Pensem no planeta Terra. Agora imaginem que, em vez de os continentes estarem na sua superfície da esfera, a encararem o espaço, encontravam-se no seu interior, e encaravam-se uns aos outros. No meio, ficava o céu, com todas as suas nuvens, planetas e estrelas.
No meu sonho de anteontem, a Terra era assim.
Era de noite, e eu viajava de carro, ou mota, com o meu pai. O mundo parecia deserto. À nossa frente, só se via a estrada, à esquerda e à direita, uma extensa planície (Que, pelo seu tom amarelo-torrado, lembrava uma savana, e, acima das nossas cabeças, o céu, de várias cores maravilhosas: preto, azul-escuro, roxo.
O meu pai parou junto a uma tabuleta.
-Sabes onde estamos?
-Onde?
-Na Ásia.
Ao ouvir isto, fiz questão de sair da mota, ou do carro, para pisar chão asiático.
Assim que o fiz, o meu pai, que não saíra do veículo, acelerou e inverteu a marcha, contornando-me, como se fizesse tenção de me abandonar ali.
Sem pensar, agarrei com ambas as mãos o veículo, que imediatamente se deteve.
O meu pai saiu do carro e ficou comigo a olhar para o céu.
-Olha! - exclamei -A Europa.
No horizonte, a terra curvava-se para cima. Era por isso que, de onde estávamos, parecia que ela estava no céu.
Nesse momento, algo semelhante à Aurora Boreal irrompeu no céu, mesmo ao lado de Portugal. Pareciam grandes explosões de cor.
Mais tarde, eu, o meu irmão e o meu padrasto, discutíamos a possibilidade de uma viagem ao Brasil, onde um espectáculo semelhante ao que eu vira com o meu pai iria suceder.
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
domingo, 29 de janeiro de 2012
O Paraíso
Tive este sonho durante as férias de Natal. Nem sei como quase me esqueci de o escrever aqui.
Estava em Lisboa, perto do túnel do Gril. Era noite cerrada, e só as luzes cor-de-laranja dos candeeiros de rua iluminavam a estrada.
Não havia ninguém à minha volta. Eu estava assustada, e não sabia o que fazer nem para onde ir. Mesmo assim, caminhava, como um autómato, em direcção ao túnel.
Aos poucos, comecei a distinguir na escuridão. Algumas olhavam à sua volta enquanto avançavam, como se tentassem descobrir onde estavam. Não demonstravam qualquer preocupação ou curiosidade. Limitavam-se a olhar atentamente à sua volta. Aparentavam aceitar o facto de estarem num lugar que desconheciam.
Sem se falarem, ou sequer olharem uns para os outros, iam todos para o túnel.
No meio da multidão, acabei por encontrar o meu irmão. Ele explicou-me que estávamos mortos, e que percorríamos o caminho para o paraíso.
Dentro do túnel, o chão não era alcatroado, mas de terra, e cada vez mais íngreme. Sob o tecto cinzento, iluminado por uma forte luz branca artificial, cresciam algumas algumas plantas. Sobretudo ervas, mas também árvores: carvalhos. Eram, todavia, pequenos, e a folhagem era tão escassa que não bastava para formar uma copa. As suas raízes sobressaíam da terra, e estendiam-se na nossa direcção como dedos de bruxa: magros, retorcidos, acusadores. Também não faltavam pedras e ossos humanos.
Conforme subíamos, agarrava-mo-nos a tudo isso.
Estávamos exaustos e doridos, mas o paraíso era mesmo lá em cima, e se continuássemos seríamos premiados com uma estadia eterna. Se desistíssemos, estaríamos condenados a deambular no limbo, para sempre.
Por vezes, sentia o meu irmão agarrar-se aos meus tornozelos, por não encontrar nenhum ponto de apoio melhor. Nessas alturas, eu ficava imóvel, e agarrava-me com toda a força ao que estivesse ao meu alcance, rezando para que aguentasse o peso dos nossos corpos.
Cheguei ao cimo primeiro que o meu irmão. Hesitante, palpei a terra plana, mas acreditando no que via. Subi, e, para minha grande surpresa, não vi um grande portão dourado, rodeado de nuvens e do céu. Em vez disso, verifiquei que a cerca de um metro do abismo, se erguia um parede cinzenta, e sobre ela assentava o tecto que cobria todo o túnel. Ali, era tão baixo que eu mal conseguia erguer-me. Era um espaço minúsculo. Para além de mim, os únicos ocupantes eram dois homens corpulentos, de lindo cabelos encaracolados. Confortavelmente alojados (cada um sentado na respectiva cadeira de praia), eles observavam a labuta da multidão.
Fiquei tão indignada que me aproximei do precipício e, com um grito, ordenei aos mortos que se detivessem. Descrevi-lhes o que encontrara e acrescentei que o paraíso não existia.
Devastados, alguns largaram a parede de terra e deixaram-se cair. Mas a maioria desceu lentamente, demasiado desiludida para expressar sequer o seu sofrimento. Resignados, deixaram o túnel e regressaram cabisbaixos ao limbo.
Quando já todos haviam partido, eu sentei-me ao lado dos homens, para descansar e chorar.
Foi então que um deles se levantou, passou por mim, e, a um canto da parede cinzenta, abriu uma minúscula porta.
-Tu ficaste. - disse-me ele. -Por isso, podes ir para o Paraíso.
Parei imediatamente de chorar. De queixo caído, olhei por instantes para o homem, que segurava entre dois dedos a maçaneta da minúscula porta. Só então me apercebi que ele tinha um majestoso par de asas.
A culpa abateu-se sobre mim, alojando-se no meu peito sob a forma de um peso atroz e doloroso.
-Espera. -pedi ao anjo -Tenho de chamar os outros e explicar-lhes o que aconteceu.
-Não. - determinou o anjo. -Eles já não podem entrar.
-Então deixa-me chamar só o meu irmão. -roguei.
-Não. - insistiu o anjo.
-Porquê?
-Só pode entrar no paraíso quem tem fé nele.
-O meu irmão tinha fé! Eu tirei-lha!
Cansado de me ouvir, o anjo agarrou-me e enfiou-me à força no paraíso, enquanto eu me debatia e lhe gritava que estava a cometer uma terrível injustiça, porque, de todas as pessoas que subiam a parede, eu era de todas elas a que menos fé tivera, chegando mesmo a tirar-lhes a deles.
Ele fingiu que não me ouviu, e fechou a porta atrás de mim.
Tentei abri-la novamente, mas ela não cedeu nem um pouco. Mas não ia desistir: estava determinada a avisar o meu irmão do erro que cometera e que o condenara. De alguma maneira, eu trá-lo-ia para ao pé de mim.
Olhei à minha volta. Ao distinguir algumas grandes cabines telefónicas, de um azul berrante, tentei contactar o meu irmão. Mas era escusado: aqueles telefones só recebiam chamadas. Tentei, de seguida, enviar-lhe um e-mail através de umas máquinas muito semelhantes a caixas multibanco. Mas, tal como os telefones, estas máquinas podiam apenas receber mensagens, e nunca enviá-las.
Procurei uma saída do Paraíso. Uma porta, uma janela, um buraco; o que quer que fosse. Se encontrasse uma maneira de sair sem que o anjo me visse, poderia procurar o meu irmão e depois regressar com ele. Mas a única maneira de entrar no paraíso era através daquela minúscula porta (tão feia) e, depois de lá se estar, era impossível sair.
É claro que a minha obstinação não passou despercebida ao anjo. Chegámos a sentar-nos lado a lado e ele ouviu-me desabafar e chorar durante horas a fio, ao longo de vários dias.
Quando finalmente desisti de encontrar uma maneira de contactar o meu irmão, ou de fugir do paraíso para o ir procurar, fui ao encontro do anjo, de quem me tornara amiga, e pedi-lhe que, ao menos, me deixasse regressar ao limbo para ficar com o Tomás.
Comovido pelo meu amor e determinação, o anjo acedeu a ir ele próprio buscar o meu irmão.
Não houve, na narração deste sonho, espaço para uma descrição do paraíso. A verdade é que era parecidíssimo com a Avenue Louise, de Bruxelas. Mas não se viam carros em lado nenhum, e crescia um pouco de erva por todo o lado.
Estava em Lisboa, perto do túnel do Gril. Era noite cerrada, e só as luzes cor-de-laranja dos candeeiros de rua iluminavam a estrada.
Não havia ninguém à minha volta. Eu estava assustada, e não sabia o que fazer nem para onde ir. Mesmo assim, caminhava, como um autómato, em direcção ao túnel.
Aos poucos, comecei a distinguir na escuridão. Algumas olhavam à sua volta enquanto avançavam, como se tentassem descobrir onde estavam. Não demonstravam qualquer preocupação ou curiosidade. Limitavam-se a olhar atentamente à sua volta. Aparentavam aceitar o facto de estarem num lugar que desconheciam.
Sem se falarem, ou sequer olharem uns para os outros, iam todos para o túnel.
No meio da multidão, acabei por encontrar o meu irmão. Ele explicou-me que estávamos mortos, e que percorríamos o caminho para o paraíso.
Dentro do túnel, o chão não era alcatroado, mas de terra, e cada vez mais íngreme. Sob o tecto cinzento, iluminado por uma forte luz branca artificial, cresciam algumas algumas plantas. Sobretudo ervas, mas também árvores: carvalhos. Eram, todavia, pequenos, e a folhagem era tão escassa que não bastava para formar uma copa. As suas raízes sobressaíam da terra, e estendiam-se na nossa direcção como dedos de bruxa: magros, retorcidos, acusadores. Também não faltavam pedras e ossos humanos.
Conforme subíamos, agarrava-mo-nos a tudo isso.
Estávamos exaustos e doridos, mas o paraíso era mesmo lá em cima, e se continuássemos seríamos premiados com uma estadia eterna. Se desistíssemos, estaríamos condenados a deambular no limbo, para sempre.
Por vezes, sentia o meu irmão agarrar-se aos meus tornozelos, por não encontrar nenhum ponto de apoio melhor. Nessas alturas, eu ficava imóvel, e agarrava-me com toda a força ao que estivesse ao meu alcance, rezando para que aguentasse o peso dos nossos corpos.
Cheguei ao cimo primeiro que o meu irmão. Hesitante, palpei a terra plana, mas acreditando no que via. Subi, e, para minha grande surpresa, não vi um grande portão dourado, rodeado de nuvens e do céu. Em vez disso, verifiquei que a cerca de um metro do abismo, se erguia um parede cinzenta, e sobre ela assentava o tecto que cobria todo o túnel. Ali, era tão baixo que eu mal conseguia erguer-me. Era um espaço minúsculo. Para além de mim, os únicos ocupantes eram dois homens corpulentos, de lindo cabelos encaracolados. Confortavelmente alojados (cada um sentado na respectiva cadeira de praia), eles observavam a labuta da multidão.
Fiquei tão indignada que me aproximei do precipício e, com um grito, ordenei aos mortos que se detivessem. Descrevi-lhes o que encontrara e acrescentei que o paraíso não existia.
Devastados, alguns largaram a parede de terra e deixaram-se cair. Mas a maioria desceu lentamente, demasiado desiludida para expressar sequer o seu sofrimento. Resignados, deixaram o túnel e regressaram cabisbaixos ao limbo.
Quando já todos haviam partido, eu sentei-me ao lado dos homens, para descansar e chorar.
Foi então que um deles se levantou, passou por mim, e, a um canto da parede cinzenta, abriu uma minúscula porta.
-Tu ficaste. - disse-me ele. -Por isso, podes ir para o Paraíso.
Parei imediatamente de chorar. De queixo caído, olhei por instantes para o homem, que segurava entre dois dedos a maçaneta da minúscula porta. Só então me apercebi que ele tinha um majestoso par de asas.
A culpa abateu-se sobre mim, alojando-se no meu peito sob a forma de um peso atroz e doloroso.
-Espera. -pedi ao anjo -Tenho de chamar os outros e explicar-lhes o que aconteceu.
-Não. - determinou o anjo. -Eles já não podem entrar.
-Então deixa-me chamar só o meu irmão. -roguei.
-Não. - insistiu o anjo.
-Porquê?
-Só pode entrar no paraíso quem tem fé nele.
-O meu irmão tinha fé! Eu tirei-lha!
Cansado de me ouvir, o anjo agarrou-me e enfiou-me à força no paraíso, enquanto eu me debatia e lhe gritava que estava a cometer uma terrível injustiça, porque, de todas as pessoas que subiam a parede, eu era de todas elas a que menos fé tivera, chegando mesmo a tirar-lhes a deles.
Ele fingiu que não me ouviu, e fechou a porta atrás de mim.
Tentei abri-la novamente, mas ela não cedeu nem um pouco. Mas não ia desistir: estava determinada a avisar o meu irmão do erro que cometera e que o condenara. De alguma maneira, eu trá-lo-ia para ao pé de mim.
Olhei à minha volta. Ao distinguir algumas grandes cabines telefónicas, de um azul berrante, tentei contactar o meu irmão. Mas era escusado: aqueles telefones só recebiam chamadas. Tentei, de seguida, enviar-lhe um e-mail através de umas máquinas muito semelhantes a caixas multibanco. Mas, tal como os telefones, estas máquinas podiam apenas receber mensagens, e nunca enviá-las.
Procurei uma saída do Paraíso. Uma porta, uma janela, um buraco; o que quer que fosse. Se encontrasse uma maneira de sair sem que o anjo me visse, poderia procurar o meu irmão e depois regressar com ele. Mas a única maneira de entrar no paraíso era através daquela minúscula porta (tão feia) e, depois de lá se estar, era impossível sair.
É claro que a minha obstinação não passou despercebida ao anjo. Chegámos a sentar-nos lado a lado e ele ouviu-me desabafar e chorar durante horas a fio, ao longo de vários dias.
Quando finalmente desisti de encontrar uma maneira de contactar o meu irmão, ou de fugir do paraíso para o ir procurar, fui ao encontro do anjo, de quem me tornara amiga, e pedi-lhe que, ao menos, me deixasse regressar ao limbo para ficar com o Tomás.
Comovido pelo meu amor e determinação, o anjo acedeu a ir ele próprio buscar o meu irmão.
Não houve, na narração deste sonho, espaço para uma descrição do paraíso. A verdade é que era parecidíssimo com a Avenue Louise, de Bruxelas. Mas não se viam carros em lado nenhum, e crescia um pouco de erva por todo o lado.
sábado, 28 de janeiro de 2012
Shhhhh!
Hoje sonhei que estava num grande edifício de paredes cinzentas, juntamente com um grupo de jovens e crianças. Parecia que por todo o lado havia cozinhas e cozinheiros.
Ao redor deste edifício, existia uma plantação de milho, tão vasta que, não importa em que direcção se olhasse, era a única coisa que se via até ao horizonte.
Nós queríamos ir passear nessa plantação.
Descontraidamente, lá fomos nós.
Quando já lá estávamos, lembrei-me de qualquer coisa que devia ter trazido comigo. Voltei atrás para a ir buscar.
Lembro-me que para o fazer, tive de saltar para um fosso, com uns três metros de profundidade. Descalcei-me antes de fazê-lo, e, no ar, pensei como fora estúpida: ia certamente partir os pezinhos todos. Se fosse só isso que eu partisse.
Para minha surpresa, não senti dor nenhuma, e num instante me pus de pé e desatei a correr em direcção ao edifício.
A caminho de uma das cozinhas, reparei num estranho elevador. Sempre que ele subia, havia abaixo dele um outro elevador pendurado, e, por baixo desse elevador, um grande cilindro de vidro cheio de água imunda, onde um homem estava amarrado. Cheia de medo, e preocupada com o homem, aproximei-me. Nesse instante, ele emergiu, enchendo os pulmões de ar.
-Meu deus! -exclamei eu.
Ele era jovem, tinha o cabelo curto e espetado, e uma barba de vários de dias por fazer. O pêlo negro contrastava com a pele branca. Não me lembro do que ele me disse, mas estava desesperado.
Ouvi então um outro homem aproximar-se. Era baixo e gordo: a barriga opulenta quase fazia saltar os botões da camisola vermelha de xadrez. O que restava do seu cabelo negro rodeava, como se uma auréola se tratasse, uma reluzente careca no cimo do seu crânio. Um bigode muito feio é do que lembro melhor da sua cara bochechuda.
Recuei vários passos, dizendo:
-Eu não conto a ninguém! Prometo!
-Não vais a lado nenhum.
-Eu não conto a ninguém! - insisti, fazendo cara de menina ingénua e indefesa.
-Está bem... -cedeu o homem, movido pela minha patética expressão. - Mas dá-me a tua mão.
-P-para quê?
-Não sais daqui sem um aviso, pelo menos. - disse ele, segurando uma faca.
"Ele vai cortar-me a mão!"
-Não conto a ninguém, já disse!
-É só um cortezinho...
-Não confio em si.
-Um cortezinho, vá lá... - ele falava como se fosse um médico a consolar uma criança prestes a ser vacinada.
A tremer, deixei que ele pegasse na minha mão direita e fizesse um pequeno corte na palma. Assim que ele me largou, desatei a correr, a pensar se devia ou não contar a alguém o que acontecera.
Aquele pobre homem estava a ser torturado, e se eu não fizesse nada, dentro de pouco tempo talvez estivesse morto. Eu era a sua única esperança.
Mas quais seriam as consequências para mim?
E se fosse eu no lugar dele?
Será que ele me ajudaria ou não?
-Mãe, mãe, tenho de falar contigo! - choraminguei, assim que encontrei a minha mãe.
Num sítio isolado, contei-lhe o que se passara. Ela insistiu para que eu mantivesse a promessa que fizera, mas eu sentia-me esmagada pela culpa.
Não sei que decisão acabei por tomar.
Ao redor deste edifício, existia uma plantação de milho, tão vasta que, não importa em que direcção se olhasse, era a única coisa que se via até ao horizonte.
Nós queríamos ir passear nessa plantação.
Descontraidamente, lá fomos nós.
Quando já lá estávamos, lembrei-me de qualquer coisa que devia ter trazido comigo. Voltei atrás para a ir buscar.
Lembro-me que para o fazer, tive de saltar para um fosso, com uns três metros de profundidade. Descalcei-me antes de fazê-lo, e, no ar, pensei como fora estúpida: ia certamente partir os pezinhos todos. Se fosse só isso que eu partisse.
Para minha surpresa, não senti dor nenhuma, e num instante me pus de pé e desatei a correr em direcção ao edifício.
A caminho de uma das cozinhas, reparei num estranho elevador. Sempre que ele subia, havia abaixo dele um outro elevador pendurado, e, por baixo desse elevador, um grande cilindro de vidro cheio de água imunda, onde um homem estava amarrado. Cheia de medo, e preocupada com o homem, aproximei-me. Nesse instante, ele emergiu, enchendo os pulmões de ar.
-Meu deus! -exclamei eu.
Ele era jovem, tinha o cabelo curto e espetado, e uma barba de vários de dias por fazer. O pêlo negro contrastava com a pele branca. Não me lembro do que ele me disse, mas estava desesperado.
Ouvi então um outro homem aproximar-se. Era baixo e gordo: a barriga opulenta quase fazia saltar os botões da camisola vermelha de xadrez. O que restava do seu cabelo negro rodeava, como se uma auréola se tratasse, uma reluzente careca no cimo do seu crânio. Um bigode muito feio é do que lembro melhor da sua cara bochechuda.
Recuei vários passos, dizendo:
-Eu não conto a ninguém! Prometo!
-Não vais a lado nenhum.
-Eu não conto a ninguém! - insisti, fazendo cara de menina ingénua e indefesa.
-Está bem... -cedeu o homem, movido pela minha patética expressão. - Mas dá-me a tua mão.
-P-para quê?
-Não sais daqui sem um aviso, pelo menos. - disse ele, segurando uma faca.
"Ele vai cortar-me a mão!"
-Não conto a ninguém, já disse!
-É só um cortezinho...
-Não confio em si.
-Um cortezinho, vá lá... - ele falava como se fosse um médico a consolar uma criança prestes a ser vacinada.
A tremer, deixei que ele pegasse na minha mão direita e fizesse um pequeno corte na palma. Assim que ele me largou, desatei a correr, a pensar se devia ou não contar a alguém o que acontecera.
Aquele pobre homem estava a ser torturado, e se eu não fizesse nada, dentro de pouco tempo talvez estivesse morto. Eu era a sua única esperança.
Mas quais seriam as consequências para mim?
E se fosse eu no lugar dele?
Será que ele me ajudaria ou não?
-Mãe, mãe, tenho de falar contigo! - choraminguei, assim que encontrei a minha mãe.
Num sítio isolado, contei-lhe o que se passara. Ela insistiu para que eu mantivesse a promessa que fizera, mas eu sentia-me esmagada pela culpa.
Não sei que decisão acabei por tomar.
Presa
Já não me lembro quando tive estes sonhos. Acho que foi nas férias de Natal...
Foram dois sonhos: um filme, e a respectiva sequela. Eu era a protagonista, e, ao mesmo tempo a narradora. Só que, ao contrário do que normalmente sucede nestes casos, eu era uma narradora ausente e omnisciente, e, ao mesmo tempo, a personagem principal. A história não se tratava de uma recordação, ou qualquer outro relato feito em retrospectiva. Eu era, literalmente, duas entidades diferentes ao mesmo tempo.
Estava presa, juntamente com outros colegas, num edifício gigantesco. Uma mistura bizarra da antiga António Arroio, Belas-Artes, e algo mais... É difícil definir o terceiro elemento. Podia ser um armazém, ou as escadas de metal a que a oficina dos meus avós paternos ia dar, rodeadas de altíssimas paredes cinzentas e feias, ou então o estranho cenário de um antigo concurso de televisão, em que três concorrentes tinham de roubar três malas carregadas de dinheiro. No fim, só um ficava com o dinheiro.
Aquele lugar onde estávamos era macabro, bizarro, digno de um filme de terror. Parecia estar abandonado há muito tempo. Tudo era ferrugento, frágil e instável. Estava sempre escuro; ainda assim, uma constante e fraca luz de um tom verde doentio pairava sobre todas as divisões, sem que se conseguisse perceber qual era a sua origem.
Era muito fácil perder-mo-nos: o edifício era um labirinto em constante mudança. Era impossível voltar a encontrar um sítio depois de lhe voltarmos as costas.
De vez em quando cruzáva-mo-nos com zombies, mas desde que fossemos cuidadosos, nunca eram suficientes para serem perigosos.
Das poucas pessoas que estavam comigo, só me lembro de uma: a Rafaela. Trata-se de umca colega baixinha, de cara redonda acentuada pelo cabelo cortado com franja.
Ao passarmos por uma porta metálica, com uma janela de vidro (daqueles apenas semi-transparentes, e que distorcem as formas) vimos pendurado na maçaneta um papel escrito À pressa que dizia: "não abrir porta, zombie de aluna".
-Coitada! - exclamou Rafaela - Ninguém devia ficar preso para sempre!
-Aquela coisa não é uma pessoa. - disse-lhe eu - Vamos embora.
-Mas já foi. Temos de a soltar!
-Rafaela, não!
Tarde de mais. Rafaela abriu a porta, e, no instante seguinte, apareceu uma carcaça putrefacta que só com alguma dificuldade se poderia identificar como um cadáver de um ser humano. O monstro quase correu para nós, com aquilo que em tempos tinham sido os seus braços esticados na nossa direcção.
A compaixão de Rafaela desapareceu, e, tomada de medo, ela empurrou-me contra a parede do estreito corredor para conseguir passar e fugir. Estava nas minhas mãos voltar a fechar a porta.
O monstro já estava muito próximo, pelo que tive de recuar. Mas, como se se tratasse de um número de magia, o corredor estava agora mais longo, e passados alguns metros vi que tinha acabado de passar por uma segunda porta. Fechei-a, e tentei com dedos trémulos trancá-la. Não foi fácil, porque do outro lado a morta ora batia na porta ora puxava a fechadura, com muito mais força do que eu esperava que ela tivesse. Temi que ela conseguisse partir o vidro e me alcançasse.
Felizmente, consegui trancar a porta e escapar ilesa.
Depois disto só me lembro de estar num local semelhante a um laboratório de fotografia, cheio de prateleiras de químicos, e outros materiais necessários a essa arte. Um zombie, gordo e com uma camisola de xadrez, deambulava no pequeno espaço.
A chave para sair do edifício estava dentro dele.
Silenciosamente, para que ele não se apercebesse da minha presença, agarrei uma das garrafas de químicos e despejei-lha em cima.
Ninguém usa ácidos num laboratório de fotografia, pelo menos ninguém que eu conheça. Mas o monstro gritou de dor e uivou como um louco, ao mesmo tempo que o seu abdómen gorduroso era corroído pelo liquido. Não consigo perceber o motivo do que fez a seguir. Agarrou uma longa e fina serra (cujo lugar mais apropriado seria uma oficina de carpintaria e não aquele onde se encontrava) e começou a cortar-se aos bocados.
Tanto se cortou que acabou por cair morto no chão, numa grande poça do seu próprio sangue, carne, gordura e ossos.
Demasiado desesperada para ter nojo ou medo, aproximei-me, remexi o que restava da criatura, e quando por fim encontrei uma chave imunda agarrei-a com prazer e voltei para junto dos meus companheiros.
Não me lembro do final do sonho, mas acho que escapámos.
Na sequela do filme, ou seja, no segundo sonho, eu era uma professora naquele mesmo edifício. Estava a descer umas longuíssimas escadas em caracol. Eram de pedra. Mármore branco, penso. As paredes eram espaçosas, pintadas em tom de creme, com discretos brilhantes. Apesar de irregulares, eram macias: tal e qual como as paredes do prédio onde vivo, em Massamá. Não havia janelas, e eu não sabia há quanto tempo estava a descer as escadas, nem por quanto tempo teria de continuar.
Seguia-me uma multidão de alunos. Não sei se eram zombies ou fantasmas, ou qualquer outro tipo de monstros. Sei, no entanto, que não podiam fazer-me mal até ao momento em que eu demonstrasse que sabia que estava em perigo, ou até aceder a ir onde eles me queriam levar.
Eles falavam-me carinhosamente, convidando-me a acompanhá-los. Eu tinha de saber recusar os convites com gentileza. Eles fartavam-se de me fazer perguntas, e eu mentia-lhes com habilidade, certificando-me de que a teia que tecia era uniforme.
Estava cheia de medo. Mas não podia demonstrá-lo. Tinha os nervos em franja, e os meus dedos e as minhas pernas tremiam. Mas tinha de me comportar com calma e elegância, por isso cerrava as mãos em punhos e punha cuidadosamente um pé à frente do outro.
Quando vi a porta de saída nem quis acreditar. Mas não podia correr. Sempre devagar, caminhei para a porta, despedi-me deles, e saí.
Foram dois sonhos: um filme, e a respectiva sequela. Eu era a protagonista, e, ao mesmo tempo a narradora. Só que, ao contrário do que normalmente sucede nestes casos, eu era uma narradora ausente e omnisciente, e, ao mesmo tempo, a personagem principal. A história não se tratava de uma recordação, ou qualquer outro relato feito em retrospectiva. Eu era, literalmente, duas entidades diferentes ao mesmo tempo.
Estava presa, juntamente com outros colegas, num edifício gigantesco. Uma mistura bizarra da antiga António Arroio, Belas-Artes, e algo mais... É difícil definir o terceiro elemento. Podia ser um armazém, ou as escadas de metal a que a oficina dos meus avós paternos ia dar, rodeadas de altíssimas paredes cinzentas e feias, ou então o estranho cenário de um antigo concurso de televisão, em que três concorrentes tinham de roubar três malas carregadas de dinheiro. No fim, só um ficava com o dinheiro.
Aquele lugar onde estávamos era macabro, bizarro, digno de um filme de terror. Parecia estar abandonado há muito tempo. Tudo era ferrugento, frágil e instável. Estava sempre escuro; ainda assim, uma constante e fraca luz de um tom verde doentio pairava sobre todas as divisões, sem que se conseguisse perceber qual era a sua origem.
Era muito fácil perder-mo-nos: o edifício era um labirinto em constante mudança. Era impossível voltar a encontrar um sítio depois de lhe voltarmos as costas.
De vez em quando cruzáva-mo-nos com zombies, mas desde que fossemos cuidadosos, nunca eram suficientes para serem perigosos.
Das poucas pessoas que estavam comigo, só me lembro de uma: a Rafaela. Trata-se de umca colega baixinha, de cara redonda acentuada pelo cabelo cortado com franja.
Ao passarmos por uma porta metálica, com uma janela de vidro (daqueles apenas semi-transparentes, e que distorcem as formas) vimos pendurado na maçaneta um papel escrito À pressa que dizia: "não abrir porta, zombie de aluna".
-Coitada! - exclamou Rafaela - Ninguém devia ficar preso para sempre!
-Aquela coisa não é uma pessoa. - disse-lhe eu - Vamos embora.
-Mas já foi. Temos de a soltar!
-Rafaela, não!
Tarde de mais. Rafaela abriu a porta, e, no instante seguinte, apareceu uma carcaça putrefacta que só com alguma dificuldade se poderia identificar como um cadáver de um ser humano. O monstro quase correu para nós, com aquilo que em tempos tinham sido os seus braços esticados na nossa direcção.
A compaixão de Rafaela desapareceu, e, tomada de medo, ela empurrou-me contra a parede do estreito corredor para conseguir passar e fugir. Estava nas minhas mãos voltar a fechar a porta.
O monstro já estava muito próximo, pelo que tive de recuar. Mas, como se se tratasse de um número de magia, o corredor estava agora mais longo, e passados alguns metros vi que tinha acabado de passar por uma segunda porta. Fechei-a, e tentei com dedos trémulos trancá-la. Não foi fácil, porque do outro lado a morta ora batia na porta ora puxava a fechadura, com muito mais força do que eu esperava que ela tivesse. Temi que ela conseguisse partir o vidro e me alcançasse.
Felizmente, consegui trancar a porta e escapar ilesa.
Depois disto só me lembro de estar num local semelhante a um laboratório de fotografia, cheio de prateleiras de químicos, e outros materiais necessários a essa arte. Um zombie, gordo e com uma camisola de xadrez, deambulava no pequeno espaço.
A chave para sair do edifício estava dentro dele.
Silenciosamente, para que ele não se apercebesse da minha presença, agarrei uma das garrafas de químicos e despejei-lha em cima.
Ninguém usa ácidos num laboratório de fotografia, pelo menos ninguém que eu conheça. Mas o monstro gritou de dor e uivou como um louco, ao mesmo tempo que o seu abdómen gorduroso era corroído pelo liquido. Não consigo perceber o motivo do que fez a seguir. Agarrou uma longa e fina serra (cujo lugar mais apropriado seria uma oficina de carpintaria e não aquele onde se encontrava) e começou a cortar-se aos bocados.
Tanto se cortou que acabou por cair morto no chão, numa grande poça do seu próprio sangue, carne, gordura e ossos.
Demasiado desesperada para ter nojo ou medo, aproximei-me, remexi o que restava da criatura, e quando por fim encontrei uma chave imunda agarrei-a com prazer e voltei para junto dos meus companheiros.
Não me lembro do final do sonho, mas acho que escapámos.
Na sequela do filme, ou seja, no segundo sonho, eu era uma professora naquele mesmo edifício. Estava a descer umas longuíssimas escadas em caracol. Eram de pedra. Mármore branco, penso. As paredes eram espaçosas, pintadas em tom de creme, com discretos brilhantes. Apesar de irregulares, eram macias: tal e qual como as paredes do prédio onde vivo, em Massamá. Não havia janelas, e eu não sabia há quanto tempo estava a descer as escadas, nem por quanto tempo teria de continuar.
Seguia-me uma multidão de alunos. Não sei se eram zombies ou fantasmas, ou qualquer outro tipo de monstros. Sei, no entanto, que não podiam fazer-me mal até ao momento em que eu demonstrasse que sabia que estava em perigo, ou até aceder a ir onde eles me queriam levar.
Eles falavam-me carinhosamente, convidando-me a acompanhá-los. Eu tinha de saber recusar os convites com gentileza. Eles fartavam-se de me fazer perguntas, e eu mentia-lhes com habilidade, certificando-me de que a teia que tecia era uniforme.
Estava cheia de medo. Mas não podia demonstrá-lo. Tinha os nervos em franja, e os meus dedos e as minhas pernas tremiam. Mas tinha de me comportar com calma e elegância, por isso cerrava as mãos em punhos e punha cuidadosamente um pé à frente do outro.
Quando vi a porta de saída nem quis acreditar. Mas não podia correr. Sempre devagar, caminhei para a porta, despedi-me deles, e saí.
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Os zombies também têm sentimentos!
Lembro-me de muito pouco deste sonho. Resumindo, a minha mãe tinha dado guarida a um grupo de zombies e fazia todos os possíveis para (re)inseri-los na sociedade, argumentando que os zombies também tinham sentimentos, e ficavam tristes por serem rejeitados.
Segundo ela dizia, eles eram inofensivos, ao contrário do que as histórias contam. Convivia com eles uma boa parte do dia, e estava empenhada em ensinar-lhes danças de salão (que ela própria não sabe).
Estava também decidida a apresentá-los a mim e ao meu irmão, insistindo que tentássemos conversar com eles (apesar de eles não serem capazes de responder). Naturalmente, eu desatava a correr assim que via um daqueles cadáveres ambulantes a arrastar-se na minha direcção. Isso enfurecia tanto a minha mãe como os mortos, e enquanto me afastava eu conseguia ouvi-la a ela a gritar para que eu voltasse e a eles a grunhir incongruências.
A certa altura, um zombie com um grande chapéu de palha enfeitado com flores tentou aproximar-se de mim. Incapaz de soltar sequer um grito, afastei-me com um salto ágil e caí, rolando no chão. Entretanto, o monstro, que tinha ficado muito ofendido, começou a perseguir-me com os braços esticados.
Levantei-me e corri o mais depressa que podia em direcção aos canis. No caminho, agarrei o meu irmão pelo pulso da camisola e ordenei-lhe que viesse comigo.
Fechá-mo-nos atrás das grades e vimos, de olhos arregalados, vários mortos a avançarem em direcção do canil, furiosos.
-Carolina! Tomás! - vociferou a minha mãe - Saiam já daí e peçam desculpa!
Segundo ela dizia, eles eram inofensivos, ao contrário do que as histórias contam. Convivia com eles uma boa parte do dia, e estava empenhada em ensinar-lhes danças de salão (que ela própria não sabe).
Estava também decidida a apresentá-los a mim e ao meu irmão, insistindo que tentássemos conversar com eles (apesar de eles não serem capazes de responder). Naturalmente, eu desatava a correr assim que via um daqueles cadáveres ambulantes a arrastar-se na minha direcção. Isso enfurecia tanto a minha mãe como os mortos, e enquanto me afastava eu conseguia ouvi-la a ela a gritar para que eu voltasse e a eles a grunhir incongruências.
A certa altura, um zombie com um grande chapéu de palha enfeitado com flores tentou aproximar-se de mim. Incapaz de soltar sequer um grito, afastei-me com um salto ágil e caí, rolando no chão. Entretanto, o monstro, que tinha ficado muito ofendido, começou a perseguir-me com os braços esticados.
Levantei-me e corri o mais depressa que podia em direcção aos canis. No caminho, agarrei o meu irmão pelo pulso da camisola e ordenei-lhe que viesse comigo.
Fechá-mo-nos atrás das grades e vimos, de olhos arregalados, vários mortos a avançarem em direcção do canil, furiosos.
-Carolina! Tomás! - vociferou a minha mãe - Saiam já daí e peçam desculpa!
terça-feira, 23 de agosto de 2011
O que estamos dispostos a fazer para conseguir uma casa em tempos de crise...
Esta noite, vi-me a mim e à minha família a visitar a casa-museu de um famoso realizador de filmes de terror, que, fascinado pela sua arte, transformara o seu lar num verdadeiro cenário de filmes de terror clássicos.
As paredes altíssimas eram feitas de grande blocos de pedra cinzenta, e, se bem me lembro, em certas divisões não havia tecto: olhando para cima, conseguíamos ver o céu, coberto de espessas nuvens cinzentas. Não se viam janelas, e os candelabros estavam todos apagados e envoltos em teias de aranha. Uma luz pálida, quase gélida, entrava através das divisões sem tecto ou de minúsculos buracos nas paredes. O chão era umas vezes de madeira, outras de pedra, mas sempre frio como um morto.
Era difícil acreditar que um dia alguém tinha habitado aquela casa.
Ao entrarmos, passámos sob um colossal arco lanceolado,e deparámos-nos com um poço tão fundo que, ao olharmos para baixo, víamos apenas escuridão. Dir-se-ia que ia dar ao próprio inferno.
A única maneira de transpor aquele vazio era atravessá-lo sobre portões metálicos constituídos por finíssimas barras que se cruzavam vertical e horizontalmente. Estas plataformas estavam em constante movimento, deslocando-se ao longo de várias e longas divisões, sobrepondo-se umas às outras, afastando-se subitamente, e repletas de armadilhas escondidas. A qualquer momento, podíamos cair no abismo negro que estava sob os nossos pés.
Felizmente, conseguíamos chegar em segurança a uma sala ampla, da qual apenas uma parede permanecia inteira: nela, havia quatro ou cinco janelas lanceoladas, tão altas e esguias que ocupavam a parede desde o chão ao tecto. Tratavam-se de vitrais coloridos em tons de roxos e azuis. Não havia tecto na sala... Lembro-me que sobre ela o céu era lilás, e, por detrás de algumas nuvens, viam-se uma ou duas estrelas, que irradiavam uma luz muito fraca.
Diante da janela, havia uma elaborada (e, honestamente, pirosa) estátua de uma raposa branca ou um arminho. Diante dela, havia um cálice com o que à primeira vista poderiam parecer pauzinhos queimados, e uma inscrição com instruções deixadas pelo falecido dono da casa. Segundo a inscrição, o seu espírito continuava a divagar pelas paredes da casa, sob a forma de um fantasma de uma raposa branca ou de um arminho. ISto era possível apenas devido à estátua que tínhamos diante dos nossos olhos. Estava também escrito que o espírito estava disposto a deixar a sua casa ao fã que lhe escrevesse a carta mais comovente de todas. O seu único desejo era que não mudassem em nada o aspecto da casa nem destruíssem a sua estátua.
"Está bem, está..." pensei "Se fosse eu, era a primeira coisa que ia à vida".
Depois, porém, pus-me a pensar... Eu precisava de uma casa, e, apesar de tudo, esta era de borla. Decidi tentar a minha sorte. Inclinei-me sobre o cálice, para perceber se era lá que os fãs deixavam as suas cartas, e constatei que aqueles poucos pauzinhos queimados eram na verdade pequenos rolos de pergaminho.
Nesse momento, o fantasma do antigo proprietário apareceu diante de mim. Parecia feito de fumo: a sua forma alterava-se constantemente, e era difícil perceber se tinha se seria azul ou branco. Os seus olhos ora pareciam vazios, ora imensamente tristes. Ao afastar-me, reparei que havia no cachaço do bicho um grande buraco negro, à volta do qual o pêlo estava manchado de sangue escuro. Era o buraco deixado pela bala que tinha morto o homem.
Estava cheia de medo, mas, enquanto me afastava, consegui reunir coragem suficiente para me voltar para trás, piscar o olho ao espírito e dizer:
-Eu vejo-te depois, ok? Trago-te a minha carta daqui a uns dias.
Ele olhou para mim com uma expressão vaga, depois desapareceu.
Voltar a sair daquela casa sombria foi muito mais complicado do que entrar. Quando tornei a aproximar-me das plataformas, gritei de medo, como se fosse incapaz de as atravessar. Quando me ouviu, um homem que já estava muito à minha frente correu para trás para me ajudar. Tinha uma grande "afro", era judeu, e suponho que se tratasse de um grande amigo de Zé Oliveira, namorado de uma tia minha.
-Não! Eu consigo! - gritei, quando percebi quais eram as suas intenções. Senti-me mal por fazê-lo arriscar a sua vida. Mas nada o deteve: aproximou-se de mim, deu-me a mão, e começou a andar comigo atrás dele, segurando sempre as suas duas mãos.
-Não pensem! - recomendou a minha mãe, já longe. - É preciso não pensar!
Depois de ela dizer isto resolvi seguir o meu instinto, e realmente tudo me pareceu mais fácil, até perceber que caminhávamos com os pés esquerdos e direitos em plataformas diferente, que aos poucos se iam afastando uma da outra.
-Oh meu Deus! Oh meus Deus! - murmurava eu, ao ver que não conseguia saltar para nenhuma das duas plataformas sem cair no abismo.
Para piorar a situação, eu e o meu companheiro apercebe-mo-nos de que Zé Oliveira se encontrava na mesma situação, pouco adiante. Só que estava imóvel, enquanto que nós éramos rapidamente impelidos na sua direcção.
O momento seguinte parecia uma cena retirada de um filme animado: o meu companheiro caíra e eu agarrara-o pelos braços, e Zé Oliveira, que caíra também, agarrara-se desesperadamente às suas pernas. Entretanto, eu estava prestes a fazer a espargata.
Tinha de me livrar o mais depressa possível daquele peso ou acabaríamos por mergulhar os três na escuridão.
Reuni todas as minhas forças (que na realidade são nenhumas)e consegui atirar os dois homens para uma plataforma onde estariam seguros. Os dois agradeceram-me, e comecei a ouvir aplausos ao meu lado: quatro membros de uma equipa de football americano (se bem que muito pouco robustos) aplaudiam a minha proeza, confortavelmente sentados em cadeiras de plástico montadas na plataforma metálica à minha direita.
Conseguimos sair sãos e salvos da casa, mas não sem que antes o Zé Olveira esbarrasse contra uma mesa onde estava servido um banquete sumptuoso, e tivesse que arrancar um garfo que tinha ficado espetado na sua perna esquerda após o acidente.
As paredes altíssimas eram feitas de grande blocos de pedra cinzenta, e, se bem me lembro, em certas divisões não havia tecto: olhando para cima, conseguíamos ver o céu, coberto de espessas nuvens cinzentas. Não se viam janelas, e os candelabros estavam todos apagados e envoltos em teias de aranha. Uma luz pálida, quase gélida, entrava através das divisões sem tecto ou de minúsculos buracos nas paredes. O chão era umas vezes de madeira, outras de pedra, mas sempre frio como um morto.
Era difícil acreditar que um dia alguém tinha habitado aquela casa.
Ao entrarmos, passámos sob um colossal arco lanceolado,e deparámos-nos com um poço tão fundo que, ao olharmos para baixo, víamos apenas escuridão. Dir-se-ia que ia dar ao próprio inferno.
A única maneira de transpor aquele vazio era atravessá-lo sobre portões metálicos constituídos por finíssimas barras que se cruzavam vertical e horizontalmente. Estas plataformas estavam em constante movimento, deslocando-se ao longo de várias e longas divisões, sobrepondo-se umas às outras, afastando-se subitamente, e repletas de armadilhas escondidas. A qualquer momento, podíamos cair no abismo negro que estava sob os nossos pés.
Felizmente, conseguíamos chegar em segurança a uma sala ampla, da qual apenas uma parede permanecia inteira: nela, havia quatro ou cinco janelas lanceoladas, tão altas e esguias que ocupavam a parede desde o chão ao tecto. Tratavam-se de vitrais coloridos em tons de roxos e azuis. Não havia tecto na sala... Lembro-me que sobre ela o céu era lilás, e, por detrás de algumas nuvens, viam-se uma ou duas estrelas, que irradiavam uma luz muito fraca.
Diante da janela, havia uma elaborada (e, honestamente, pirosa) estátua de uma raposa branca ou um arminho. Diante dela, havia um cálice com o que à primeira vista poderiam parecer pauzinhos queimados, e uma inscrição com instruções deixadas pelo falecido dono da casa. Segundo a inscrição, o seu espírito continuava a divagar pelas paredes da casa, sob a forma de um fantasma de uma raposa branca ou de um arminho. ISto era possível apenas devido à estátua que tínhamos diante dos nossos olhos. Estava também escrito que o espírito estava disposto a deixar a sua casa ao fã que lhe escrevesse a carta mais comovente de todas. O seu único desejo era que não mudassem em nada o aspecto da casa nem destruíssem a sua estátua.
"Está bem, está..." pensei "Se fosse eu, era a primeira coisa que ia à vida".
Depois, porém, pus-me a pensar... Eu precisava de uma casa, e, apesar de tudo, esta era de borla. Decidi tentar a minha sorte. Inclinei-me sobre o cálice, para perceber se era lá que os fãs deixavam as suas cartas, e constatei que aqueles poucos pauzinhos queimados eram na verdade pequenos rolos de pergaminho.
Nesse momento, o fantasma do antigo proprietário apareceu diante de mim. Parecia feito de fumo: a sua forma alterava-se constantemente, e era difícil perceber se tinha se seria azul ou branco. Os seus olhos ora pareciam vazios, ora imensamente tristes. Ao afastar-me, reparei que havia no cachaço do bicho um grande buraco negro, à volta do qual o pêlo estava manchado de sangue escuro. Era o buraco deixado pela bala que tinha morto o homem.
Estava cheia de medo, mas, enquanto me afastava, consegui reunir coragem suficiente para me voltar para trás, piscar o olho ao espírito e dizer:
-Eu vejo-te depois, ok? Trago-te a minha carta daqui a uns dias.
Ele olhou para mim com uma expressão vaga, depois desapareceu.
Voltar a sair daquela casa sombria foi muito mais complicado do que entrar. Quando tornei a aproximar-me das plataformas, gritei de medo, como se fosse incapaz de as atravessar. Quando me ouviu, um homem que já estava muito à minha frente correu para trás para me ajudar. Tinha uma grande "afro", era judeu, e suponho que se tratasse de um grande amigo de Zé Oliveira, namorado de uma tia minha.
-Não! Eu consigo! - gritei, quando percebi quais eram as suas intenções. Senti-me mal por fazê-lo arriscar a sua vida. Mas nada o deteve: aproximou-se de mim, deu-me a mão, e começou a andar comigo atrás dele, segurando sempre as suas duas mãos.
-Não pensem! - recomendou a minha mãe, já longe. - É preciso não pensar!
Depois de ela dizer isto resolvi seguir o meu instinto, e realmente tudo me pareceu mais fácil, até perceber que caminhávamos com os pés esquerdos e direitos em plataformas diferente, que aos poucos se iam afastando uma da outra.
-Oh meu Deus! Oh meus Deus! - murmurava eu, ao ver que não conseguia saltar para nenhuma das duas plataformas sem cair no abismo.
Para piorar a situação, eu e o meu companheiro apercebe-mo-nos de que Zé Oliveira se encontrava na mesma situação, pouco adiante. Só que estava imóvel, enquanto que nós éramos rapidamente impelidos na sua direcção.
O momento seguinte parecia uma cena retirada de um filme animado: o meu companheiro caíra e eu agarrara-o pelos braços, e Zé Oliveira, que caíra também, agarrara-se desesperadamente às suas pernas. Entretanto, eu estava prestes a fazer a espargata.
Tinha de me livrar o mais depressa possível daquele peso ou acabaríamos por mergulhar os três na escuridão.
Reuni todas as minhas forças (que na realidade são nenhumas)e consegui atirar os dois homens para uma plataforma onde estariam seguros. Os dois agradeceram-me, e comecei a ouvir aplausos ao meu lado: quatro membros de uma equipa de football americano (se bem que muito pouco robustos) aplaudiam a minha proeza, confortavelmente sentados em cadeiras de plástico montadas na plataforma metálica à minha direita.
Conseguimos sair sãos e salvos da casa, mas não sem que antes o Zé Olveira esbarrasse contra uma mesa onde estava servido um banquete sumptuoso, e tivesse que arrancar um garfo que tinha ficado espetado na sua perna esquerda após o acidente.
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
Canibalismo e civilizações perdidas
Há já muito tempo que não escrevo... Hoje, contudo, o sonho que vou contar fez-me notar a minha falta: estava numa sala de cinema muito longa e estreita. Era clara, acho que toda branca, mas estava um pouco escuro. Por vezes, era difícil perceber se estávamos realmente entre quatro paredes ou ao ar livre.
Comigo, estavam o meu irmão e a minha prima Ana. O filme que estávamos a ver era muito mau, para além de dolorosamente aborrecido. Por isso, apesar de já nos terem repreendido algumas vezes, nós continuávamos a falar.
A dada altura, Ana revelou-nos que se tinha chateado com uma amiga sua: a Inês, com quem passei uns dias à pouco tempo:
-Mas ela teve o que merecia: a Patrícia comeu-a!
Fui sacudida por um arrepio tão gelado que me fez doer o corpo. A Patrícia é outra das amigas de Ana, com quem também estive este Verão.
-O quê? - murmurei, incrédula.
-A Patrícia comeu-a. Ela e mais algumas amigas dela. Foi bem-feita!
Quase deixei de ouvir Ana, durante algum tempo. Sentia-me tonta, e estava prestes a vomitar.
Entretanto, Ana continuava a tagarelar:
-Cortaram-na aos bocadinhos, guardaram a carne num frigorífico e foram comendo. É que a Patrícia faz parte de uma seita canibal qualquer, sabes? Se alguém chateia uma dela... pronto! Mas foi bem-feita, foi bem-feita...
Como é que era possível que a Ana fosse amiga de uma pessoa assim? Porque não tinha revelado isto a mais ninguém? Estaria com medo? E como é que era possível que a polícia nunca tivesse descoberto qualquer vestígio de um crime tão macabro:
-Onde é que elas escondem os ossos? - lembrei-me de perguntar.
A Ana assumiu uma expressão pensativa, e acabou por me dizer que não sabia.
-Mas agora eu tenho de ter cuidado com elas... - disse-me ela, num tom subitamente sério - É que eu e a Patrícia chateá-mo-nos, sabes?
Quando ela me contou isto, apeteceu-me desatar a chorar. O Tomás, por seu turno, ficou animadíssimo, comentando com a nossa prima como era empolgante ela fazer parte de semelhante drama.
Entretanto, eu fiquei tão nervosa que desatei a comer qualquer coisa e a falar, pelo que fui expulsa da sala. Lembro-me que na altura em que me expulsaram apareceu no ecrã um homem de aspecto rude, com uma palhinha na boca. Lembrou-me o Chuck Norris. Estava num campo aberto, cheio de capim.
Dei comigo numa imensa cidade greco-romana, que aos pouco uma equipa de arqueólogos ia escavando.
Tudo estava intacto: as esculturas, os edifícios... Mas era tudo de um branco imaculado: todas as pinturas de cores vivas tinham desaparecido.
Acabei por encontrar o meu professor de animação Zepe, que, juntamente com um um ou dois companheiros, explorava o achado.
Segui-os à distância (provavelmente com medo que o meu professor me perguntasse alguma em relação a um trabalho em atraso). Passei as mãos por um mosaico lindíssimo, feito de pequenas pedrinhas de um verde-jade, macias como seda.
Zepe acabou por se aperceber da minha presença e foi ao meu encontro. Revelou-me que uma escavação semelhante àquela estava naquele momento a ser feita no jardim da quinta onde moro.
Incrédula, fui a correr para casa.
Quando vi que a parte bonita do nosso jardim tinha desaparecido, e que no seu lugar havia um buracão colossal, pensei como o tio e a mãe ficariam aborrecidos.
Lá em baixo, a pelo menos 25 metros da superfície, uma antiga cidade greco-romana era redescoberta.
"Será que pediram permissão ao tio para escavar no jardim dele?" pensei "Será que lhe estão a pagar para estar aqui?".
Desci. Aquele achado era agora usado como uma espécie de parque temático: tal como em Óbidos se fazem feiras medievais, ali deparei-me com uma feira greco-romana. Muitas pessoas usavam togas.
Ao fim de algum tempo parei junto de uma banca onde se vendia fruta, construída sobre uma estrutura de madeira improvisada. Sentei-me junto a uma cesta e pus-me a comer frutos secos (que na realidade detesto).
De volta a casa, cruzei-me com o meu padrasto e disse-lhe:
-Tio! Já sabes que havia uma cidade greco-romana in-tei-ri-nha debaixo do jardim?!
-Oh! Mas isso via-se logo! - retorquiu ele. Deduzi que tivesse descoberto tal coisa através das irregularidades do terreno.
Comigo, estavam o meu irmão e a minha prima Ana. O filme que estávamos a ver era muito mau, para além de dolorosamente aborrecido. Por isso, apesar de já nos terem repreendido algumas vezes, nós continuávamos a falar.
A dada altura, Ana revelou-nos que se tinha chateado com uma amiga sua: a Inês, com quem passei uns dias à pouco tempo:
-Mas ela teve o que merecia: a Patrícia comeu-a!
Fui sacudida por um arrepio tão gelado que me fez doer o corpo. A Patrícia é outra das amigas de Ana, com quem também estive este Verão.
-O quê? - murmurei, incrédula.
-A Patrícia comeu-a. Ela e mais algumas amigas dela. Foi bem-feita!
Quase deixei de ouvir Ana, durante algum tempo. Sentia-me tonta, e estava prestes a vomitar.
Entretanto, Ana continuava a tagarelar:
-Cortaram-na aos bocadinhos, guardaram a carne num frigorífico e foram comendo. É que a Patrícia faz parte de uma seita canibal qualquer, sabes? Se alguém chateia uma dela... pronto! Mas foi bem-feita, foi bem-feita...
Como é que era possível que a Ana fosse amiga de uma pessoa assim? Porque não tinha revelado isto a mais ninguém? Estaria com medo? E como é que era possível que a polícia nunca tivesse descoberto qualquer vestígio de um crime tão macabro:
-Onde é que elas escondem os ossos? - lembrei-me de perguntar.
A Ana assumiu uma expressão pensativa, e acabou por me dizer que não sabia.
-Mas agora eu tenho de ter cuidado com elas... - disse-me ela, num tom subitamente sério - É que eu e a Patrícia chateá-mo-nos, sabes?
Quando ela me contou isto, apeteceu-me desatar a chorar. O Tomás, por seu turno, ficou animadíssimo, comentando com a nossa prima como era empolgante ela fazer parte de semelhante drama.
Entretanto, eu fiquei tão nervosa que desatei a comer qualquer coisa e a falar, pelo que fui expulsa da sala. Lembro-me que na altura em que me expulsaram apareceu no ecrã um homem de aspecto rude, com uma palhinha na boca. Lembrou-me o Chuck Norris. Estava num campo aberto, cheio de capim.
Dei comigo numa imensa cidade greco-romana, que aos pouco uma equipa de arqueólogos ia escavando.
Tudo estava intacto: as esculturas, os edifícios... Mas era tudo de um branco imaculado: todas as pinturas de cores vivas tinham desaparecido.
Acabei por encontrar o meu professor de animação Zepe, que, juntamente com um um ou dois companheiros, explorava o achado.
Segui-os à distância (provavelmente com medo que o meu professor me perguntasse alguma em relação a um trabalho em atraso). Passei as mãos por um mosaico lindíssimo, feito de pequenas pedrinhas de um verde-jade, macias como seda.
Zepe acabou por se aperceber da minha presença e foi ao meu encontro. Revelou-me que uma escavação semelhante àquela estava naquele momento a ser feita no jardim da quinta onde moro.
Incrédula, fui a correr para casa.
Quando vi que a parte bonita do nosso jardim tinha desaparecido, e que no seu lugar havia um buracão colossal, pensei como o tio e a mãe ficariam aborrecidos.
Lá em baixo, a pelo menos 25 metros da superfície, uma antiga cidade greco-romana era redescoberta.
"Será que pediram permissão ao tio para escavar no jardim dele?" pensei "Será que lhe estão a pagar para estar aqui?".
Desci. Aquele achado era agora usado como uma espécie de parque temático: tal como em Óbidos se fazem feiras medievais, ali deparei-me com uma feira greco-romana. Muitas pessoas usavam togas.
Ao fim de algum tempo parei junto de uma banca onde se vendia fruta, construída sobre uma estrutura de madeira improvisada. Sentei-me junto a uma cesta e pus-me a comer frutos secos (que na realidade detesto).
De volta a casa, cruzei-me com o meu padrasto e disse-lhe:
-Tio! Já sabes que havia uma cidade greco-romana in-tei-ri-nha debaixo do jardim?!
-Oh! Mas isso via-se logo! - retorquiu ele. Deduzi que tivesse descoberto tal coisa através das irregularidades do terreno.
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