela conseguisse partir o vidro e me alcançasse.
Felizmente, consegui trancar a porta e escapar ilesa.
Depois disto só me lembro de estar num local semelhante a um laboratório de fotografia, cheio de prateleiras de químicos, e outros materiais necessários a essa arte. Um zombie, gordo e com uma camisola de xadrez, deambulava no pequeno espaço.
A chave para sair do edifício estava dentro dele.
Silenciosamente, para que ele não se apercebesse da minha presença, agarrei uma das garrafas de químicos e despejei-lha em cima.
Ninguém usa ácidos num laboratório de fotografia, pelo menos ninguém que eu conheça. Mas o monstro gritou de dor e uivou como um louco, ao mesmo tempo que o seu abdómen gorduroso era corroído pelo liquido. Não consigo perceber o motivo do que fez a seguir. Agarrou uma longa e fina serra (cujo lugar mais apropriado seria uma oficina de carpintaria e não aquele onde se encontrava) e começou a cortar-se aos bocados.
Tanto se cortou que acabou por cair morto no chão, numa grande poça do seu próprio sangue, carne, gordura e ossos.
Demasiado desesperada para ter nojo ou medo, aproximei-me, remexi o que restava da criatura, e quando por fim encontrei uma chave imunda agarrei-a com prazer e voltei para junto dos meus companheiros.
Não me lembro do final do sonho, mas acho que escapámos.
Na sequela do filme, ou seja, no segundo sonho, eu era uma professora naquele mesmo edifício. Estava a descer umas longuíssimas escadas em caracol. Eram de pedra. Mármore branco, penso. As paredes eram espaçosas, pintadas em tom de creme, com discretos brilhantes. Apesar de irregulares, eram macias: tal e qual como as paredes do prédio onde vivo, em Massamá. Não havia janelas, e eu não sabia há quanto tempo estava a descer as escadas, nem por quanto tempo teria de continuar.
Seguia-me uma multidão de alunos. Não sei se eram zombies ou fantasmas, ou qualquer outro tipo de monstros. Sei, no entanto, que não podiam fazer-me mal até ao momento em que eu demonstrasse que sabia que estava em perigo, ou até aceder a ir onde eles me queriam levar.
Eles falavam-me carinhosamente, convidando-me a acompanhá-los. Eu tinha de saber recusar os convites com gentileza. Eles fartavam-se de me fazer perguntas, e eu mentia-lhes com habilidade, certificando-me de que a teia que tecia era uniforme.
Estava cheia de medo. Mas não podia demonstrá-lo. Tinha os nervos em franja, e os meus dedos e as minhas pernas tremiam. Mas tinha de me comportar com calma e elegância, por isso cerrava as mãos em punhos e punha cuidadosamente um pé à frente do outro.
Quando vi a porta de saída nem quis acreditar. Mas não podia correr. Sempre devagar, caminhei para a porta, despedi-me deles, e saí.
sábado, 28 de janeiro de 2012
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Os zombies também têm sentimentos!
Lembro-me de muito pouco deste sonho. Resumindo, a minha mãe tinha dado guarida a um grupo de zombies e fazia todos os possíveis para (re)inseri-los na sociedade, argumentando que os zombies também tinham sentimentos, e ficavam tristes por serem rejeitados.
Segundo ela dizia, eles eram inofensivos, ao contrário do que as histórias contam. Convivia com eles uma boa parte do dia, e estava empenhada em ensinar-lhes danças de salão (que ela própria não sabe).
Estava também decidida a apresentá-los a mim e ao meu irmão, insistindo que tentássemos conversar com eles (apesar de eles não serem capazes de responder). Naturalmente, eu desatava a correr assim que via um daqueles cadáveres ambulantes a arrastar-se na minha direcção. Isso enfurecia tanto a minha mãe como os mortos, e enquanto me afastava eu conseguia ouvi-la a ela a gritar para que eu voltasse e a eles a grunhir incongruências.
A certa altura, um zombie com um grande chapéu de palha enfeitado com flores tentou aproximar-se de mim. Incapaz de soltar sequer um grito, afastei-me com um salto ágil e caí, rolando no chão. Entretanto, o monstro, que tinha ficado muito ofendido, começou a perseguir-me com os braços esticados.
Levantei-me e corri o mais depressa que podia em direcção aos canis. No caminho, agarrei o meu irmão pelo pulso da camisola e ordenei-lhe que viesse comigo.
Fechá-mo-nos atrás das grades e vimos, de olhos arregalados, vários mortos a avançarem em direcção do canil, furiosos.
-Carolina! Tomás! - vociferou a minha mãe - Saiam já daí e peçam desculpa!
Segundo ela dizia, eles eram inofensivos, ao contrário do que as histórias contam. Convivia com eles uma boa parte do dia, e estava empenhada em ensinar-lhes danças de salão (que ela própria não sabe).
Estava também decidida a apresentá-los a mim e ao meu irmão, insistindo que tentássemos conversar com eles (apesar de eles não serem capazes de responder). Naturalmente, eu desatava a correr assim que via um daqueles cadáveres ambulantes a arrastar-se na minha direcção. Isso enfurecia tanto a minha mãe como os mortos, e enquanto me afastava eu conseguia ouvi-la a ela a gritar para que eu voltasse e a eles a grunhir incongruências.
A certa altura, um zombie com um grande chapéu de palha enfeitado com flores tentou aproximar-se de mim. Incapaz de soltar sequer um grito, afastei-me com um salto ágil e caí, rolando no chão. Entretanto, o monstro, que tinha ficado muito ofendido, começou a perseguir-me com os braços esticados.
Levantei-me e corri o mais depressa que podia em direcção aos canis. No caminho, agarrei o meu irmão pelo pulso da camisola e ordenei-lhe que viesse comigo.
Fechá-mo-nos atrás das grades e vimos, de olhos arregalados, vários mortos a avançarem em direcção do canil, furiosos.
-Carolina! Tomás! - vociferou a minha mãe - Saiam já daí e peçam desculpa!
terça-feira, 23 de agosto de 2011
O que estamos dispostos a fazer para conseguir uma casa em tempos de crise...
Esta noite, vi-me a mim e à minha família a visitar a casa-museu de um famoso realizador de filmes de terror, que, fascinado pela sua arte, transformara o seu lar num verdadeiro cenário de filmes de terror clássicos.
As paredes altíssimas eram feitas de grande blocos de pedra cinzenta, e, se bem me lembro, em certas divisões não havia tecto: olhando para cima, conseguíamos ver o céu, coberto de espessas nuvens cinzentas. Não se viam janelas, e os candelabros estavam todos apagados e envoltos em teias de aranha. Uma luz pálida, quase gélida, entrava através das divisões sem tecto ou de minúsculos buracos nas paredes. O chão era umas vezes de madeira, outras de pedra, mas sempre frio como um morto.
Era difícil acreditar que um dia alguém tinha habitado aquela casa.
Ao entrarmos, passámos sob um colossal arco lanceolado,e deparámos-nos com um poço tão fundo que, ao olharmos para baixo, víamos apenas escuridão. Dir-se-ia que ia dar ao próprio inferno.
A única maneira de transpor aquele vazio era atravessá-lo sobre portões metálicos constituídos por finíssimas barras que se cruzavam vertical e horizontalmente. Estas plataformas estavam em constante movimento, deslocando-se ao longo de várias e longas divisões, sobrepondo-se umas às outras, afastando-se subitamente, e repletas de armadilhas escondidas. A qualquer momento, podíamos cair no abismo negro que estava sob os nossos pés.
Felizmente, conseguíamos chegar em segurança a uma sala ampla, da qual apenas uma parede permanecia inteira: nela, havia quatro ou cinco janelas lanceoladas, tão altas e esguias que ocupavam a parede desde o chão ao tecto. Tratavam-se de vitrais coloridos em tons de roxos e azuis. Não havia tecto na sala... Lembro-me que sobre ela o céu era lilás, e, por detrás de algumas nuvens, viam-se uma ou duas estrelas, que irradiavam uma luz muito fraca.
Diante da janela, havia uma elaborada (e, honestamente, pirosa) estátua de uma raposa branca ou um arminho. Diante dela, havia um cálice com o que à primeira vista poderiam parecer pauzinhos queimados, e uma inscrição com instruções deixadas pelo falecido dono da casa. Segundo a inscrição, o seu espírito continuava a divagar pelas paredes da casa, sob a forma de um fantasma de uma raposa branca ou de um arminho. ISto era possível apenas devido à estátua que tínhamos diante dos nossos olhos. Estava também escrito que o espírito estava disposto a deixar a sua casa ao fã que lhe escrevesse a carta mais comovente de todas. O seu único desejo era que não mudassem em nada o aspecto da casa nem destruíssem a sua estátua.
"Está bem, está..." pensei "Se fosse eu, era a primeira coisa que ia à vida".
Depois, porém, pus-me a pensar... Eu precisava de uma casa, e, apesar de tudo, esta era de borla. Decidi tentar a minha sorte. Inclinei-me sobre o cálice, para perceber se era lá que os fãs deixavam as suas cartas, e constatei que aqueles poucos pauzinhos queimados eram na verdade pequenos rolos de pergaminho.
Nesse momento, o fantasma do antigo proprietário apareceu diante de mim. Parecia feito de fumo: a sua forma alterava-se constantemente, e era difícil perceber se tinha se seria azul ou branco. Os seus olhos ora pareciam vazios, ora imensamente tristes. Ao afastar-me, reparei que havia no cachaço do bicho um grande buraco negro, à volta do qual o pêlo estava manchado de sangue escuro. Era o buraco deixado pela bala que tinha morto o homem.
Estava cheia de medo, mas, enquanto me afastava, consegui reunir coragem suficiente para me voltar para trás, piscar o olho ao espírito e dizer:
-Eu vejo-te depois, ok? Trago-te a minha carta daqui a uns dias.
Ele olhou para mim com uma expressão vaga, depois desapareceu.
Voltar a sair daquela casa sombria foi muito mais complicado do que entrar. Quando tornei a aproximar-me das plataformas, gritei de medo, como se fosse incapaz de as atravessar. Quando me ouviu, um homem que já estava muito à minha frente correu para trás para me ajudar. Tinha uma grande "afro", era judeu, e suponho que se tratasse de um grande amigo de Zé Oliveira, namorado de uma tia minha.
-Não! Eu consigo! - gritei, quando percebi quais eram as suas intenções. Senti-me mal por fazê-lo arriscar a sua vida. Mas nada o deteve: aproximou-se de mim, deu-me a mão, e começou a andar comigo atrás dele, segurando sempre as suas duas mãos.
-Não pensem! - recomendou a minha mãe, já longe. - É preciso não pensar!
Depois de ela dizer isto resolvi seguir o meu instinto, e realmente tudo me pareceu mais fácil, até perceber que caminhávamos com os pés esquerdos e direitos em plataformas diferente, que aos poucos se iam afastando uma da outra.
-Oh meu Deus! Oh meus Deus! - murmurava eu, ao ver que não conseguia saltar para nenhuma das duas plataformas sem cair no abismo.
Para piorar a situação, eu e o meu companheiro apercebe-mo-nos de que Zé Oliveira se encontrava na mesma situação, pouco adiante. Só que estava imóvel, enquanto que nós éramos rapidamente impelidos na sua direcção.
O momento seguinte parecia uma cena retirada de um filme animado: o meu companheiro caíra e eu agarrara-o pelos braços, e Zé Oliveira, que caíra também, agarrara-se desesperadamente às suas pernas. Entretanto, eu estava prestes a fazer a espargata.
Tinha de me livrar o mais depressa possível daquele peso ou acabaríamos por mergulhar os três na escuridão.
Reuni todas as minhas forças (que na realidade são nenhumas)e consegui atirar os dois homens para uma plataforma onde estariam seguros. Os dois agradeceram-me, e comecei a ouvir aplausos ao meu lado: quatro membros de uma equipa de football americano (se bem que muito pouco robustos) aplaudiam a minha proeza, confortavelmente sentados em cadeiras de plástico montadas na plataforma metálica à minha direita.
Conseguimos sair sãos e salvos da casa, mas não sem que antes o Zé Olveira esbarrasse contra uma mesa onde estava servido um banquete sumptuoso, e tivesse que arrancar um garfo que tinha ficado espetado na sua perna esquerda após o acidente.
As paredes altíssimas eram feitas de grande blocos de pedra cinzenta, e, se bem me lembro, em certas divisões não havia tecto: olhando para cima, conseguíamos ver o céu, coberto de espessas nuvens cinzentas. Não se viam janelas, e os candelabros estavam todos apagados e envoltos em teias de aranha. Uma luz pálida, quase gélida, entrava através das divisões sem tecto ou de minúsculos buracos nas paredes. O chão era umas vezes de madeira, outras de pedra, mas sempre frio como um morto.
Era difícil acreditar que um dia alguém tinha habitado aquela casa.
Ao entrarmos, passámos sob um colossal arco lanceolado,e deparámos-nos com um poço tão fundo que, ao olharmos para baixo, víamos apenas escuridão. Dir-se-ia que ia dar ao próprio inferno.
A única maneira de transpor aquele vazio era atravessá-lo sobre portões metálicos constituídos por finíssimas barras que se cruzavam vertical e horizontalmente. Estas plataformas estavam em constante movimento, deslocando-se ao longo de várias e longas divisões, sobrepondo-se umas às outras, afastando-se subitamente, e repletas de armadilhas escondidas. A qualquer momento, podíamos cair no abismo negro que estava sob os nossos pés.
Felizmente, conseguíamos chegar em segurança a uma sala ampla, da qual apenas uma parede permanecia inteira: nela, havia quatro ou cinco janelas lanceoladas, tão altas e esguias que ocupavam a parede desde o chão ao tecto. Tratavam-se de vitrais coloridos em tons de roxos e azuis. Não havia tecto na sala... Lembro-me que sobre ela o céu era lilás, e, por detrás de algumas nuvens, viam-se uma ou duas estrelas, que irradiavam uma luz muito fraca.
Diante da janela, havia uma elaborada (e, honestamente, pirosa) estátua de uma raposa branca ou um arminho. Diante dela, havia um cálice com o que à primeira vista poderiam parecer pauzinhos queimados, e uma inscrição com instruções deixadas pelo falecido dono da casa. Segundo a inscrição, o seu espírito continuava a divagar pelas paredes da casa, sob a forma de um fantasma de uma raposa branca ou de um arminho. ISto era possível apenas devido à estátua que tínhamos diante dos nossos olhos. Estava também escrito que o espírito estava disposto a deixar a sua casa ao fã que lhe escrevesse a carta mais comovente de todas. O seu único desejo era que não mudassem em nada o aspecto da casa nem destruíssem a sua estátua.
"Está bem, está..." pensei "Se fosse eu, era a primeira coisa que ia à vida".
Depois, porém, pus-me a pensar... Eu precisava de uma casa, e, apesar de tudo, esta era de borla. Decidi tentar a minha sorte. Inclinei-me sobre o cálice, para perceber se era lá que os fãs deixavam as suas cartas, e constatei que aqueles poucos pauzinhos queimados eram na verdade pequenos rolos de pergaminho.
Nesse momento, o fantasma do antigo proprietário apareceu diante de mim. Parecia feito de fumo: a sua forma alterava-se constantemente, e era difícil perceber se tinha se seria azul ou branco. Os seus olhos ora pareciam vazios, ora imensamente tristes. Ao afastar-me, reparei que havia no cachaço do bicho um grande buraco negro, à volta do qual o pêlo estava manchado de sangue escuro. Era o buraco deixado pela bala que tinha morto o homem.
Estava cheia de medo, mas, enquanto me afastava, consegui reunir coragem suficiente para me voltar para trás, piscar o olho ao espírito e dizer:
-Eu vejo-te depois, ok? Trago-te a minha carta daqui a uns dias.
Ele olhou para mim com uma expressão vaga, depois desapareceu.
Voltar a sair daquela casa sombria foi muito mais complicado do que entrar. Quando tornei a aproximar-me das plataformas, gritei de medo, como se fosse incapaz de as atravessar. Quando me ouviu, um homem que já estava muito à minha frente correu para trás para me ajudar. Tinha uma grande "afro", era judeu, e suponho que se tratasse de um grande amigo de Zé Oliveira, namorado de uma tia minha.
-Não! Eu consigo! - gritei, quando percebi quais eram as suas intenções. Senti-me mal por fazê-lo arriscar a sua vida. Mas nada o deteve: aproximou-se de mim, deu-me a mão, e começou a andar comigo atrás dele, segurando sempre as suas duas mãos.
-Não pensem! - recomendou a minha mãe, já longe. - É preciso não pensar!
Depois de ela dizer isto resolvi seguir o meu instinto, e realmente tudo me pareceu mais fácil, até perceber que caminhávamos com os pés esquerdos e direitos em plataformas diferente, que aos poucos se iam afastando uma da outra.
-Oh meu Deus! Oh meus Deus! - murmurava eu, ao ver que não conseguia saltar para nenhuma das duas plataformas sem cair no abismo.
Para piorar a situação, eu e o meu companheiro apercebe-mo-nos de que Zé Oliveira se encontrava na mesma situação, pouco adiante. Só que estava imóvel, enquanto que nós éramos rapidamente impelidos na sua direcção.
O momento seguinte parecia uma cena retirada de um filme animado: o meu companheiro caíra e eu agarrara-o pelos braços, e Zé Oliveira, que caíra também, agarrara-se desesperadamente às suas pernas. Entretanto, eu estava prestes a fazer a espargata.
Tinha de me livrar o mais depressa possível daquele peso ou acabaríamos por mergulhar os três na escuridão.
Reuni todas as minhas forças (que na realidade são nenhumas)e consegui atirar os dois homens para uma plataforma onde estariam seguros. Os dois agradeceram-me, e comecei a ouvir aplausos ao meu lado: quatro membros de uma equipa de football americano (se bem que muito pouco robustos) aplaudiam a minha proeza, confortavelmente sentados em cadeiras de plástico montadas na plataforma metálica à minha direita.
Conseguimos sair sãos e salvos da casa, mas não sem que antes o Zé Olveira esbarrasse contra uma mesa onde estava servido um banquete sumptuoso, e tivesse que arrancar um garfo que tinha ficado espetado na sua perna esquerda após o acidente.
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
Canibalismo e civilizações perdidas
Há já muito tempo que não escrevo... Hoje, contudo, o sonho que vou contar fez-me notar a minha falta: estava numa sala de cinema muito longa e estreita. Era clara, acho que toda branca, mas estava um pouco escuro. Por vezes, era difícil perceber se estávamos realmente entre quatro paredes ou ao ar livre.
Comigo, estavam o meu irmão e a minha prima Ana. O filme que estávamos a ver era muito mau, para além de dolorosamente aborrecido. Por isso, apesar de já nos terem repreendido algumas vezes, nós continuávamos a falar.
A dada altura, Ana revelou-nos que se tinha chateado com uma amiga sua: a Inês, com quem passei uns dias à pouco tempo:
-Mas ela teve o que merecia: a Patrícia comeu-a!
Fui sacudida por um arrepio tão gelado que me fez doer o corpo. A Patrícia é outra das amigas de Ana, com quem também estive este Verão.
-O quê? - murmurei, incrédula.
-A Patrícia comeu-a. Ela e mais algumas amigas dela. Foi bem-feita!
Quase deixei de ouvir Ana, durante algum tempo. Sentia-me tonta, e estava prestes a vomitar.
Entretanto, Ana continuava a tagarelar:
-Cortaram-na aos bocadinhos, guardaram a carne num frigorífico e foram comendo. É que a Patrícia faz parte de uma seita canibal qualquer, sabes? Se alguém chateia uma dela... pronto! Mas foi bem-feita, foi bem-feita...
Como é que era possível que a Ana fosse amiga de uma pessoa assim? Porque não tinha revelado isto a mais ninguém? Estaria com medo? E como é que era possível que a polícia nunca tivesse descoberto qualquer vestígio de um crime tão macabro:
-Onde é que elas escondem os ossos? - lembrei-me de perguntar.
A Ana assumiu uma expressão pensativa, e acabou por me dizer que não sabia.
-Mas agora eu tenho de ter cuidado com elas... - disse-me ela, num tom subitamente sério - É que eu e a Patrícia chateá-mo-nos, sabes?
Quando ela me contou isto, apeteceu-me desatar a chorar. O Tomás, por seu turno, ficou animadíssimo, comentando com a nossa prima como era empolgante ela fazer parte de semelhante drama.
Entretanto, eu fiquei tão nervosa que desatei a comer qualquer coisa e a falar, pelo que fui expulsa da sala. Lembro-me que na altura em que me expulsaram apareceu no ecrã um homem de aspecto rude, com uma palhinha na boca. Lembrou-me o Chuck Norris. Estava num campo aberto, cheio de capim.
Dei comigo numa imensa cidade greco-romana, que aos pouco uma equipa de arqueólogos ia escavando.
Tudo estava intacto: as esculturas, os edifícios... Mas era tudo de um branco imaculado: todas as pinturas de cores vivas tinham desaparecido.
Acabei por encontrar o meu professor de animação Zepe, que, juntamente com um um ou dois companheiros, explorava o achado.
Segui-os à distância (provavelmente com medo que o meu professor me perguntasse alguma em relação a um trabalho em atraso). Passei as mãos por um mosaico lindíssimo, feito de pequenas pedrinhas de um verde-jade, macias como seda.
Zepe acabou por se aperceber da minha presença e foi ao meu encontro. Revelou-me que uma escavação semelhante àquela estava naquele momento a ser feita no jardim da quinta onde moro.
Incrédula, fui a correr para casa.
Quando vi que a parte bonita do nosso jardim tinha desaparecido, e que no seu lugar havia um buracão colossal, pensei como o tio e a mãe ficariam aborrecidos.
Lá em baixo, a pelo menos 25 metros da superfície, uma antiga cidade greco-romana era redescoberta.
"Será que pediram permissão ao tio para escavar no jardim dele?" pensei "Será que lhe estão a pagar para estar aqui?".
Desci. Aquele achado era agora usado como uma espécie de parque temático: tal como em Óbidos se fazem feiras medievais, ali deparei-me com uma feira greco-romana. Muitas pessoas usavam togas.
Ao fim de algum tempo parei junto de uma banca onde se vendia fruta, construída sobre uma estrutura de madeira improvisada. Sentei-me junto a uma cesta e pus-me a comer frutos secos (que na realidade detesto).
De volta a casa, cruzei-me com o meu padrasto e disse-lhe:
-Tio! Já sabes que havia uma cidade greco-romana in-tei-ri-nha debaixo do jardim?!
-Oh! Mas isso via-se logo! - retorquiu ele. Deduzi que tivesse descoberto tal coisa através das irregularidades do terreno.
Comigo, estavam o meu irmão e a minha prima Ana. O filme que estávamos a ver era muito mau, para além de dolorosamente aborrecido. Por isso, apesar de já nos terem repreendido algumas vezes, nós continuávamos a falar.
A dada altura, Ana revelou-nos que se tinha chateado com uma amiga sua: a Inês, com quem passei uns dias à pouco tempo:
-Mas ela teve o que merecia: a Patrícia comeu-a!
Fui sacudida por um arrepio tão gelado que me fez doer o corpo. A Patrícia é outra das amigas de Ana, com quem também estive este Verão.
-O quê? - murmurei, incrédula.
-A Patrícia comeu-a. Ela e mais algumas amigas dela. Foi bem-feita!
Quase deixei de ouvir Ana, durante algum tempo. Sentia-me tonta, e estava prestes a vomitar.
Entretanto, Ana continuava a tagarelar:
-Cortaram-na aos bocadinhos, guardaram a carne num frigorífico e foram comendo. É que a Patrícia faz parte de uma seita canibal qualquer, sabes? Se alguém chateia uma dela... pronto! Mas foi bem-feita, foi bem-feita...
Como é que era possível que a Ana fosse amiga de uma pessoa assim? Porque não tinha revelado isto a mais ninguém? Estaria com medo? E como é que era possível que a polícia nunca tivesse descoberto qualquer vestígio de um crime tão macabro:
-Onde é que elas escondem os ossos? - lembrei-me de perguntar.
A Ana assumiu uma expressão pensativa, e acabou por me dizer que não sabia.
-Mas agora eu tenho de ter cuidado com elas... - disse-me ela, num tom subitamente sério - É que eu e a Patrícia chateá-mo-nos, sabes?
Quando ela me contou isto, apeteceu-me desatar a chorar. O Tomás, por seu turno, ficou animadíssimo, comentando com a nossa prima como era empolgante ela fazer parte de semelhante drama.
Entretanto, eu fiquei tão nervosa que desatei a comer qualquer coisa e a falar, pelo que fui expulsa da sala. Lembro-me que na altura em que me expulsaram apareceu no ecrã um homem de aspecto rude, com uma palhinha na boca. Lembrou-me o Chuck Norris. Estava num campo aberto, cheio de capim.
Dei comigo numa imensa cidade greco-romana, que aos pouco uma equipa de arqueólogos ia escavando.
Tudo estava intacto: as esculturas, os edifícios... Mas era tudo de um branco imaculado: todas as pinturas de cores vivas tinham desaparecido.
Acabei por encontrar o meu professor de animação Zepe, que, juntamente com um um ou dois companheiros, explorava o achado.
Segui-os à distância (provavelmente com medo que o meu professor me perguntasse alguma em relação a um trabalho em atraso). Passei as mãos por um mosaico lindíssimo, feito de pequenas pedrinhas de um verde-jade, macias como seda.
Zepe acabou por se aperceber da minha presença e foi ao meu encontro. Revelou-me que uma escavação semelhante àquela estava naquele momento a ser feita no jardim da quinta onde moro.
Incrédula, fui a correr para casa.
Quando vi que a parte bonita do nosso jardim tinha desaparecido, e que no seu lugar havia um buracão colossal, pensei como o tio e a mãe ficariam aborrecidos.
Lá em baixo, a pelo menos 25 metros da superfície, uma antiga cidade greco-romana era redescoberta.
"Será que pediram permissão ao tio para escavar no jardim dele?" pensei "Será que lhe estão a pagar para estar aqui?".
Desci. Aquele achado era agora usado como uma espécie de parque temático: tal como em Óbidos se fazem feiras medievais, ali deparei-me com uma feira greco-romana. Muitas pessoas usavam togas.
Ao fim de algum tempo parei junto de uma banca onde se vendia fruta, construída sobre uma estrutura de madeira improvisada. Sentei-me junto a uma cesta e pus-me a comer frutos secos (que na realidade detesto).
De volta a casa, cruzei-me com o meu padrasto e disse-lhe:
-Tio! Já sabes que havia uma cidade greco-romana in-tei-ri-nha debaixo do jardim?!
-Oh! Mas isso via-se logo! - retorquiu ele. Deduzi que tivesse descoberto tal coisa através das irregularidades do terreno.
sexta-feira, 24 de junho de 2011
MAIS UM APOCALIPSE ZOMBIE (isto começa a preocupar-me)
Costumo ter várias vezes o mesmo sonho, e muitas vezes até gosto: é como ler um capítulo de um livro, pô-lo de parte, e mais tarde voltar a pegar nele para ler mais um capítulo ou dois. Mas já começo a estranhar esta história dos apocalipses zombies... Até porque os sonhos estão a tornar-se cada vez mais violentos.
Infelizmente, já passou demasiado tempo desde que tive este último sonho para me lembrar dele com todo o pormenor.
Mas sei que tudo começou numa praia... Uma praia muito estranha, para dizer a verdade: ficava dentro de uma pequena sala de paredes brancas (ou seria apenas um nevoeiro muito espesso?).
Eu estava na água, a apanhar as conchas que as ondas arrastavam para junto dos meus pés. A água era muito transparente, e através dela viam-se perfeitamente as algas, as conchas, as pedras...
Quando estava voltada para o mar, ficavam à minha direita alguns cadeirões, e mesmo uma estante cheia de livros. Grande parte da minha família estava aí. Lembro-me particularmente bem dos meus avós.
Junto de mim estavam algumas crianças, que não sei se eram estranhos, ou os meus primos e o meu irmão (creio que eram eles, apesar de na realidade a nossa diferença de idades ser muito reduzida).
Connosco, estava um adulto. Era um homem, e usava calções de banho curtos e justo, às riscas brancas e azuis. Umas vezes era o meu pai, outras, um tio meu (o tio Zé Marques). Não tinha paciência nenhuma para nós, e não se esforçava para o esconder: fazia constantemente comentários cépticos que me irritavam.
Apesar de estarmos todos juntos, e ainda por cima na praia, o ambiente era pesado. A única palavra que me ocorre para o descrever é "cinzento".
A maré trazia à costa objectos cada vez mais estranhos, que eu apanhava ansiosamente. No entanto, fui obrigada a abandoná-los quando a minha família me chamou para me dizer que "tínhamos de ir embora". Eu não sabia porquê, aliás, acho que ninguém sabia. Mas nenhum de nós questionou esta decisão.
De repente, a praia desaparecera, e estávamos na casa dos meus avós, em Setúbal.
Percorri o corredor até ao último quarto, enquanto na sala a minha família me dizia para me despachar. O último quarto da casa dos avós era agora o meu quarto da casa de Massamá. Consigo pensar em dezenas de objectos que gostaria de levar comigo se algum dia fosse obrigada a fugir de minha casa, mas, neste sonho, nem sequer me lembrei deles: sem hesitar, fui até à aparelhagem, e retirei, de um pequeno esconderijo, um livro. Era um livro minúsculo e feio, com uma capa castanho-dourada de textura rude. Abri o livro, e quando o fiz, uma música lúgubre e sombria começou a tocar. Em cada página do livro havia uma fotografia de um zombie: aquele tratava do verdadeiro livro dos mortos. Lá, estavam todos os mortos-vivos que tínhamos de abater, de uma vez por todas. Sempre que um deles morria, uma página desaparecia. Sempre que uma pessoa se convertia num deles, aparecia mais uma página.
Eu era a responsável pelo livro.
Fechei-o, perturbada pela música.
Corri de novo para a minha família, que, na sala da casa dos meus avós, esperava por mim. Já tinham os casacos vestidos e não pareciam mais ansiosos por partir do que numa das nossas habituais reuniões familiares.
Lembro-me de muito pouco a partir do momento em que passámos pela porta: sei que a determinada altura eu era uma homem branco que sobrevivia a um acidente de automóvel e logo a seguir escapava a dois zombies. Depois, era novamente eu própria, e atravessava um pequeno campo de basquetebol cercado por grades em Massamá. Estavam lá dois ou três zombies por que passei sem que me dessem a menor importância. Porém, atrás de mim vinha uma pequena menina negra. Tinha o cabelo preso em dois totós, usava um adorável vestido cor-de-rosa e uma capa vermelha que a fazia parecer o capuchinho vermelho. Trazia consigo um saco de gomas.
Quando as duas saímos do campo de basquetebol, uma zombie agarrou-a e puxou-a de encontro a si. Era o cadáver de uma mulher velha e raquítica, cuja pele pálida caía aos poucos.
-Candy! - gritou ela, enfiando a mão no saco de gomas da menina e levando várias à boca - Candy! - tornou a gritar, empurrando os restos dos doces que enfiara na própria boca para a da menina.
A criança tentou gritar quando a mão putrefacta se colou à boca dela, e gritou novamente quando a velha começou a comer-lhe o peito.
Em pânico, subi por um candeeiro de rua acima com a agilidade de um gato.
No topo, tornei-me um homem negro,um pouco gordo e calvo.
Ao olhar para baixo, vi dois zombies a contornar o candeeiro, gemendo e grunhindo,à espera que eu descesse.
-Carolina!
Alguém chamava o meu nome! Olhei imediatamente na direcção do som: era Catarina!
-Carolina, salta! Não tenhas medo! Anda!
Estava cheia de medo, mas eu confio na Catarina. Por isso, saltei.
Assim que os meus pés tocaram no chão, desatei a correr. Ou pelo menos, a tentar: por algum motivo, eu não consigo correr nos meus sonhos, salvo raras excepções. Limito-me a dar alguns passinhos pequeninos muito depressa.
Mesmo assim, consegui escapar aos zombies quando eles me perseguiram.
Como eu e a Catarina corremos em direcções opostas, não sei o que lhe aconteceu.
Quanto a mim, dentro de pouco pouco estava em minha casa (em Massamá). E era eu própria outra vez.
Lá, corri o corredor até ao fim, e, deparei-me com um zombie a comer alguém, no quarto do meu irmão.
Sem perder tempo, tranquei-me no meu quarto, chorando enquanto ouvia a vítima a gritar.
Horas mais tarde, a minha família chegou e abriu a porta do meu quarto:
-Está um zombie cá em casa!
-Não... Já deve ter saído. -tranquilizou-me o meu irmão.
Na cozinha, encontrei-me com a minha mãe, uma tia minha, e a minha avó. Do joelho para baixo, a sua perna esquerda estava reduzida a tiras de carne e pele. Foi então que percebi que a pessoa que o zombie estava a comer no quarto do meu irmão era a minha avó. Senti-me esmagada pela culpa, e rezei para que ela não me tivesse visto fugir enquanto ela gritava por socorro.
Todos juntos, tratámos a ferida dela e ligámo-la. Decidimos que aquela casa seria o nosso lar, e que seria nela que tentaríamos sobreviver.
Pouco depois, toda a gente saiu de casa, excepto eu e o meu irmão. Estávamos os dois na cozinha, ele junto à janela, eu perto da mesa.
Foi então que apareceram dois zombies: não faço ideia como tinham entrado na nossa casa, mas tinham conseguido. Eram bizarros: um deles nascia das costas do outro, existindo apenas da cintura para cima.
-Eu tenho uma faca! - gritei, agarrando um cutel que estava sobre a mesa. Estava decidida a não me aproximar daqueles montros, pelo que atirei a faca com todo o meu ímpeto, apontando para o peito (não sei porque é que não tentei acertar na cabeça, já que é a única maneira de matar um zombie). Infelizmente, outra das características dos meus sonhos é que perco completamente a força... e o cutel caiu no chão mesmo aos pés da criatura.
Fiquei boquiaberta, paralisada pelo medo, a olhar ora para o cutel, ora para o monstro.
Ele passou por mim e caminhou direitinho ao meu irmão.
-Não! - gritei, e, vencendo o medo e a repugnância, agarrei a criatura pela cintura, lutando para a afastar do meu irmão enquanto tentava escapar às unhas e aos dentes do zombie que nascia das costas do outro.
-Tomás! - gritei - Mata-o! Depressa!
-Espera... -retorquiu o meu irmão, num tom tranquilo. -Tenho de escolher a faca certa... - explicou ele, enquanto revistava o seu estojo de facas (ele está a estudar para ser chef de cozinha).
-Despacha-te!
-Olha, toma esta. - disse ele, estendendo-me uma faca com toda a calma. Comecei imediatamente a esfaquear a garganta e o peito do zombie que estava colado às costas do outro. Ele olhou-me com algum desdém, e, agarrou o meu braço com força, puxando-o em direcção aos seus dentes podres.
-Não! - guinchei. Mas não pude escapar: se o fizesse, o monstro apanharia o meu irmão.
Olhando-me nos olhos, o zombie abocanhou a minha carne e puxou com prazer. Lembro-me claramente da dor.
Pouco depois, o meu irmão matou a criatura, e fugiu de mim a correr. Soube que ia dizer à minha família que eu tinha sido infectada, e que para o bem de todos era preciso matar-me.
Eu queria viver.
Por isso, corri para a bancada da coziha, escolhi um faca que ainda não tinha sido usada para matar nenhum zombie, e comecei a cortar o meu braço (tendo o cuidado de o fazer sobre uma tábua). Tinha esperanças que a vírus não tivesse chegado a espalhar-se pelo resto do corpo. Era uma ideia tôla, mas tinha de tentar.
Estava tudo sujo com o meu sangue. A dor era atroz.
Mesmo assim, cortei mais um bocado, quase rente ao cotovelo.
Acordei pouco depois... Lembro-me da dor, e voltar a sentir a mão, aos poucos e poucos.
pedras = ossos
família = vida
Infelizmente, já passou demasiado tempo desde que tive este último sonho para me lembrar dele com todo o pormenor.
Mas sei que tudo começou numa praia... Uma praia muito estranha, para dizer a verdade: ficava dentro de uma pequena sala de paredes brancas (ou seria apenas um nevoeiro muito espesso?).
Eu estava na água, a apanhar as conchas que as ondas arrastavam para junto dos meus pés. A água era muito transparente, e através dela viam-se perfeitamente as algas, as conchas, as pedras...
Quando estava voltada para o mar, ficavam à minha direita alguns cadeirões, e mesmo uma estante cheia de livros. Grande parte da minha família estava aí. Lembro-me particularmente bem dos meus avós.
Junto de mim estavam algumas crianças, que não sei se eram estranhos, ou os meus primos e o meu irmão (creio que eram eles, apesar de na realidade a nossa diferença de idades ser muito reduzida).
Connosco, estava um adulto. Era um homem, e usava calções de banho curtos e justo, às riscas brancas e azuis. Umas vezes era o meu pai, outras, um tio meu (o tio Zé Marques). Não tinha paciência nenhuma para nós, e não se esforçava para o esconder: fazia constantemente comentários cépticos que me irritavam.
Apesar de estarmos todos juntos, e ainda por cima na praia, o ambiente era pesado. A única palavra que me ocorre para o descrever é "cinzento".
A maré trazia à costa objectos cada vez mais estranhos, que eu apanhava ansiosamente. No entanto, fui obrigada a abandoná-los quando a minha família me chamou para me dizer que "tínhamos de ir embora". Eu não sabia porquê, aliás, acho que ninguém sabia. Mas nenhum de nós questionou esta decisão.
De repente, a praia desaparecera, e estávamos na casa dos meus avós, em Setúbal.
Percorri o corredor até ao último quarto, enquanto na sala a minha família me dizia para me despachar. O último quarto da casa dos avós era agora o meu quarto da casa de Massamá. Consigo pensar em dezenas de objectos que gostaria de levar comigo se algum dia fosse obrigada a fugir de minha casa, mas, neste sonho, nem sequer me lembrei deles: sem hesitar, fui até à aparelhagem, e retirei, de um pequeno esconderijo, um livro. Era um livro minúsculo e feio, com uma capa castanho-dourada de textura rude. Abri o livro, e quando o fiz, uma música lúgubre e sombria começou a tocar. Em cada página do livro havia uma fotografia de um zombie: aquele tratava do verdadeiro livro dos mortos. Lá, estavam todos os mortos-vivos que tínhamos de abater, de uma vez por todas. Sempre que um deles morria, uma página desaparecia. Sempre que uma pessoa se convertia num deles, aparecia mais uma página.
Eu era a responsável pelo livro.
Fechei-o, perturbada pela música.
Corri de novo para a minha família, que, na sala da casa dos meus avós, esperava por mim. Já tinham os casacos vestidos e não pareciam mais ansiosos por partir do que numa das nossas habituais reuniões familiares.
Lembro-me de muito pouco a partir do momento em que passámos pela porta: sei que a determinada altura eu era uma homem branco que sobrevivia a um acidente de automóvel e logo a seguir escapava a dois zombies. Depois, era novamente eu própria, e atravessava um pequeno campo de basquetebol cercado por grades em Massamá. Estavam lá dois ou três zombies por que passei sem que me dessem a menor importância. Porém, atrás de mim vinha uma pequena menina negra. Tinha o cabelo preso em dois totós, usava um adorável vestido cor-de-rosa e uma capa vermelha que a fazia parecer o capuchinho vermelho. Trazia consigo um saco de gomas.
Quando as duas saímos do campo de basquetebol, uma zombie agarrou-a e puxou-a de encontro a si. Era o cadáver de uma mulher velha e raquítica, cuja pele pálida caía aos poucos.
-Candy! - gritou ela, enfiando a mão no saco de gomas da menina e levando várias à boca - Candy! - tornou a gritar, empurrando os restos dos doces que enfiara na própria boca para a da menina.
A criança tentou gritar quando a mão putrefacta se colou à boca dela, e gritou novamente quando a velha começou a comer-lhe o peito.
Em pânico, subi por um candeeiro de rua acima com a agilidade de um gato.
No topo, tornei-me um homem negro,um pouco gordo e calvo.
Ao olhar para baixo, vi dois zombies a contornar o candeeiro, gemendo e grunhindo,à espera que eu descesse.
-Carolina!
Alguém chamava o meu nome! Olhei imediatamente na direcção do som: era Catarina!
-Carolina, salta! Não tenhas medo! Anda!
Estava cheia de medo, mas eu confio na Catarina. Por isso, saltei.
Assim que os meus pés tocaram no chão, desatei a correr. Ou pelo menos, a tentar: por algum motivo, eu não consigo correr nos meus sonhos, salvo raras excepções. Limito-me a dar alguns passinhos pequeninos muito depressa.
Mesmo assim, consegui escapar aos zombies quando eles me perseguiram.
Como eu e a Catarina corremos em direcções opostas, não sei o que lhe aconteceu.
Quanto a mim, dentro de pouco pouco estava em minha casa (em Massamá). E era eu própria outra vez.
Lá, corri o corredor até ao fim, e, deparei-me com um zombie a comer alguém, no quarto do meu irmão.
Sem perder tempo, tranquei-me no meu quarto, chorando enquanto ouvia a vítima a gritar.
Horas mais tarde, a minha família chegou e abriu a porta do meu quarto:
-Está um zombie cá em casa!
-Não... Já deve ter saído. -tranquilizou-me o meu irmão.
Na cozinha, encontrei-me com a minha mãe, uma tia minha, e a minha avó. Do joelho para baixo, a sua perna esquerda estava reduzida a tiras de carne e pele. Foi então que percebi que a pessoa que o zombie estava a comer no quarto do meu irmão era a minha avó. Senti-me esmagada pela culpa, e rezei para que ela não me tivesse visto fugir enquanto ela gritava por socorro.
Todos juntos, tratámos a ferida dela e ligámo-la. Decidimos que aquela casa seria o nosso lar, e que seria nela que tentaríamos sobreviver.
Pouco depois, toda a gente saiu de casa, excepto eu e o meu irmão. Estávamos os dois na cozinha, ele junto à janela, eu perto da mesa.
Foi então que apareceram dois zombies: não faço ideia como tinham entrado na nossa casa, mas tinham conseguido. Eram bizarros: um deles nascia das costas do outro, existindo apenas da cintura para cima.
-Eu tenho uma faca! - gritei, agarrando um cutel que estava sobre a mesa. Estava decidida a não me aproximar daqueles montros, pelo que atirei a faca com todo o meu ímpeto, apontando para o peito (não sei porque é que não tentei acertar na cabeça, já que é a única maneira de matar um zombie). Infelizmente, outra das características dos meus sonhos é que perco completamente a força... e o cutel caiu no chão mesmo aos pés da criatura.
Fiquei boquiaberta, paralisada pelo medo, a olhar ora para o cutel, ora para o monstro.
Ele passou por mim e caminhou direitinho ao meu irmão.
-Não! - gritei, e, vencendo o medo e a repugnância, agarrei a criatura pela cintura, lutando para a afastar do meu irmão enquanto tentava escapar às unhas e aos dentes do zombie que nascia das costas do outro.
-Tomás! - gritei - Mata-o! Depressa!
-Espera... -retorquiu o meu irmão, num tom tranquilo. -Tenho de escolher a faca certa... - explicou ele, enquanto revistava o seu estojo de facas (ele está a estudar para ser chef de cozinha).
-Despacha-te!
-Olha, toma esta. - disse ele, estendendo-me uma faca com toda a calma. Comecei imediatamente a esfaquear a garganta e o peito do zombie que estava colado às costas do outro. Ele olhou-me com algum desdém, e, agarrou o meu braço com força, puxando-o em direcção aos seus dentes podres.
-Não! - guinchei. Mas não pude escapar: se o fizesse, o monstro apanharia o meu irmão.
Olhando-me nos olhos, o zombie abocanhou a minha carne e puxou com prazer. Lembro-me claramente da dor.
Pouco depois, o meu irmão matou a criatura, e fugiu de mim a correr. Soube que ia dizer à minha família que eu tinha sido infectada, e que para o bem de todos era preciso matar-me.
Eu queria viver.
Por isso, corri para a bancada da coziha, escolhi um faca que ainda não tinha sido usada para matar nenhum zombie, e comecei a cortar o meu braço (tendo o cuidado de o fazer sobre uma tábua). Tinha esperanças que a vírus não tivesse chegado a espalhar-se pelo resto do corpo. Era uma ideia tôla, mas tinha de tentar.
Estava tudo sujo com o meu sangue. A dor era atroz.
Mesmo assim, cortei mais um bocado, quase rente ao cotovelo.
Acordei pouco depois... Lembro-me da dor, e voltar a sentir a mão, aos poucos e poucos.
pedras = ossos
família = vida
quinta-feira, 26 de maio de 2011
Este sonho tem pelo menos quatro anos: vivia com o meu pai na nossa casa.
Sonhei que estava na minha cama, que está encostada ao armário que divide o quarto ao meio.
Ouvi vozes do outro lado do armário:
-Cala-te, olha que acordas a miúda!
Ao ouvir isto, abri a boca para gritar pelo meu pai.
-Foda-se! -praguejaram as vozes.
Demasiado rápido para que eu conseguisse perceber do que se tratava, uma sombra surgiu detrás do armário, contornou a minha cama e segurou-me com dentes pontiagudos, que perfuraram a minha carne entre as costelas.
A dor era agonizante, e por mais que tentasse, eu não era capaz de emitir um som. "Vou morrer!" pensei.
Sonhei que estava na minha cama, que está encostada ao armário que divide o quarto ao meio.
Ouvi vozes do outro lado do armário:
-Cala-te, olha que acordas a miúda!
Ao ouvir isto, abri a boca para gritar pelo meu pai.
-Foda-se! -praguejaram as vozes.
Demasiado rápido para que eu conseguisse perceber do que se tratava, uma sombra surgiu detrás do armário, contornou a minha cama e segurou-me com dentes pontiagudos, que perfuraram a minha carne entre as costelas.
A dor era agonizante, e por mais que tentasse, eu não era capaz de emitir um som. "Vou morrer!" pensei.
Somos tão menosprezados que trabalhamos debaixo do chão
Este sonho foi anterior ao do cérebro. Aliás, tive-o mesmo antes dele... Suponho até que houvesse uma ligação entre os dois, se bem que eu não me lembre dela.
Tínhamos tido a última aula de animação, e estávamos a preparar-mo-nos para deixar o estúdio e partir de férias. Desligámos os computadores, arrumámos o furador de folhas, guardámos lápis, papéis...
Estava tão ocupada a pôr cada coisa no seu devido lugar que não me apercebi que, ao contrário da realidade (graças a Deus), não havia janelas na sala.
Quando terminámos, sacudimos as mãos, muito felizes, e passámos pela porta para um corredor muito escuro, cheio de motores, válvulas, e caldeiras.
Lá, havia, no centro, uma escada de metal, pela qual subimos um a um. O primeiro abriu uma portinha redonda semelhante à de um submarino. Ao passarmos por ela, chegávamos à superfície. Curiosamente, em vez de ficar na faculdade, o estúdio de animação situava-se no subsolo da Alameda D. Afonso Henriques, a qual subi durante três anos para chegar À António Arroio.
Quando já estávamos todos fora da sala, forrámos a abertura com cartão e fita-cola, antes de tornarmos a fechar a porta.
Pouco depois, o Rodrigo comunicou-nos, muito aflito, que se havia esquecido da borracha dentro da sala. Voltámos todos atrás, abrimos a porta e rasgámos o cartão com uma faca para que o rapaz pudesse passar e ir buscar a sua preciosa borracha.
Tínhamos tido a última aula de animação, e estávamos a preparar-mo-nos para deixar o estúdio e partir de férias. Desligámos os computadores, arrumámos o furador de folhas, guardámos lápis, papéis...
Estava tão ocupada a pôr cada coisa no seu devido lugar que não me apercebi que, ao contrário da realidade (graças a Deus), não havia janelas na sala.
Quando terminámos, sacudimos as mãos, muito felizes, e passámos pela porta para um corredor muito escuro, cheio de motores, válvulas, e caldeiras.
Lá, havia, no centro, uma escada de metal, pela qual subimos um a um. O primeiro abriu uma portinha redonda semelhante à de um submarino. Ao passarmos por ela, chegávamos à superfície. Curiosamente, em vez de ficar na faculdade, o estúdio de animação situava-se no subsolo da Alameda D. Afonso Henriques, a qual subi durante três anos para chegar À António Arroio.
Quando já estávamos todos fora da sala, forrámos a abertura com cartão e fita-cola, antes de tornarmos a fechar a porta.
Pouco depois, o Rodrigo comunicou-nos, muito aflito, que se havia esquecido da borracha dentro da sala. Voltámos todos atrás, abrimos a porta e rasgámos o cartão com uma faca para que o rapaz pudesse passar e ir buscar a sua preciosa borracha.
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