quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Casa mágica

Hoje sonhei que trabalhava numa bonita casa mágica. Tinha um aspecto barroco, com uma decoração exagerada e elaborada, para além demasiado colorida. Era bonita.
Eu vendia bilhetes para a atracção. Lembro-me de ter muitos problemas com o dinheiro: nas mãos dos clientes, eram euros, mas assim que passavam para as minhas, as moedas transformavam-se, e em vez dos conhecidos números e desenhos, apareciam corujas, retratos de velhas senhoras... Era dinheiro mágico. Eu não sabia contá-lo, por isso recusei-me a vender entradas as dois jovens até encontrar um colega capaz de o fazer.
Eles não fizeram caso: entraram à força, e desapareceram a correr pelos corredores. A voar, eu precipitei-me atrás deles: eu não podia pisar o chão daquela casa. Para mim, e para todo o pessoal mágico que lá trabalhava, o chão era como água. Podíamos mergulhar e nadar nele, vendo os clientes caminharem sobre a superfície. Felizmente não aconteceu, mas sei que se alguém fizesse um encantamento para solidificar o chão, todas as pessoas que estivessem a nadar morreriam esmagadas ou entaladas entre a madeira.
Eu voava como sempre voo nos meus sonhos. Normalmente, a estava agarrada a um poste, ou no topo de um móvel. Depois, lançava-me na direcção do vazio, empurrando com as pernas o poste ou o móvel. Para me manter no ar, limitava-me a ondular o corpo, como se nadasse. Por vezes, tinha de empurrar as paredes para me virar na direcção certa.
Acabei por encontrar os dois fugitivos, bem como um colega capaz de contar o dinheiro mágico. Demos-lhes os devidos bilhetes, e deixá-mo-los continuar a visita em paz.

a última moda

Há já uma noites, sonhei que via uma fotografia de uma modelo: ela tinha cortado a metade inferior das orelhas. Num repente, tudo quanto era mulher estava a fazer o mesmo. 
Eu decidi experimentar também. Como não podia pagar para o fazer numa loja como deve de ser, fi-lo eu própria, na casa de banho da minha casa. Sem anestesia, sem limpar a tesoura, em suma, sem cuidados nenhuns, encostei a lâmina à cartilagem e cortei. Para minha surpresa, a orelha rasgou-se com tanta facilidade quanto papel, e o corte não foi perfeito. Alarmada, inclinei-me de encontro ao espelho para avaliar os danos. Concluí que não eram assim tão maus, e sob o cabelo até passariam despercebidos. 
Com todo o cuidado, cortei a pele que ainda prendia a orelha ao crânio. 
Olhei o pedaço que eu cortara e deitei-o fora. 
Apesar de não ter sentido dor nem ter sangrado, uma vez que o corte não fora perfeito achei que o melhor seria não cortar a orelha direita também. 
Mais tarde arrependi-me de ter cortado a esquerda. Quase chorei ao pensar que aquela mutilação era definitiva: a minha orelha não ia crescer outra vez, encontrar um dador era impossível, já que as orelhas são tão únicas quanto as impressões digitais, e uma prótese seria demasiado cara. 
Mas o que mais me inquietava era a reacção da minha mãe quando descobrisse. 
Ao contrário do que eu esperava, ela gostou. 

Quando acordei, agarrei as orelhas entre o polegar e o indicador e sorri. 

Para sobreviver, qualquer coisa

Acho que se tratava de um programa de televisão...
Estávamos no ultimo andar de um prédio rodeado por um vasto jardim, e o nosso objectivo era escapar vivos: entre as paredes brancas, e entre as plantas grandes e coloridas, vagueavam zombies, arrastando os pés sobre a relva. Os corpos enfraquecidos pela putrefacção cambaleavam curvados, com os braços pendentes ao lado do corpo, oscilando ao ritmo do seu rastejar. Moviam-se tão devagar, e com tanto custo, que davam a impressão de terem pés de chumbo.
Mas não deixavam de ser perigosos por isso.
Tínhamos acabado de analisar a nossa situação, e de conceber um plano para escaparmos: o quarto onde nos encontrávamos tinha uma porta que dava para um segundo quarto quarto. Ambos tinham acesso ao corredor, onde zombies andavam para trás e para a frente sem parar. O plano era simples: um de nós iria para o segundo quarto, cuidadosamente fechando a porta atrás de si. Depois, abriria a porta desse segundo quarto que dava para corredor. O barulho da maçaneta não passaria despercebido aos zombies: eles aproximar-se-iam para investigar, e encontrariam uma presa, que se deixaria devorar enquanto os restantes humanos fugiam pelo corredor deserto.
Eu fui a escolhida para ser sacrificada. Reclamei, e recusei-me a fazê-lo, mas todos insistiram que, de qualquer maneira, eu era aquela que tinha menos hipóteses de sobreviver. Além do mais, esta era a única maneira que eu tinha de ajudar o grupo, visto que não sabia usar armas, nem era dotada de nenhuma outra qualidade útil naquelas circunstâncias.
Insisti que não o faria, mas o grupo não mudou de ideias. Temeram, no entanto, que a minha falta de vontade pusesse em risco o plano. Por isso, um homem gordo, entre os 30 e os 40 anos, voluntariou-se para me acompanhar até ao segundo quarto, e certificar-se de que eu cooperava. Assim que eu abrisse a porta, ele regressaria ao primeiro quarto.
No segundo quarto, pedi ao homem gordo que me desse uns minutos.Ele lançou-me um olhar desconfiado, mas consentiu. À beira das lágrimas, fechei-me numa minúscula casa-de-banho.
Quando olhei para o espelho, tive uma ideia.
Eu ainda me podia salvar. Não sabia se o meu plano iria funcionar, havia, aliás, uma grande probabilidade de ele falhar. Mas eu só tinha duas escolhas: correr o risco, ou resignar-me e morrer sem sequer tentar escapar. O grupo provavelmente morreria. Não me importava: se eles estavam tão dispostos a sacrificar-me, eu não me preocuparia se eles morressem.
Abri um minúsculo armário na casa-de-banho, e para minha alegria, encontrei maquilhagem e uma peruca. Voltei-me para o espelho, enfiei a peruca e maquilhei-me até ficar o mais parecida possível com um zombie. Provavelmente devido às cores de que dispunha, eu parecia o cadáver de um homem negro. Não era um disfarce muito convincente, um ser humano jamais se deixaria enganar por ele. Para não perder o ânimo, disse a mim mesma que os zombies eram estúpidos.
Respirei fundo e saí da casa de banho, arrastando hesistantemente os pés. Tinha a cabeça inclina sobre o peito, e a boca aberta, revelando os dentes cobertos de maquilhagem castanha.
O homem gordo veio ao meu encontro, e disse-me, gesticulando ansiosamente:
-Ouve, eu quero dizer-te que lamento imenso... Mas não temos outra hipótese, percebes?
Nesse momento vi um zombie aparecer atrás dele, silencioso como uma sombra. Parece que eles tinham aprendido a abrir portas. Parece que nem as maçanetas nem as dobradiças eram tão barulhentas quanto nós tínhamos pensado.
Soube o que ia acontecer e decidi fazer o que fosse necessário.
-Tu ainda não és um zombie! - exclamou o homem, como se só então se tivesse apercebido de algo estranho no meu comportamento- Porque é que te estás a mexer assim?
O zombie que eu vira atrás dele mordeu-lhe a nuca. Eu avancei e trinquei o pescoço. Lembro-me de ter pensado: "um pouco de sangue até ajuda o disfarce".
Atraídos pelos gritos do homem, mais zombies entraram no quarto para se juntarem ao festim. No primeiro quarto, o grupo percebeu que algo correrra mal e começou a chorar.
Eu estava tão assustada que não sentia o sabor da carne na minha boca. Por vezes, tinha a sensação de estar fora do meu corpo, a murmurar para mim mesma: "estás a ir bem, eles não perceberam que não és realmente um zombie. Continua assim, fica calma". Depois, abruptamente, caía em mim, e via a minha boca escancarada sobre o que restava de um pescoço ensanguentado. A cada segundo que passava mais zombies vinham inclinar-se ao redor do corpo. Certa vez, um deles lançou-me por instantes um olhar de uma profunda e macabra satisfação. Não sabia que os rostos dos zombies eram capazes de formar expressões. Isso fazia-os parecer criaturas, até um certo ponto, vivas e conscientes. Contive o meu espanto. Percebi que ele esperava que eu o retribuísse o seu sorriso, e com um pedaço de pele a pender-me dos dentes, abri os lábios.
Dentro de pouco tempo, havia demasiados zombies no quarto para que eu estivesse segura. Tantos se esforçavam para alcançar o cadáver, que poderiam arranhar-me ou morder-me acidentalmente. O mais discretamente possível, comecei a recuar. Os mortos estavam tão distraídos com a carne que nem estranharam a minha falta de interesse pela refeição.
Ao atravessar o corredor, passei por vários mortos que seguiam na direcção contrária. O corredor era estreito, e eu senti as suas mãos ossudas e frias roçarem as minhas. O hálito nauseabundo emanado pelas suas bocas escancaradas era nojento para lá da descrição. Mas o pior de tudo eram os olhos: estavam ansiosos e atentos, para que lhes escapasse qualquer pista capaz de lhes indicar onde estava a carne. Percebia-se que estavam com pressa, que tinham de chegar, depressa, enquanto ainda havia alguma coisa agarrada aos ossos do homem gordo. Por momentos, fixavam-se em mim. Eu não sabia de devia encará-los ou não. Optei por não o fazer, esperando não levantar suspeitas.
Era dificil conter as lágrimas, e era difícil não correr, mas o mais difícil de tudo era respirar devagar e discretamente. Aquelas coisas não respiravam: se me vissem arfar, saberiam que algo estava errado.
Cheguei às escadas em segurança. Depois de descer os degraus, só me lembro de estar a sair do prédio. A minha alegria ao ver a relva foi imensa. Mas mantive-me firme, e, sempre fazendo-me passar por um zombie, andei durante horas, até chegar a uma alta vedação, que contornava o território dos estúdios.
Escapei. Não tenho a certeza em relação ao resto do grupo, mas acho que todos morreram. e eu, que era quem tinha menos hipóteses de sobreviver, salvei-me.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Pensem no planeta Terra. Agora imaginem que, em vez de os continentes estarem na sua superfície da esfera, a encararem o espaço, encontravam-se no seu interior, e encaravam-se uns aos outros. No meio, ficava o céu, com todas as suas nuvens, planetas e estrelas.
No meu sonho de anteontem, a Terra era assim.
Era de noite, e eu viajava de carro, ou mota, com o meu pai. O mundo parecia deserto. À nossa frente, só se via a estrada, à esquerda e à direita, uma extensa planície (Que, pelo seu tom amarelo-torrado, lembrava uma savana, e, acima das nossas cabeças, o céu, de várias cores maravilhosas: preto, azul-escuro, roxo.
O meu pai parou junto a uma tabuleta.
-Sabes onde estamos?
-Onde?
-Na Ásia.
Ao ouvir isto, fiz questão de sair da mota, ou do carro, para pisar chão asiático.
Assim que o fiz, o meu pai, que não saíra do veículo, acelerou e inverteu a marcha, contornando-me, como se fizesse tenção de me abandonar ali.
Sem pensar, agarrei com ambas as mãos o veículo, que imediatamente se deteve.
O meu pai saiu do carro e ficou comigo a olhar para o céu.
-Olha! - exclamei -A Europa.
No horizonte, a terra curvava-se para cima. Era por isso que, de onde estávamos, parecia que ela estava no céu.
Nesse momento, algo semelhante à Aurora Boreal irrompeu no céu, mesmo ao lado de Portugal. Pareciam grandes explosões de cor.
Mais tarde, eu, o meu irmão e o meu padrasto, discutíamos a possibilidade de uma viagem ao Brasil, onde um espectáculo semelhante ao que eu vira com o meu pai iria suceder.

domingo, 29 de janeiro de 2012

O Paraíso

Tive este sonho durante as férias de Natal. Nem sei como quase me esqueci de o escrever aqui.
Estava em Lisboa, perto do túnel do Gril. Era noite cerrada, e só as luzes cor-de-laranja dos candeeiros de rua iluminavam a estrada.
Não havia ninguém à minha volta. Eu estava assustada, e não sabia o que fazer nem para onde ir. Mesmo assim, caminhava, como um autómato, em direcção ao túnel.
Aos poucos, comecei a distinguir na escuridão. Algumas olhavam à sua volta enquanto avançavam, como se tentassem descobrir onde estavam. Não demonstravam qualquer preocupação ou curiosidade. Limitavam-se a olhar atentamente à sua volta. Aparentavam aceitar o facto de estarem num lugar que desconheciam.
Sem se falarem, ou sequer olharem uns para os outros, iam todos para o túnel.
No meio da multidão, acabei por encontrar o meu irmão. Ele explicou-me que estávamos mortos, e que percorríamos o caminho para o paraíso.
Dentro do túnel, o chão não era alcatroado, mas de terra, e cada vez mais íngreme. Sob o tecto cinzento, iluminado por uma forte luz branca artificial, cresciam algumas algumas plantas. Sobretudo ervas, mas também árvores: carvalhos. Eram, todavia, pequenos, e a folhagem era tão escassa que não bastava para formar uma copa. As suas raízes sobressaíam da terra, e estendiam-se na nossa direcção como dedos de bruxa: magros, retorcidos, acusadores. Também não faltavam pedras e ossos humanos.
Conforme subíamos, agarrava-mo-nos a tudo isso.
Estávamos exaustos e doridos, mas o paraíso era mesmo lá em cima, e se continuássemos seríamos premiados com uma estadia eterna. Se desistíssemos, estaríamos condenados a deambular no limbo, para sempre.
Por vezes, sentia o meu irmão agarrar-se aos meus tornozelos, por não encontrar nenhum ponto de apoio melhor. Nessas alturas, eu ficava imóvel, e agarrava-me com toda a força ao que estivesse ao meu alcance, rezando para que aguentasse o peso dos nossos corpos.
Cheguei ao cimo primeiro que o meu irmão. Hesitante, palpei a terra plana, mas acreditando no que via. Subi, e, para minha grande surpresa, não vi um grande portão dourado, rodeado de nuvens e do céu. Em vez disso, verifiquei que a cerca de um metro do abismo, se erguia um parede cinzenta, e sobre ela assentava o tecto que cobria todo o túnel. Ali, era tão baixo que eu mal conseguia erguer-me. Era um espaço minúsculo. Para além de mim, os únicos ocupantes eram dois homens corpulentos, de lindo cabelos encaracolados. Confortavelmente alojados (cada um sentado na respectiva cadeira de praia), eles observavam a labuta da multidão.
Fiquei tão indignada que me aproximei do precipício e, com um grito, ordenei aos mortos que se detivessem. Descrevi-lhes o que encontrara e acrescentei que o paraíso não existia.
Devastados, alguns largaram a parede de terra e deixaram-se cair. Mas a maioria desceu lentamente, demasiado desiludida para expressar sequer o seu sofrimento. Resignados, deixaram o túnel e regressaram cabisbaixos ao limbo.
Quando já todos haviam partido, eu sentei-me ao lado dos homens, para descansar e chorar.
Foi então que um deles se levantou, passou por mim, e, a um canto da parede cinzenta, abriu uma minúscula porta.
-Tu ficaste. - disse-me ele. -Por isso, podes ir para o Paraíso.
Parei imediatamente de chorar. De queixo caído, olhei por instantes para o homem, que segurava entre dois dedos a maçaneta da minúscula porta. Só então me apercebi que ele tinha um majestoso par de asas.
A culpa abateu-se sobre mim, alojando-se no meu peito sob a forma de um peso atroz e doloroso.
-Espera. -pedi ao anjo -Tenho de chamar os outros e explicar-lhes o que aconteceu.
-Não. - determinou o anjo. -Eles já não podem entrar.
-Então deixa-me chamar só o meu irmão. -roguei.
-Não. - insistiu o anjo.
-Porquê?
-Só pode entrar no paraíso quem tem fé nele.
-O meu irmão tinha fé! Eu tirei-lha!
Cansado de me ouvir, o anjo agarrou-me e enfiou-me à força no paraíso, enquanto eu me debatia e lhe gritava que estava a cometer uma terrível injustiça, porque, de todas as pessoas que subiam a parede, eu era de todas elas a que menos fé tivera, chegando mesmo a tirar-lhes a deles.
Ele fingiu que não me ouviu, e fechou a porta atrás de mim.
Tentei abri-la novamente, mas ela não cedeu nem um pouco. Mas não ia desistir: estava determinada a avisar o meu irmão do erro que cometera e que o condenara. De alguma maneira, eu trá-lo-ia para ao pé de mim.
Olhei à minha volta. Ao distinguir algumas grandes cabines telefónicas, de um azul berrante, tentei contactar o meu irmão. Mas era escusado: aqueles telefones só recebiam chamadas. Tentei, de seguida, enviar-lhe um e-mail através de umas máquinas muito semelhantes a caixas multibanco. Mas, tal como os telefones, estas máquinas podiam apenas receber mensagens, e nunca enviá-las.
Procurei uma saída do Paraíso. Uma porta, uma janela, um buraco; o que quer que fosse. Se encontrasse uma maneira de sair sem que o anjo me visse, poderia procurar o meu irmão e depois regressar com ele. Mas a única maneira de entrar no paraíso era através daquela minúscula porta (tão feia) e, depois de lá se estar, era impossível sair.
É claro que a minha obstinação não passou despercebida ao anjo. Chegámos a sentar-nos lado a lado e ele ouviu-me desabafar e chorar durante horas a fio, ao longo de vários dias.
Quando finalmente desisti de encontrar uma maneira de contactar o meu irmão, ou de fugir do paraíso para o ir procurar, fui ao encontro do anjo, de quem me tornara amiga, e pedi-lhe que, ao menos, me deixasse regressar ao limbo para ficar com o Tomás.
Comovido pelo meu amor e determinação, o anjo acedeu a ir ele próprio buscar o meu irmão.

Não houve, na narração deste sonho, espaço para uma descrição do paraíso. A verdade é que era parecidíssimo com a Avenue Louise, de Bruxelas. Mas não se viam carros em lado nenhum, e crescia um pouco de erva por todo o lado.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Shhhhh!

Hoje sonhei que estava num grande edifício de paredes cinzentas, juntamente com um grupo de jovens e crianças. Parecia que por todo o lado havia cozinhas e cozinheiros.
Ao redor deste edifício, existia uma plantação de milho, tão vasta que, não importa em que direcção se olhasse, era a única coisa que se via até ao horizonte.
Nós queríamos ir passear nessa plantação.
Descontraidamente, lá fomos nós.
Quando já lá estávamos, lembrei-me de qualquer coisa que devia ter trazido comigo. Voltei atrás para a ir buscar.
Lembro-me que para o fazer, tive de saltar para um fosso, com uns três metros de profundidade. Descalcei-me antes de fazê-lo, e, no ar, pensei como fora estúpida: ia certamente partir os pezinhos todos. Se fosse só isso que eu partisse.
Para minha surpresa, não senti dor nenhuma, e num instante me pus de pé e desatei a correr em direcção ao edifício.
A caminho de uma das cozinhas, reparei num estranho elevador. Sempre que ele subia, havia abaixo dele um outro elevador pendurado, e, por baixo desse elevador, um grande cilindro de vidro cheio de água imunda, onde um homem estava amarrado. Cheia de medo, e preocupada com o homem, aproximei-me. Nesse instante, ele emergiu, enchendo os pulmões de ar.
-Meu deus! -exclamei eu.
Ele era jovem, tinha o cabelo curto e espetado, e uma barba de vários de dias por fazer. O pêlo negro contrastava com a pele branca. Não me lembro do que ele me disse, mas estava desesperado.
Ouvi então um outro homem aproximar-se. Era baixo e gordo: a barriga opulenta quase fazia saltar os botões da camisola vermelha de xadrez. O que restava do seu cabelo negro rodeava, como se uma auréola se tratasse, uma reluzente careca no cimo do seu crânio. Um bigode muito feio é do que lembro melhor da sua cara bochechuda.
Recuei vários passos, dizendo:
-Eu não conto a ninguém! Prometo!
-Não vais a lado nenhum.
-Eu não conto a ninguém! - insisti, fazendo cara de menina ingénua e indefesa.
-Está bem... -cedeu o homem, movido pela minha patética expressão. - Mas dá-me a tua mão.
-P-para quê?
-Não sais daqui sem um aviso, pelo menos. - disse ele, segurando uma faca.
"Ele vai cortar-me a mão!"
-Não conto a ninguém, já disse!
-É só um cortezinho...
-Não confio em si.
-Um cortezinho, vá lá... - ele falava como se fosse um médico a consolar uma criança prestes a ser vacinada.
A tremer, deixei que ele pegasse na minha mão direita e fizesse um pequeno corte na palma. Assim que ele me largou, desatei a correr, a pensar se devia ou não contar a alguém o que acontecera.
Aquele pobre homem estava a ser torturado, e se eu não fizesse nada, dentro de pouco tempo talvez estivesse morto. Eu era a sua única esperança.
Mas quais seriam as consequências para mim?
E se fosse eu no lugar dele?
Será que ele me ajudaria ou não?
-Mãe, mãe, tenho de falar contigo! - choraminguei, assim que encontrei a minha mãe.
Num sítio isolado, contei-lhe o que se passara. Ela insistiu para que eu mantivesse a promessa que fizera, mas eu sentia-me esmagada pela culpa.
Não sei que decisão acabei por tomar.

Presa

Já não me lembro quando tive estes sonhos. Acho que foi nas férias de Natal...
Foram dois sonhos: um filme, e a respectiva sequela. Eu era a protagonista, e, ao mesmo tempo a narradora. Só que, ao contrário do que normalmente sucede nestes casos, eu era uma narradora ausente e omnisciente, e, ao mesmo tempo, a personagem principal. A história não se tratava de uma recordação, ou qualquer outro relato feito em retrospectiva. Eu era, literalmente, duas entidades diferentes ao mesmo tempo.
Estava presa, juntamente com outros colegas, num edifício gigantesco. Uma mistura bizarra da antiga António Arroio, Belas-Artes, e algo mais... É difícil definir o terceiro elemento. Podia ser um armazém, ou as escadas de metal a que a oficina dos meus avós paternos ia dar, rodeadas de altíssimas paredes cinzentas e feias, ou então o estranho cenário de um antigo concurso de televisão, em que três concorrentes tinham de roubar três malas carregadas de dinheiro. No fim, só um ficava com o dinheiro.
Aquele lugar onde estávamos era macabro, bizarro, digno de um filme de terror. Parecia estar abandonado há muito tempo. Tudo era ferrugento, frágil e instável. Estava sempre escuro; ainda assim, uma constante e fraca luz de um tom verde doentio pairava sobre todas as divisões, sem que se conseguisse perceber qual era a sua origem.
Era muito fácil perder-mo-nos: o edifício era um labirinto em constante mudança. Era impossível voltar a encontrar um sítio depois de lhe voltarmos as costas.
De vez em quando cruzáva-mo-nos com zombies, mas desde que fossemos cuidadosos, nunca eram suficientes para serem perigosos.
Das poucas pessoas que estavam comigo, só me lembro de uma: a Rafaela. Trata-se de umca colega baixinha, de cara redonda acentuada pelo cabelo cortado com franja.
Ao passarmos por uma porta metálica, com uma janela de vidro (daqueles apenas semi-transparentes, e que distorcem as formas) vimos pendurado na maçaneta um papel escrito À pressa que dizia: "não abrir porta, zombie de aluna".
-Coitada! - exclamou Rafaela - Ninguém devia ficar preso para sempre!
-Aquela coisa não é uma pessoa. - disse-lhe eu - Vamos embora.
-Mas já foi. Temos de a soltar!
-Rafaela, não!
Tarde de mais. Rafaela abriu a porta, e, no instante seguinte, apareceu uma carcaça putrefacta que só com alguma dificuldade se poderia identificar como um cadáver de um ser humano. O monstro quase correu para nós, com aquilo que em tempos tinham sido os seus braços esticados na nossa direcção.
A compaixão de Rafaela desapareceu, e, tomada de medo, ela empurrou-me contra a parede do estreito corredor para conseguir passar e fugir. Estava nas minhas mãos voltar a fechar a porta.
O monstro já estava muito próximo, pelo que tive de recuar. Mas, como se se tratasse de um número de magia, o corredor estava agora mais longo, e passados alguns metros vi que tinha acabado de passar por uma segunda porta. Fechei-a, e tentei com dedos trémulos trancá-la. Não foi fácil, porque do outro lado a morta ora batia na porta ora puxava a fechadura, com muito mais força do que eu esperava que ela tivesse. Temi que ela conseguisse partir o vidro e me alcançasse.
Felizmente, consegui trancar a porta e escapar ilesa.
Depois disto só me lembro de estar num local semelhante a um laboratório de fotografia, cheio de prateleiras de químicos, e outros materiais necessários a essa arte. Um zombie, gordo e com uma camisola de xadrez, deambulava no pequeno espaço.
A chave para sair do edifício estava dentro dele.
Silenciosamente, para que ele não se apercebesse da minha presença, agarrei uma das garrafas de químicos e despejei-lha em cima.
Ninguém usa ácidos num laboratório de fotografia, pelo menos ninguém que eu conheça. Mas o monstro gritou de dor e uivou como um louco, ao mesmo tempo que o seu abdómen gorduroso era corroído pelo liquido. Não consigo perceber o motivo do que fez a seguir. Agarrou uma longa e fina serra (cujo lugar mais apropriado seria uma oficina de carpintaria e não aquele onde se encontrava) e começou a cortar-se aos bocados.
Tanto se cortou que acabou por cair morto no chão, numa grande poça do seu próprio sangue, carne, gordura e ossos.
Demasiado desesperada para ter nojo ou medo, aproximei-me, remexi o que restava da criatura, e quando por fim encontrei uma chave imunda agarrei-a com prazer e voltei para junto dos meus companheiros.
Não me lembro do final do sonho, mas acho que escapámos.
Na sequela do filme, ou seja, no segundo sonho, eu era uma professora naquele mesmo edifício. Estava a descer umas longuíssimas escadas em caracol. Eram de pedra. Mármore branco, penso. As paredes eram espaçosas, pintadas em tom de creme, com discretos brilhantes. Apesar de irregulares, eram macias: tal e qual como as paredes do prédio onde vivo, em Massamá. Não havia janelas, e eu não sabia há quanto tempo estava a descer as escadas, nem por quanto tempo teria de continuar.
Seguia-me uma multidão de alunos. Não sei se eram zombies ou fantasmas, ou qualquer outro tipo de monstros. Sei, no entanto, que não podiam fazer-me mal até ao momento em que eu demonstrasse que sabia que estava em perigo, ou até aceder a ir onde eles me queriam levar.
Eles falavam-me carinhosamente, convidando-me a acompanhá-los. Eu tinha de saber recusar os convites com gentileza. Eles fartavam-se de me fazer perguntas, e eu mentia-lhes com habilidade, certificando-me de que a teia que tecia era uniforme.
Estava cheia de medo. Mas não podia demonstrá-lo. Tinha os nervos em franja, e os meus dedos e as minhas pernas tremiam. Mas tinha de me comportar com calma e elegância, por isso cerrava as mãos em punhos e punha cuidadosamente um pé à frente do outro.
Quando vi a porta de saída nem quis acreditar. Mas não podia correr. Sempre devagar, caminhei para a porta, despedi-me deles, e saí.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Os zombies também têm sentimentos!

Lembro-me de muito pouco deste sonho. Resumindo, a minha mãe tinha dado guarida a um grupo de zombies e fazia todos os possíveis para (re)inseri-los na sociedade, argumentando que os zombies também tinham sentimentos, e ficavam tristes por serem rejeitados.
Segundo ela dizia, eles eram inofensivos, ao contrário do que as histórias contam. Convivia com eles uma boa parte do dia, e estava empenhada em ensinar-lhes danças de salão (que ela própria não sabe).
Estava também decidida a apresentá-los a mim e ao meu irmão, insistindo que tentássemos conversar com eles (apesar de eles não serem capazes de responder). Naturalmente, eu desatava a correr assim que via um daqueles cadáveres ambulantes a arrastar-se na minha direcção. Isso enfurecia tanto a minha mãe como os mortos, e enquanto me afastava eu conseguia ouvi-la a ela a gritar para que eu voltasse e a eles a grunhir incongruências.
A certa altura, um zombie com um grande chapéu de palha enfeitado com flores tentou aproximar-se de mim. Incapaz de soltar sequer um grito, afastei-me com um salto ágil e caí, rolando no chão. Entretanto, o monstro, que tinha ficado muito ofendido, começou a perseguir-me com os braços esticados.
Levantei-me e corri o mais depressa que podia em direcção aos canis. No caminho, agarrei o meu irmão pelo pulso da camisola e ordenei-lhe que viesse comigo.
Fechá-mo-nos atrás das grades e vimos, de olhos arregalados, vários mortos a avançarem em direcção do canil, furiosos.
-Carolina! Tomás! - vociferou a minha mãe - Saiam já daí e peçam desculpa!

terça-feira, 23 de agosto de 2011

O que estamos dispostos a fazer para conseguir uma casa em tempos de crise...

Esta noite, vi-me a mim e à minha família a visitar a casa-museu de um famoso realizador de filmes de terror, que, fascinado pela sua arte, transformara o seu lar num verdadeiro cenário de filmes de terror clássicos.
As paredes altíssimas eram feitas de grande blocos de pedra cinzenta, e, se bem me lembro, em certas divisões não havia tecto: olhando para cima, conseguíamos ver o céu, coberto de espessas nuvens cinzentas. Não se viam janelas, e os candelabros estavam todos apagados e envoltos em teias de aranha. Uma luz pálida, quase gélida, entrava através das divisões sem tecto ou de minúsculos buracos nas paredes. O chão era umas vezes de madeira, outras de pedra, mas sempre frio como um morto.
Era difícil acreditar que um dia alguém tinha habitado aquela casa.
Ao entrarmos, passámos sob um colossal arco lanceolado,e deparámos-nos com um poço tão fundo que, ao olharmos para baixo, víamos apenas escuridão. Dir-se-ia que ia dar ao próprio inferno.
A única maneira de transpor aquele vazio era atravessá-lo sobre portões metálicos constituídos por finíssimas barras que se cruzavam vertical e horizontalmente. Estas plataformas estavam em constante movimento, deslocando-se ao longo de várias e longas divisões, sobrepondo-se umas às outras, afastando-se subitamente, e repletas de armadilhas escondidas. A qualquer momento, podíamos cair no abismo negro que estava sob os nossos pés.
Felizmente, conseguíamos chegar em segurança a uma sala ampla, da qual apenas uma parede permanecia inteira: nela, havia quatro ou cinco janelas lanceoladas, tão altas e esguias que ocupavam a parede desde o chão ao tecto. Tratavam-se de vitrais coloridos em tons de roxos e azuis. Não havia tecto na sala... Lembro-me que sobre ela o céu era lilás, e, por detrás de algumas nuvens, viam-se uma ou duas estrelas, que irradiavam uma luz muito fraca.
Diante da janela, havia uma elaborada (e, honestamente, pirosa) estátua de uma raposa branca ou um arminho. Diante dela, havia um cálice com o que à primeira vista poderiam parecer pauzinhos queimados, e uma inscrição com instruções deixadas pelo falecido dono da casa. Segundo a inscrição, o seu espírito continuava a divagar pelas paredes da casa, sob a forma de um fantasma de uma raposa branca ou de um arminho. ISto era possível apenas devido à estátua que tínhamos diante dos nossos olhos. Estava também escrito que o espírito estava disposto a deixar a sua casa ao fã que lhe escrevesse a carta mais comovente de todas. O seu único desejo era que não mudassem em nada o aspecto da casa nem destruíssem a sua estátua.
"Está bem, está..." pensei "Se fosse eu, era a primeira coisa que ia à vida".
Depois, porém, pus-me a pensar... Eu precisava de uma casa, e, apesar de tudo, esta era de borla. Decidi tentar a minha sorte. Inclinei-me sobre o cálice, para perceber se era lá que os fãs deixavam as suas cartas, e constatei que aqueles poucos pauzinhos queimados eram na verdade pequenos rolos de pergaminho.
Nesse momento, o fantasma do antigo proprietário apareceu diante de mim. Parecia feito de fumo: a sua forma alterava-se constantemente, e era difícil perceber se tinha se seria azul ou branco. Os seus olhos ora pareciam vazios, ora imensamente tristes. Ao afastar-me, reparei que havia no cachaço do bicho um grande buraco negro, à volta do qual o pêlo estava manchado de sangue escuro. Era o buraco deixado pela bala que tinha morto o homem.
Estava cheia de medo, mas, enquanto me afastava, consegui reunir coragem suficiente para me voltar para trás, piscar o olho ao espírito e dizer:
-Eu vejo-te depois, ok? Trago-te a minha carta daqui a uns dias.
Ele olhou para mim com uma expressão vaga, depois desapareceu.
Voltar a sair daquela casa sombria foi muito mais complicado do que entrar. Quando tornei a aproximar-me das plataformas, gritei de medo, como se fosse incapaz de as atravessar. Quando me ouviu, um homem que já estava muito à minha frente correu para trás para me ajudar. Tinha uma grande "afro", era judeu, e suponho que se tratasse de um grande amigo de Zé Oliveira, namorado de uma tia minha.
-Não! Eu consigo! - gritei, quando percebi quais eram as suas intenções. Senti-me mal por fazê-lo arriscar a sua vida. Mas nada o deteve: aproximou-se de mim, deu-me a mão, e começou a andar comigo atrás dele, segurando sempre as suas duas mãos.
-Não pensem! - recomendou a minha mãe, já longe. - É preciso não pensar!
Depois de ela dizer isto resolvi seguir o meu instinto, e realmente tudo me pareceu mais fácil, até perceber que caminhávamos com os pés esquerdos e direitos em plataformas diferente, que aos poucos se iam afastando uma da outra.
-Oh meu Deus! Oh meus Deus! - murmurava eu, ao ver que não conseguia saltar para nenhuma das duas plataformas sem cair no abismo.
Para piorar a situação, eu e o meu companheiro apercebe-mo-nos de que Zé Oliveira se encontrava na mesma situação, pouco adiante. Só que estava imóvel, enquanto que nós éramos rapidamente impelidos na sua direcção.
O momento seguinte parecia uma cena retirada de um filme animado: o meu companheiro caíra e eu agarrara-o pelos braços, e Zé Oliveira, que caíra também, agarrara-se desesperadamente às suas pernas. Entretanto, eu estava prestes a fazer a espargata.
Tinha de me livrar o mais depressa possível daquele peso ou acabaríamos por mergulhar os três na escuridão.
Reuni todas as minhas forças (que na realidade são nenhumas)e consegui atirar os dois homens para uma plataforma onde estariam seguros. Os dois agradeceram-me, e comecei a ouvir aplausos ao meu lado: quatro membros de uma equipa de football americano (se bem que muito pouco robustos) aplaudiam a minha proeza, confortavelmente sentados em cadeiras de plástico montadas na plataforma metálica à minha direita.
Conseguimos sair sãos e salvos da casa, mas não sem que antes o Zé Olveira esbarrasse contra uma mesa onde estava servido um banquete sumptuoso, e tivesse que arrancar um garfo que tinha ficado espetado na sua perna esquerda após o acidente.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Canibalismo e civilizações perdidas

Há já muito tempo que não escrevo... Hoje, contudo, o sonho que vou contar fez-me notar a minha falta: estava numa sala de cinema muito longa e estreita. Era clara, acho que toda branca, mas estava um pouco escuro. Por vezes, era difícil perceber se estávamos realmente entre quatro paredes ou ao ar livre.
Comigo, estavam o meu irmão e a minha prima Ana. O filme que estávamos a ver era muito mau, para além de dolorosamente aborrecido. Por isso, apesar de já nos terem repreendido algumas vezes, nós continuávamos a falar.
A dada altura, Ana revelou-nos que se tinha chateado com uma amiga sua: a Inês, com quem passei uns dias à pouco tempo:
-Mas ela teve o que merecia: a Patrícia comeu-a!
Fui sacudida por um arrepio tão gelado que me fez doer o corpo. A Patrícia é outra das amigas de Ana, com quem também estive este Verão.
-O quê? - murmurei, incrédula.
-A Patrícia comeu-a. Ela e mais algumas amigas dela. Foi bem-feita!
Quase deixei de ouvir Ana, durante algum tempo. Sentia-me tonta, e estava prestes a vomitar.
Entretanto, Ana continuava a tagarelar:
-Cortaram-na aos bocadinhos, guardaram a carne num frigorífico e foram comendo. É que a Patrícia faz parte de uma seita canibal qualquer, sabes? Se alguém chateia uma dela... pronto! Mas foi bem-feita, foi bem-feita...
Como é que era possível que a Ana fosse amiga de uma pessoa assim? Porque não tinha revelado isto a mais ninguém? Estaria com medo? E como é que era possível que a polícia nunca tivesse descoberto qualquer vestígio de um crime tão macabro:
-Onde é que elas escondem os ossos? - lembrei-me de perguntar.
A Ana assumiu uma expressão pensativa, e acabou por me dizer que não sabia.
-Mas agora eu tenho de ter cuidado com elas... - disse-me ela, num tom subitamente sério - É que eu e a Patrícia chateá-mo-nos, sabes?
Quando ela me contou isto, apeteceu-me desatar a chorar. O Tomás, por seu turno, ficou animadíssimo, comentando com a nossa prima como era empolgante ela fazer parte de semelhante drama.
Entretanto, eu fiquei tão nervosa que desatei a comer qualquer coisa e a falar, pelo que fui expulsa da sala. Lembro-me que na altura em que me expulsaram apareceu no ecrã um homem de aspecto rude, com uma palhinha na boca. Lembrou-me o Chuck Norris. Estava num campo aberto, cheio de capim.
Dei comigo numa imensa cidade greco-romana, que aos pouco uma equipa de arqueólogos ia escavando.
Tudo estava intacto: as esculturas, os edifícios... Mas era tudo de um branco imaculado: todas as pinturas de cores vivas tinham desaparecido.
Acabei por encontrar o meu professor de animação Zepe, que, juntamente com um um ou dois companheiros, explorava o achado.
Segui-os à distância (provavelmente com medo que o meu professor me perguntasse alguma em relação a um trabalho em atraso). Passei as mãos por um mosaico lindíssimo, feito de pequenas pedrinhas de um verde-jade, macias como seda.
Zepe acabou por se aperceber da minha presença e foi ao meu encontro. Revelou-me que uma escavação semelhante àquela estava naquele momento a ser feita no jardim da quinta onde moro.
Incrédula, fui a correr para casa.
Quando vi que a parte bonita do nosso jardim tinha desaparecido, e que no seu lugar havia um buracão colossal, pensei como o tio e a mãe ficariam aborrecidos.
Lá em baixo, a pelo menos 25 metros da superfície, uma antiga cidade greco-romana era redescoberta.
"Será que pediram permissão ao tio para escavar no jardim dele?" pensei "Será que lhe estão a pagar para estar aqui?".
Desci. Aquele achado era agora usado como uma espécie de parque temático: tal como em Óbidos se fazem feiras medievais, ali deparei-me com uma feira greco-romana. Muitas pessoas usavam togas.
Ao fim de algum tempo parei junto de uma banca onde se vendia fruta, construída sobre uma estrutura de madeira improvisada. Sentei-me junto a uma cesta e pus-me a comer frutos secos (que na realidade detesto).
De volta a casa, cruzei-me com o meu padrasto e disse-lhe:
-Tio! Já sabes que havia uma cidade greco-romana in-tei-ri-nha debaixo do jardim?!
-Oh! Mas isso via-se logo! - retorquiu ele. Deduzi que tivesse descoberto tal coisa através das irregularidades do terreno.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

MAIS UM APOCALIPSE ZOMBIE (isto começa a preocupar-me)

Costumo ter várias vezes o mesmo sonho, e muitas vezes até gosto: é como ler um capítulo de um livro, pô-lo de parte, e mais tarde voltar a pegar nele para ler mais um capítulo ou dois. Mas já começo a estranhar esta história dos apocalipses zombies... Até porque os sonhos estão a tornar-se cada vez mais violentos.
Infelizmente, já passou demasiado tempo desde que tive este último sonho para me lembrar dele com todo o pormenor.
Mas sei que tudo começou numa praia... Uma praia muito estranha, para dizer a verdade: ficava dentro de uma pequena sala de paredes brancas (ou seria apenas um nevoeiro muito espesso?).
Eu estava na água, a apanhar as conchas que as ondas arrastavam para junto dos meus pés. A água era muito transparente, e através dela viam-se perfeitamente as algas, as conchas, as pedras...
Quando estava voltada para o mar, ficavam à minha direita alguns cadeirões, e mesmo uma estante cheia de livros. Grande parte da minha família estava aí. Lembro-me particularmente bem dos meus avós.
Junto de mim estavam algumas crianças, que não sei se eram estranhos, ou os meus primos e o meu irmão (creio que eram eles, apesar de na realidade a nossa diferença de idades ser muito reduzida).
Connosco, estava um adulto. Era um homem, e usava calções de banho curtos e justo, às riscas brancas e azuis. Umas vezes era o meu pai, outras, um tio meu (o tio Zé Marques). Não tinha paciência nenhuma para nós, e não se esforçava para o esconder: fazia constantemente comentários cépticos que me irritavam.
Apesar de estarmos todos juntos, e ainda por cima na praia, o ambiente era pesado. A única palavra que me ocorre para o descrever é "cinzento".
A maré trazia à costa objectos cada vez mais estranhos, que eu apanhava ansiosamente. No entanto, fui obrigada a abandoná-los quando a minha família me chamou para me dizer que "tínhamos de ir embora". Eu não sabia porquê, aliás, acho que ninguém sabia. Mas nenhum de nós questionou esta decisão.
De repente, a praia desaparecera, e estávamos na casa dos meus avós, em Setúbal.
Percorri o corredor até ao último quarto, enquanto na sala a minha família me dizia para me despachar. O último quarto da casa dos avós era agora o meu quarto da casa de Massamá. Consigo pensar em dezenas de objectos que gostaria de levar comigo se algum dia fosse obrigada a fugir de minha casa, mas, neste sonho, nem sequer me lembrei deles: sem hesitar, fui até à aparelhagem, e retirei, de um pequeno esconderijo, um livro. Era um livro minúsculo e feio, com uma capa castanho-dourada de textura rude. Abri o livro, e quando o fiz, uma música lúgubre e sombria começou a tocar. Em cada página do livro havia uma fotografia de um zombie: aquele tratava do verdadeiro livro dos mortos. Lá, estavam todos os mortos-vivos que tínhamos de abater, de uma vez por todas. Sempre que um deles morria, uma página desaparecia. Sempre que uma pessoa se convertia num deles, aparecia mais uma página.
Eu era a responsável pelo livro.
Fechei-o, perturbada pela música.
Corri de novo para a minha família, que, na sala da casa dos meus avós, esperava por mim. Já tinham os casacos vestidos e não pareciam mais ansiosos por partir do que numa das nossas habituais reuniões familiares.
Lembro-me de muito pouco a partir do momento em que passámos pela porta: sei que a determinada altura eu era uma homem branco que sobrevivia a um acidente de automóvel e logo a seguir escapava a dois zombies. Depois, era novamente eu própria, e atravessava um pequeno campo de basquetebol cercado por grades em Massamá. Estavam lá dois ou três zombies por que passei sem que me dessem a menor importância. Porém, atrás de mim vinha uma pequena menina negra. Tinha o cabelo preso em dois totós, usava um adorável vestido cor-de-rosa e uma capa vermelha que a fazia parecer o capuchinho vermelho. Trazia consigo um saco de gomas.
Quando as duas saímos do campo de basquetebol, uma zombie agarrou-a e puxou-a de encontro a si. Era o cadáver de uma mulher velha e raquítica, cuja pele pálida caía aos poucos.
-Candy! - gritou ela, enfiando a mão no saco de gomas da menina e levando várias à boca - Candy! - tornou a gritar, empurrando os restos dos doces que enfiara na própria boca para a da menina.
A criança tentou gritar quando a mão putrefacta se colou à boca dela, e gritou novamente quando a velha começou a comer-lhe o peito.
Em pânico, subi por um candeeiro de rua acima com a agilidade de um gato.
No topo, tornei-me um homem negro,um pouco gordo e calvo.
Ao olhar para baixo, vi dois zombies a contornar o candeeiro, gemendo e grunhindo,à espera que eu descesse.
-Carolina!
Alguém chamava o meu nome! Olhei imediatamente na direcção do som: era Catarina!
-Carolina, salta! Não tenhas medo! Anda!
Estava cheia de medo, mas eu confio na Catarina. Por isso, saltei.
Assim que os meus pés tocaram no chão, desatei a correr. Ou pelo menos, a tentar: por algum motivo, eu não consigo correr nos meus sonhos, salvo raras excepções. Limito-me a dar alguns passinhos pequeninos muito depressa.
Mesmo assim, consegui escapar aos zombies quando eles me perseguiram.
Como eu e a Catarina corremos em direcções opostas, não sei o que lhe aconteceu.
Quanto a mim, dentro de pouco pouco estava em minha casa (em Massamá). E era eu própria outra vez.
Lá, corri o corredor até ao fim, e, deparei-me com um zombie a comer alguém, no quarto do meu irmão.
Sem perder tempo, tranquei-me no meu quarto, chorando enquanto ouvia a vítima a gritar.
Horas mais tarde, a minha família chegou e abriu a porta do meu quarto:
-Está um zombie cá em casa!
-Não... Já deve ter saído. -tranquilizou-me o meu irmão.
Na cozinha, encontrei-me com a minha mãe, uma tia minha, e a minha avó. Do joelho para baixo, a sua perna esquerda estava reduzida a tiras de carne e pele. Foi então que percebi que a pessoa que o zombie estava a comer no quarto do meu irmão era a minha avó. Senti-me esmagada pela culpa, e rezei para que ela não me tivesse visto fugir enquanto ela gritava por socorro.
Todos juntos, tratámos a ferida dela e ligámo-la. Decidimos que aquela casa seria o nosso lar, e que seria nela que tentaríamos sobreviver.
Pouco depois, toda a gente saiu de casa, excepto eu e o meu irmão. Estávamos os dois na cozinha, ele junto à janela, eu perto da mesa.
Foi então que apareceram dois zombies: não faço ideia como tinham entrado na nossa casa, mas tinham conseguido. Eram bizarros: um deles nascia das costas do outro, existindo apenas da cintura para cima.
-Eu tenho uma faca! - gritei, agarrando um cutel que estava sobre a mesa. Estava decidida a não me aproximar daqueles montros, pelo que atirei a faca com todo o meu ímpeto, apontando para o peito (não sei porque é que não tentei acertar na cabeça, já que é a única maneira de matar um zombie). Infelizmente, outra das características dos meus sonhos é que perco completamente a força... e o cutel caiu no chão mesmo aos pés da criatura.
Fiquei boquiaberta, paralisada pelo medo, a olhar ora para o cutel, ora para o monstro.
Ele passou por mim e caminhou direitinho ao meu irmão.
-Não! - gritei, e, vencendo o medo e a repugnância, agarrei a criatura pela cintura, lutando para a afastar do meu irmão enquanto tentava escapar às unhas e aos dentes do zombie que nascia das costas do outro.
-Tomás! - gritei - Mata-o! Depressa!
-Espera... -retorquiu o meu irmão, num tom tranquilo. -Tenho de escolher a faca certa... - explicou ele, enquanto revistava o seu estojo de facas (ele está a estudar para ser chef de cozinha).
-Despacha-te!
-Olha, toma esta. - disse ele, estendendo-me uma faca com toda a calma. Comecei imediatamente a esfaquear a garganta e o peito do zombie que estava colado às costas do outro. Ele olhou-me com algum desdém, e, agarrou o meu braço com força, puxando-o em direcção aos seus dentes podres.
-Não! - guinchei. Mas não pude escapar: se o fizesse, o monstro apanharia o meu irmão.
Olhando-me nos olhos, o zombie abocanhou a minha carne e puxou com prazer. Lembro-me claramente da dor.
Pouco depois, o meu irmão matou a criatura, e fugiu de mim a correr. Soube que ia dizer à minha família que eu tinha sido infectada, e que para o bem de todos era preciso matar-me.
Eu queria viver.
Por isso, corri para a bancada da coziha, escolhi um faca que ainda não tinha sido usada para matar nenhum zombie, e comecei a cortar o meu braço (tendo o cuidado de o fazer sobre uma tábua). Tinha esperanças que a vírus não tivesse chegado a espalhar-se pelo resto do corpo. Era uma ideia tôla, mas tinha de tentar.
Estava tudo sujo com o meu sangue. A dor era atroz.
Mesmo assim, cortei mais um bocado, quase rente ao cotovelo.
Acordei pouco depois... Lembro-me da dor, e voltar a sentir a mão, aos poucos e poucos.

pedras = ossos
família = vida

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Este sonho tem pelo menos quatro anos: vivia com o meu pai na nossa casa.
Sonhei que estava na minha cama, que está encostada ao armário que divide o quarto ao meio.
Ouvi vozes do outro lado do armário:
-Cala-te, olha que acordas a miúda!
Ao ouvir isto, abri a boca para gritar pelo meu pai.
-Foda-se! -praguejaram as vozes.
Demasiado rápido para que eu conseguisse perceber do que se tratava, uma sombra surgiu detrás do armário, contornou a minha cama e segurou-me com dentes pontiagudos, que perfuraram a minha carne entre as costelas.
A dor era agonizante, e por mais que tentasse, eu não era capaz de emitir um som. "Vou morrer!" pensei.

Somos tão menosprezados que trabalhamos debaixo do chão

Este sonho foi anterior ao do cérebro. Aliás, tive-o mesmo antes dele... Suponho até que houvesse uma ligação entre os dois, se bem que eu não me lembre dela.
Tínhamos tido a última aula de animação, e estávamos a preparar-mo-nos para deixar o estúdio e partir de férias. Desligámos os computadores, arrumámos o furador de folhas, guardámos lápis, papéis...
Estava tão ocupada a pôr cada coisa no seu devido lugar que não me apercebi que, ao contrário da realidade (graças a Deus), não havia janelas na sala.
Quando terminámos, sacudimos as mãos, muito felizes, e passámos pela porta para um corredor muito escuro, cheio de motores, válvulas, e caldeiras.
Lá, havia, no centro, uma escada de metal, pela qual subimos um a um. O primeiro abriu uma portinha redonda semelhante à de um submarino. Ao passarmos por ela, chegávamos à superfície. Curiosamente, em vez de ficar na faculdade, o estúdio de animação situava-se no subsolo da Alameda D. Afonso Henriques, a qual subi durante três anos para chegar À António Arroio.
Quando já estávamos todos fora da sala, forrámos a abertura com cartão e fita-cola, antes de tornarmos a fechar a porta.
Pouco depois, o Rodrigo comunicou-nos, muito aflito, que se havia esquecido da borracha dentro da sala. Voltámos todos atrás, abrimos a porta e rasgámos o cartão com uma faca para que o rapaz pudesse passar e ir buscar a sua preciosa borracha.

É só levantar a tampa... e eis o cérebro! Tã-ram!

Uma ou duas noites depois daqueles últimos sonhos incríveis, sonhei que, devido a um acidente qualquer, uma grande parte do meu crânio se partira: puxando o cabelo, era possível remover pele e osso e expor o meu cérebro.
Não sentia dor, mas temia que a qualquer momento aquele bocado da minha cabeça caísse e o cérebro fosse atingido por alguma coisa. Por isso, passava grande parte do tempo com as mãos na nuca, ou então curvada, de maneira a que o queixo ficasse apoiado sobre o peito. Assim, eu conseguia manter aquela bizarra tampa no devido lugar.
A certa altura comecei a sentir comichão ao redor do buraco, acompanhada de um ardor atroz. Corri para a casa de banho, e, desesperada, comecei a cortar o cabelo rente ao crânio (algo que eu jamais faria, pelo menos sem chorar).
Após duas ou três tesouradas, a maior parte do meu cabelo estava espalhada pelo chão, formando montinhos de brilhantes fios negros. Na minha cabeça, pouco restava da esplendorosa cabeleira: uma escassa franja tombava sobre a minha testa, e, por toda a cabeça, havia grandes peladas. Sobre a "tampa", não havia um único cabelo.
Examinei-a cuidadosamente e descobri três pequenos buracos, muito redondinhos, que, sinceramente, me fizeram lembrar uma bola de bowling, ou um côco.
Pouco depois, um dos buracos estava agrafado, certamente para fechar mais rapidamente. Entre a pele esticada, escorria um pequeno fio de sangue.
Ao descobrir-me com o cabelo rapado, a minha avó insistiu em ver o que se passava. Primeiro recusei, ansiosa de que ela removesse a "tampa" para examinar melhor a ferida. Depois, vencida pela sua insistência, acedi e voltei-me de costas para ela, dobrando os joelhos para que a ferida ficasse ao nível dos seus olhos.
-Não a tires. - repeti eu, pela milésima vez.
-Está descansada... -tranquilizou-me ela, enquanto palpava a minha cabeça com os dedos ágeis e as unhas pontiagudas.
Pouco depois, lembro-me de estar num local semelhante a uma estufa. Era muito quente e abafado, e havia plantas altas e de folhas largas por todo o lado.
Eu sentia-me exausta, e até piscar os olhos me custava. Mas tinha de fugir: estava em perigo.
Esforçava-me para me pôr de pé quando uma mão enorme me agarrou pela cintura e me puxou na sua direcção. Parecia-me que aquela mão ia esmagar-me com a sua força, e tudo o que consegui fazer no momento em que me agarrou foi soltar um estranho grunhido abafado, com o qual expulsei todo o que ar que tinha nos pulmões.
Incapaz de me debater, desisti, e lembro-me de estar bastante calma enquanto aquela criatura me levava de um lado para o outro, acabando por largar-me no meio das plantas.
Durante um bocado, fiquei ali, estendida no chão, sem me mexer.
Um homem apareceu, então, e colocou-me sobre o que parecia uma pequena bancada branca. Inclinou-se sobre mim e beijou-me. Desviei o rosto, mas ele segurou-mo e forçou-me a encará-lo. Com medo que a "tampa" caísse, tentei segurá-la, mas os meus braços não me obedeciam. Por fim, fechei os olhos e retribuí o beijo. Quando dei conta já estava a afastar as pernas, segurava o corpo dele com as mãos e puxava-o de encontro ao meu.
Pouco depois, acordei.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

BPRD

Juntamente com um rapaz, ou melhor, um homem, eu estava a percorrer uma cidade de ruas estreitas, onde os prédios e as ruas se sobrepunham uns aos outros, formando uma espécie de montanha sobre a qual e dentro da qual habitavam pessoas. Era uma cidade fantástica, apesar de muito pobre e suja, e não me ocorrem palavras capazes de a descrever: não tenho escolha senão desenhá-la, um dia.
-Aqui. -disse-me o homem, depois de passarmos por um mendigo e subirmos alguns degraus.
Olhei à minha volta: estávamos num cantinho minúsculo, que teria, no máximo, 1x1m. Atrás de nós estavam a rua e as escadas por onde tínhamos entrado, ao nosso lado, outras escadas, que subiam. Apesar de haver um tecto, era óbvio que ainda estávamos na rua. As paredes era amarelas e tinham marcas de humidade, e de um dos lados havia um cano que descia encostado à parede. Terminava junto ao chão, e dele pingavam ritmadamente gotas de uma matéria imunda.
-Não.
-Não?! - ele não levantou a voz, mas era evidente que estava irritadíssimo. Devia estar mortinho por me dar uma sova.
-Queres sexo, não queres? - ele respondeu lançando-me um olhar faminto. - Então arranja um lugar. - retorqui. -E um preservativo. - acrescentei.
Ele resmungou qualquer coisa entredentes, voltou-me as costas e subiu as escadas que estavam ao nosso lado.
Sei que não era uma prostitua: havia alguma coisa entre mim e aquele homem. Mesmo que não fosse amor. O que nos faltava, era um lugar decente para fazermos sexo.
Eu segui-o. Era colossal: sou uma mulher alta, e, no entanto, dava-lhe pelo peito. Tinha ombros muito largos, e músculos inchados. Esbarrar contra ele devia ser semelhante a esbarrar com uma parede.
Um estrondo abalou a cidade. Apoiá-mo-nos nas paredes e desatámos a correr. Subitamente, nunca houvera nada entre nós: éramos dois colegas de trabalho, e a nossa missão era destruir o monstro que atacava a cidade.
O meu parceiro, muito mais forte que eu, subiu agilmente as escadas até um estreito corredor com grandes janelas lanceoladas. Como estas não tinham vidro, agarrou-se com uma mão à fachada do edifício e saltou para o parapeito. Estava a cerca de cinquenta metros do chão, mas isso não o perturbava nem um pouco: estava disposto a enfrentar aquela criatura ali mesmo.
Num repente, era Hellboy, que saltou e aterrou sobre uma superfície invisível que esmurrou vezes sem conta com a sua gigantesca manápula de pedra, até que a besta sucumbiu e caiu sobre o chão da cidade. Momentos antes de o monstro desfalecer, Hellboy saltou novamente para o parapeito da janela.
Entretanto, eu corria pelas ruas da cidade a caminho da sede da organização para a qual eu, Hellboy, e curiosamente Diogo (um colega meu), trabalhávamos.
Diogo estava atrasado devido a uma multidão que se acumulara ao redor da besta morta e não o deixava passar. Um jovem rapaz agarrou-se a ele muito entusiasticamente e pediu-lhe que o deixasse fazer parte da nossa equipa. Diogo concordou, mas decidiu que antes de o rapaz se juntar a nós deveria ouvir algumas regras... Por isso, pôs-se a descrever-lhe os poderes que ele podia usar ou não (suponho que não era possível duas pessoas usarem o mesmo poder, apesar de terem a hipótese de escolher qual o poder que queriam).
Entretanto, os dois encontraram-me no cimo de uma rua, a subir a uma extensa e larga escada que conduzia à sede.
-Vá, Diogo, pára de ser o miúdo que decide que pokémons é que os outros podem ser.
Dito isto, continuei a subir.
Tinha imenso medo de cair, pelo que o fazia bem lentamente. Tanto, que devo ter irritado Hellboy, que aparentemente subia atrás de mim. Ultrapassou-me tão rapidamente que só me lembro de ver a ponta da sua cauda vermelha agitar-se ao meu lado.
-Ei! Eu sou fraquinha! -justifiquei-me.
Só me lembro disto.

Esta deve ser a história de super-heróis mais ridícula de sempre. Tem tudo para o ser: uma absurda mistura dos filmes Hellboy e Cloverfield, uma série de membros inúteis numa equipa que mais parece um clube de crianças...
E eu nem sequer cheguei a descobrir qual era o meu poder...
Bem, mas foi divertido. E aquela cidade era muito gira.

domingo, 22 de maio de 2011

Outro apocalipse zombie

Esta última noite foi incrível (no que concerne a sonhos... porque não saí de casa e dormi com o meu irmão)! Vivi duas aventuras fantásticas, uma após a outra!
A primeira passava-se durante um apocalipse zombie. Bem, na verdade, não era um apocalipse... Porque a vida continuava a decorrer normalmente: bastavam alguns cuidados para a população viva evitar qualquer contacto com a morta.
Ainda assim, eu tinha imenso medo de sair de casa. Todavia, quando a minha mãe chegou a casa, insistiu para que eu fosse comprar pão. Fiz "olhinhos-de-bambi", choraminguei, chantageei, mas não me serviu de nada.
Com as pernas a tremer, meti-me no elevador e saí no andar errado (no prédio de Massamá há dois andares que dão acesso à rua). Atravessei o jardim, percorri as ruas, até chegar à estação de comboios de Monte-Abraão. Só depois de entrar num comboio e este iniciar a sua marcha é que me apercebi que estava a seguir um caminho completamente errado.
Aborrecida de morte por me ter enganado, saí na estação seguinte, decidida a entrar no primeiro comboio que seguisse no sentido contrário, para poder regressar a casa.
No entanto, não sei como, deparei-me com um grupo de pessoas feridas e assustadas que temia a chegada de zombies a qualquer hora. Não consegui partir sem os ajudar.
Depois, só me lembro de estar numa casa, mais especificamente numa cozinha apertada, com duas portas: uma em cada extremidade. Uma delas dava para a rua, e eu estava apoiada contra ela, usando o meu peso para impedir um grupo de zombies famintos de entrar. Tinha medo. Tanto medo.
Estava comigo uma mulher grávida, o respectivo marido, e um outro homem. Ela tinha cabelo loiro e curto, preso num minúsculo rabo-de-cavalo. Não me lembro do seu marido. O outro homem era bonito, tinha o cabelo castanho curto e a barba por fazer.
O resto do grupo tinha-nos deixado: quando perceberam que a mulher grávida não podia fugir dali a tempo de escapar aos zombies, deixaram-nos para trás.
-AAAAH!- gritei, quando vi uma série de dedos putrefactos passar pela porta.
Eu e a mulher grávida atirá-mo-nos de costas contra a porta várias vezes, e assim que o monstro recuou, trancámos a porta e deixámo-nos cair onde estávamos: ela encostada à porta e eu a uma bancada.
Entretanto, os dois homens não se mexeram: limitaram-se a olhar para nós boquiabertos, com os olhos arregalados de medo.
Instantes depois, apareceu à outra porta um bebé morto:
-Meu Deus... -murmurei - um bebé zombie.
Os zombies tinham conseguido entrar por outro lado qualquer. Estávamos cercados.
Muito mais rápido do que eu imaginara que ele fosse capaz, o bebé correu para a mulher grávida e saltou sobre a a barriga dela, começando nesse mesmo instante a comê-la.
As duas gritámos como só as mulheres conseguem, e segundos depois o homem bonito caiu à minha frente com vários zombies adultos agarrados às suas costas (com unhas e dentes, literalmente) tentando a todo o custo arrancar pedaços de carne.
Amparando-me na bancada, levantei-me, abri a porta a que a mulher grávida estava encostada e saltei para a rua. Tudo isto sem que eu parasse de gritar.
Na rua, desferi murros e pontapés a torto e a direito, e consegui atravessar a multidão de zombies sem que me tocassem.
O marido da mulher grávida, que me seguira, não teve tanta sorte: um dos mortos cavara com as unhas um profundo buraco na palma da sua mão.
-Arranharam-me! Arranharam-me! - gritou o homem.
Ao ouvi-lo, soube que dentro de algum tempo ele seria um daqueles monstros. Senti por ele uma repulsa que era quase nojo, e preparava-me para abandoná-lo entre os mortos quando os seus gritos de me despertaram pena. Voltei atrás e segurei firmemente a sua mão sã, puxando-o na minha direcção com toda a minha força.
Quando se apercebeu da minha presença, o homem calou-se, fitou-me por instantes, com os olhos muitos redondos e a boca entreaberta, e seguiu-me.
Não sei como nem porquê, mas estávamos novamente na estação de Monte Abraão, e não naquela onde eu saíra por engano.
Atravessámos uma passagem superior, quase caímos numa valeta ao tentar contorná-la, e finalmente fomos agarrados por dois policias que nos enfiaram num jipe: iam levar-nos a casa.
Muito encolhida no meu assento, eu esforçava-me por não olhar para o homem que salvara. Não conseguia decidir se devia ou não revelar aos polícias que ele fôra infectado.
Tinha imensa pena dele: vira a morrer a mulher e o filho que ainda nem nascera, e sabia que dentro de algum tempo ele próprio seria um monstro como aqueles que, naquela altura, deviam estar a devorar a carne das pessoas que mais amava no mundo.
Mas se não dissesse nada, era possível que ele viesse a matar ou infectar outras pessoas...
O jipe parou diante de uma casinha baixa e estreita, feita de um material cuja cor lembrava o barro. Era uma adorável: tinha flores vermelhas nos parapeitos da janelas e cortinas de renda. Estava entalada entre várias outras casas semelhantes, numa rua muito inclinada.
O homem saiu do carro e entrou em sua casa.
Depois os polícias continuaram a descer a rua, para me levarem a mim a casa.
Fui incapaz de tirar os olhos da casinha do homem até ela desaparecer por detrás de outras casas e prédios.
Não sei o que acontecera entretanto, mas de repente aquele homem nunca tinha sido casado com a mulher grávida: era meu namorado. Enquanto os polícias me levavam a casa, eu tentava decidir se iria ou não tornar a visitá-lo, antes de ele sucumbir à infecção.
Quando cheguei a casa, todas as luzes estavam apagadas excepto a do hall de entrada.
"Espero que o Tomás me deixe dormir com a mãe, hoje." pensei. Fui até à sala e deparei-me com o meu irmão estendido no sofá, a dormir. Tinha a farda da escola vestida e tapava os olhos com o braço direito.
Deixei-o e fui ao encontro da minha mãe, que me abraçou com força. Ela já soubera o que acontecera:
-Deixa-me dormir contigo, hoje. -pedi-lhe.
-Claro.

Não percebo porque estaria o meu irmão a dormir no sofá quando podia ter ido para o seu próprio quarto... Mas esse é talvez o pormenor mais insignificante de todos.

No próximo post: o outro sonho fantástico que se seguiu a este.

sábado, 21 de maio de 2011

Orgulho vão e noites a pé

Creio que foi há um mês que sonhei este sonho: em vez de morarmos na quinta do meu padrasto, morávamos todos num pequeno apartamento, situado numa cidade cujas ruas tinham um aspecto pobre e sujo, e onde nenhum prédio tinha mais de quatro andares.
Tinha discutido com o meu padrasto, já não sei porquê... Apesar de o motivo não o justificar, saí de casa, decidida a passar a noite fora. Lembro-me muito claramente de querer que não me quisessem em casa, só para ter uma desculpa para tomar aquela ridícula atitude.
Estava muito mais frio na rua do que eu imaginava, mas o meu orgulho não me permitiu regressar a casa. Aliás, não mudei de ideias nem mesmo quando me cruzei com alguns vagabundos de aspecto ameaçador, que me encheram de medo.
Subitamente, começou a chover. Impelida pela minha vontade inabalável, comecei a procurar um lugar resguardado onde pudesse dormir.
Deitei-me à entrada de um prédio com uma porta metálica. Como as gotas de chuva ainda me alcançavam, senti que tinha ganho a sorte grande quando alguém saiu do prédio: aproveitei imediatamente a oportunidade para entrar.
O interior era escuro e lúgubre: as paredes estavam revestidas de uma tinta cinzenta ou verde, já muito gasta, e sob os meus pés havia uma extensa escadaria de madeira, que, curiosamente, era horizontal em vez de vertical, paralela ao chão desde o principio até ao fim.
Curiosa, avancei uns passos e premi um botão, que deveria indicar o número respectivo a um andar (já não me lembro onde estava o tal botão, mas estava lá).
No momento em que o fiz, as escadas começaram a avançar sozinhas, e fizeram-me pensar nas escadas mágicas de Hoghwarts, ou nas escadas rolantes da estação de comboios do Areeiro.
Pararam subitamente diante de uma porta. Foi então que percebi que naquele lugar os prédios não precisavam de ser altos porque os andares se distribuíam no comprimento, e não na altura. Achei que era algo extremamente estúpido, mas fiquei fascinada por isso de qualquer maneira.
Um homem de aspecto rude, e muito magrinho, abriu a porta. Ficou muito feliz por me ver, e cumprimentou-me calorosamente (tenho a certeza absoluta que já tinha sonhado com ele antes... devo tê-lo salvo de algum monstro, ou algo do género). Convidou-me a entrar e apresentou-se à sua mulher, que estava numa velha e apertada cozinha, com paredes revestidas de uns azulejos acastanhados muito feios. Através das portas do casa, que estavam todas escancaradas, consegui ver os filhos do casal a brincar na banheira, completamente às escuras.
Eram pessoas simpáticas e estava a divertir-me com eles... Mas tinha consciência de que precisava de dormir, porque em breve teria de ir para a faculdade e precisava mesmo de descansar.
O homem pediu-me para passar lá a noite, e tive muita vontade de aceitar, até me lembrar que a minha mãe ficaria muito assustada/zangada se acordasse de manhã e soubesse que eu tinha passado uma boa parte da noite sozinha na rua, e outra na casa de um desconhecido. Ainda por cima, sem ter avisado ninguém. Por isso, agradeci ao casal o seu convite, mas recusei-o e expliquei-lhes porquê, acrescentando que teria de estar em casa antes de madrugada.
Eles ficaram muito aborrecidos com a minha resposta, e começaram a preparar "um farnel para a minha viagem de regresso".
Tentei ser paciente e esperar, mas estava exausta e via desesperadamente o Sol nascer lá fora, sem que eu tivesse dormido um só instante e imaginando a ira da minha mãe quando chegasse a casa.
A cozinha feia do casal transformara-se entretanto na cozinha da casa da minha mãe: muito espaçosa, toda branca e luminosa, só que bastante desarrumada.
Quando finalmente consegui sair de casa do casal, já tinha amanhecido. Olhei para o céu com um suspiro, e pensei que depois das aulas poderia finalmente dormir.

Acho muito interessante o facto de estar a dormir e mesmo assim sonhar com insónias...

sábado, 14 de maio de 2011

Este sonho foi mesmo estranho, e já chocou alguns colegas a quem o contei: não sei porquê, mas vivíamos todos com um dos nossos professores. Dormíamos todos no mesmo quarto, em vários colchões espalhados pelo chão. A cama estava reservada ao professor e a dois colegas meus... que não reagiram muito bem quando lhes contei isto (apesar de não haver nada entre eles e o dito professor).
Esqueci-me que devia ter publicado este sonho antes de "Minões, minões" : é-lhe anterior...
Seja como fôr, estava no jardim da quinta onde moro, mas não na parte bonita, diante da qual as pessoas param para tirar fotografias. Estava na parte selvagem, onde o terreno é íngreme e a relva tão espessa que é difícil caminhar entre ela. Por todo o lado há pedras, árvores tombadas, e muitas, muitas mimosas. Aquelas plantas são uma autêntica praga.
Estava com o meu irmão (que na realidade nunca vai para o jardim, muito menos para a parte selagem, desde que deixámos de ser crianças) e tinha entre as mãos um cachorrinho recém-nascido: estávamos a celebrá-lo. A determinada altura o bebé começou a urinar nas minhas mãos (isto acontece-me sempre...), e tive de o afastar um pouco de mim para não me sujar mais.
Pouco depois, estávamos no cantinho mais remoto de toda a quinta com toda a nossa família, unicamente por causa do bebé.
Durante a festa, a mãe do meu padrasto aproximou-se de mim para comentar como os homens não lhe resistiam, apesar da sua idade avançada. Eu lancei-lhe um olhar de desprezo pelo canto do olho (ultimamente ela tem-se revelado uma pessoa extremamente cruel), entreguei o cãozinho a alguém e comecei a trepar pelas pedras, dizendo bem alto:
-Com licença, tenho de ir ao meu quarto ver se alguém me roubou... - a mãe do meu padrasto ofendeu-se muito com o que eu disse: era bastante claro que estava a gozá-la, uma vez que vive apavorada com a ideia com que a roubem. Aliás, todas as empregadas que teve até agora, por muito amáveis, prestáveis e educadas que fossem, eram aos seus olhos ladras cínicas. Os filhos dela também são ladrões, os caseiros das suas quintas também são ladrões,... Ironicamente, existem pessoas que a roubam mesmo, e dessas, ela nunca suspeita. Pensa que são pobres criaturas injustiçadas que precisam do seu socorro, ou então que nutrem por ela um verdadeiro interesse ou até amor passional, e merecem o seu dinheiro... perdão, a sua atenção.
Então ela pôs-se a subir a encosta atrás de mim, a tagarelar, sem que eu lhe desse importância.
Entrei em casa (que parecia uma daquelas coisas enormes e coloridas onde os miúdos brincam no McDonald's) e fui até uma espaçosa divisão destinada aos meus cães, onde havia somente um sofá.
Ela continuava a cacarejar incansavelmente atrás de mim, e de repente senti-me tão cansada (e senti mesmo), que caí no sofá e desmaiei.
Então entraram na sala vários actores, vestidos com bonitas roupas coloridas que lembravam os palhaços do Circu du Soleil. Estou convencida de se tratavam dos meus cães transformados em pessoas.
Não existem palavras para definir a raiva que nutriam pela mãe do meu padrasto naquele momento. Mataram-na, e, no momento em que acordei, já não restavam nenhumas provas do crime.

Minões, minões

Há cerca de uma semana sonhei que me encontrava num condomínio privado com bonitas casas amarelas, muito semelhante ao que fica diante da quinta onde moro. Não se via nem ouvia ninguém.
Só quando passei por uma pequena ponte que ligava duas casas ouvi risos. Olhei para cima e constatei que se tratava de duas crianças acompanhadas de um cão, que tentava transpor as grades e saltar lá para baixo, para ao pé de mim. Sorri ao vê-lo, e, para divertir os pequenos, passei por debaixo da ponte várias vezes, para lá e para cá. Sempre que eu ia para "lá", a cabeça do cão aparecia na ponte a espreitar para o lado de "lá"; se eu ia para "cá", o cão corria e olhava para o lado de "cá".
De repente, vi-o saltar para cima das grades e equilibrar-se (muito mal) sobre elas, com as patas dianteiras e traseiras muito juntas, como se estivesse sentado. Percebi imediatamente que ia tentar saltar:
-Não! -ordenei. -Não saltes!
Mas ele saltou.
Soou um estrondo abafado no momento em que ele tocou no chão, e eu senti o ventre gelado. Corri para ele e debrucei-me sobre o seu corpo inerte. Verifiquei que quase não respirava, e apesar de ver nem uma gota de sangue, ou qualquer outro sinal de que ele se tinha magoado, deduzi que estivesse completamente partido por dentro. Com cuidado, apalpei-lhe o corpo, à procura de ossos partidos.
Só então me apercebi que aquele cão se parecia muito com o Alex. Era, aliás, igualzinho a ele, mais do que um irmão gémeo. Posso, no entanto, garantir que não era ele.
Tinha acabado de verificar que uma pata traseira estava intacta quando o cão começou a dar ao rabo. Um pouco hesitante, ele levantou-se, e depois ficou ali a olhar para mim, todo contente, a abanar o corpo todo como se não lhe tivesse acontecido nada.
Nesse momento, vi que o mundo tinha girado debaixo de mim e do cão sem que eu me tivesse apercebido: o cão caíra do lado de "lá" da ponte, no entanto, estávamos os dois agora no lado de "cá". Sorri de alívio e afaguei o seu pêlo dourado antes de me ir embora.
Não me lembro do caminho que percorri: apenas de chegar a casa. Era muito diferente do que é na realidade. Em vez de ter aquele ar adorável de casinha de campo, parecia uma daquelas casas todas modernas, muito minimalistas. Era completamente branca, e parecia feita de quadrados, construídas unicamente com linhas rectas perpendiculares entre si.
Entrei por uma garagem um pouco escura, onde a única fonte de luz era o portão aberto. Estava lá a minha mãe, a queixar-se de alguma coisa em relação ao meu padrasto. Estava furiosa. Ouvi-a em silêncio, sem nenhuma vontade de me envolver nas suas discussões.
Pouco depois ele apareceu, e começaram os dois a discutir. O problema tinha qualquer coisa haver com dinheiro... Sempre o dinheiro.
No meio de tantos gritos, tanta confusão, tanta coisa, a minha mãe disse-lhe algo que ele não gostou nada de ouvir (mas que era verdade). Ficaram os dois mudos, a olhar um para o outro por breves instantes. Depois, o meu padrasto voltou-nos as costas e foi-se embora. Eu subi as escadas juntamente com a minha mãe e entrámos num quarto espaçoso e bem iluminado, com duas grandes janelas que davam para duas varandas. O chão era de uma madeira muito clara. Suponho que há esquerda de quem entrava havia uma pequena cama de casal, e há direita uma parede toda ocupada por um guarda-fatos. Em suma, era um quarto muito semelhante ao de uma tia minha, só que, exceptuando a cama, estava completamente vazio.
Mal entrámos, ouvimos um ganido horrível, que nos fez tremer de receio e ansiedade. Nem um segundo passara, o meu padrasto apareceu numa das varandas (não sei como subiu até lá) e entrou no quarto, com um grande objecto metálico na mão. Não me recordo muito bem do que era, mas suponho que se tratasse de um pé-de-cabra.
-Sabes o que acabei de fazer? - perguntou à minha mãe, cheio de raiva -matei um cão.
Mal disse isto, começou a bater com aquelas coisa metálica no chão, disposto a destruir a casa.
Depois, tudo aconteceu muito rápido.
"Deus queira que não tenha não tenha sido um dos nossos" foi a primeira coisa que pensei (muitas pessoas costumam deixar os seus animais connosco quando se ausentam por um motivo qualquer, uma vez que nos servimos dos nossos canis como um hotel para cães). "E se foi o Alex?" pensei de seguida.
-AAAH! -rugi - Como podes ser tão mau?!
Atirei-me para cima dele e mordi-o com tanta força que penso que tenha arrancado um pedaço de carne da sua perna.
Acordei imediatamente depois, encharcada de suor.